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História mal contada:
em depoimento
de duas horas, Abel não conseguiu
convencer a Polícia Federal |
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| Dossiê |
| Abel não se explica |
Acusado de ligar os tucanos à máfia
dos sanguessugas, empresário cai
em contradição, não convence a PF
e terá que depor na CPI |
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Por Hugo Marques, de Cuiabá
(MT),
e Alan Rodrigues |
Entre os policiais federais que investigam o chamado caso do dossiê
Vedoin há uma certeza: o empresário paulista Abel
Pereira, apontado como o elo entre políticos do PSDB e a
máfia dos sanguessugas, não consegue se explicar.
Na segunda-feira 23, cercado por três advogados criminalistas,
Abel permaneceu durante duas horas frente a frente com o delegado
Diógenes Curado Filho na sede da Polícia Federal em
Cuiabá (MT). Respondeu a diversas perguntas, foi confrontado
com uma série de documentos bancários já em
poder da Justiça e caiu em várias contradições.
Transcrito, o depoimento de Abel ocupa quatro folhas com 147 linhas.
Logo no início, ele é questionado sobre sua relação
com o prefeito de Piracicaba (SP) e ex-ministro da Saúde,
Barjas Negri. Responde de forma curta e grossa: “Nunca tive
contato ou acesso ao Ministério da Saúde, seja diretamente
com o Barjas ou com seus assessores.” No final do depoimento,
quando colocado diante de uma fotografia publicada por ISTOÉ
há três semanas, que mostra Abel ao lado de Barjas
no principal gabinete do Ministério da Saúde, o empresário
apresentou nova versão: “Em 2002 o então prefeito
de Jaciara (MT), Valdizete Martins, me pediu que tentasse conseguir
uma entrevista com o então ministro para conseguir recursos
para a construção de um hospital na cidade. Mesmo
não tendo amizade com o ministro mantive contatos e foi agendada
uma entrevista. O ministro deu as orientações para
Valdizete e depois conseguiu os recursos.”
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Velhos amigos: Abel e Barjas
no
gabinete do ministro em 2002. A
imagem desmente a versão |
Ninguém acreditou. Na PF todos sabem a dificuldade de se obter uma conversa reservada com um ministro. Como é que Abel conseguiu intermediar um encontro do prefeito com Barjas se ele não possuía uma relação mais estreita com o ministro? Um outro detalhe que compromete a versão de Abel é o fato de a obra liberada ter sido feita pela construtora do próprio Abel. Na terça-feira 24, ISTOÉ entrevistou Valdizete Martins. O ex-prefeito também compromete a história contada por Abel à PF. “Ele (Abel) falou que ia me ajudar a conseguir a audiência. Disse que eram da mesma cidade e vizinhos”, contou. Segundo Valdizete, entre sua conversa com Abel e a audiência no Ministério passaram-se apenas oito dias. “Barjas disse que iria correr contra o tempo. Mas o dinheiro foi liberado”, lembra.
Outra contradição que, segundo os federais, reforça
as suspeitas contra Abel diz respeito à família Vedoin,
chefe dos sanguessugas. No final de setembro, em entrevista concedida
a ISTOÉ, Luiz Antônio Vedoin afirmou que Abel era quem
conseguia liberar junto ao ministro Barjas Negri as verbas para
a compra de ambulâncias superfaturadas. Segundo Darci Vedoin,
Abel ficava com 6,5% de todo
o dinheiro liberado pelo Ministério da Saúde. Em depoimento
prestado à Justiça no dia 11, Luiz Antônio confirmou
tudo o que dissera à revista, inclusive o valor das propinas
pagas a Abel. No mesmo depoimento, Luiz Antônio disse que
fora procurado por Abel dias antes de a PF apreender em São
Paulo o R$ 1,7 milhão
que alguns petistas pagariam aos Vedoin em troca de um dossiê
fajuto. A polícia suspeita que Abel estaria tentando comprar
o silêncio dos Vedoin. Abel nega tudo. Disse que não
procurou a família Vedoin, mas que teria sido procurado por
eles, interessados em vender um dossiê contra o senador petista
Aloizio Mercadante.
Mais uma vez, a versão de Abel não convenceu. Isso
porque o rastreamento telefônico em poder da PF indica que
Abel estava mesmo procurando falar com os Vedoin em Cuiabá
desde meados de agosto. “Ele nos procurou, mas não
o atendi”, disse Vedoin. A PF não se convenceu das
histórias contadas por Abel e agora trabalha em rastreamentos
bancários que poderão comprovar as propinas. Também
a CPI dos sanguessugas investiga o caso. Depois das eleições,
Barjas e José Serra, o antecessor e padrinho de Barjas no
Ministério, serão chamados a depor. Os ex-ministros
do atual governo Humberto Costa e Saraiva Felipe também serão
convocados. Depois, será a vez de Abel.
Mas não é apenas a participação de Abel que coloca o ex-ministro Barjas Negri no alvo da polícia. Quando deixou o Ministério, Barjas assumiu a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU). Lá existem fortes indícios de irregularidades. Muitas cometidas com a participação de empresas ligadas a Abel. Em 1999, Arnaldo Negri, irmão de Barjas, foi apontado em auditoria da CDHU como participante de uma quadrilha que recomercializava unidades habitacionais construídas pelo Estado. Em 2001 Armando foi exonerado. Dois anos depois, quando Barjas assumiu a presidência da CDHU, Armando voltou como gestor do Programa Habiteto, que constrói casas populares. Até hoje permanece no cargo e seu papel é negociar diretamente com prefeitos a liberação de verbas. Esta semana, Barjas será convidado a depor na Assembléia Legislativa de São Paulo. Na ocasião, terá que dar explicações sobre 137 obras que o Tribunal de Contas do Estado julgou irregulares.
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