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Famílias brasileiras superaram
as americanas: navegam, em
média, 20 horas por mês |
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| Comportamento |
| Mais unidos pela web |
A internet revoluciona a vida dos
brasileiros que usam a tecnologia
para estreitar os laços familiares |
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Por Julio Wiziack
Colaborou Luciana Sgarbi |
O casamento dos empresários paulistas Anderson e Marisa
Batista terminou como terminam muitos casamentos – pessoalmente,
e um atirando ofensas no rosto do outro. Diferente é a forma
como eles se reconciliaram tempos depois, a ponto de viverem novamente
juntos – pela internet. Pode até ser que aquilo que
os olhos não vêem o coração não
sente, mas que os e-mails aproximam, isso é um fato.
Casamento desfeito, Anderson foi morar na casa dos pais e começou
a procurar antigos amigos teclando pela internet. Dois meses após
a separação, ele encontrou a ex-mulher online
na sua rede de contatos do MSN, um dos meios de comunicação
eletrônica instantânea. A saudade veio através
da máquina e os dois iniciaram um diálogo virtual.
Os contatos se estenderam por quase um mês, até marcarem
um encontro. Casamento reatado, hoje se vê na casa de Anderson
e Marisa um papel colado na porta da geladeira. Nele se lê:
“Se o tempo fechar, mande um e-mail”.
A história desse casal espelha as mudanças de comportamento impostas pela internet nas relações familiares. Já houve dentro dos lares outros impactos tecnológicos que transformaram o funcionamento da família. Rádio e televisão, por exemplo, entraram no centro da sala quase hipnotizando todos os familiares. Mas nenhuma tecnologia foi tão inovadora quanto o computador. Ele virou o elo, a interface familiar. Hoje é comum, através da internet, os pais acompanharem a vida de seus filhos. Também se valendo dessa tecnologia, organizam-se tarefas domésticas, programa-se lazer, fazem-se compras, pagam-se contas, movimenta-se a conta bancária. É como se a internet tivesse se tornado, ela própria, um “parente” nos lares brasileiros.
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| Compras online dão mais
tempo para Neusa Sapienza ficar com a família |
Pai de três filhos, o presidente do Grupo Gestor da Internet
(GSI), Demi Getschko, utiliza-se de e-mails quando precisa
dar uma bronca em seus filhos: “Eu consigo ser mais conciso
e ir direto ao ponto sem estourar com eles”. Outro hábito:
uma vez por semana, ele envia para a família dicas de sites
interessantes. “Falando a mesma linguagem, a gente se aproxima”,
diz o engenheiro. Já o presidente da Associação
Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações
da Rede Internet, Antônio Tavares, controla pela tela do computador
a andança de seus filhos. “Consigo me sentir mais tranqüilo”,
diz ele. Tavares, que tem uma neta de apenas um ano e faz o estilo
avô coruja, viajou em junho para o Marrocos. Foi a primeira
vez que ficou longe dela e, para amenizar a saudade, marcou hora
para a família conversar pela internet em videoconferência:
“Minha neta me via na tela do computador e sorria.”
Se a revolução que a internet promoveu serve cada
vez mais para aproximar as pessoas, ela também tem funcionado
para introduzir gente nova na família. É o
caso da estudante Ana Carolina Grasso, 18 anos. Foi via internet
que ela apresentou o seu namorado. “Os meus pais o conheceram
primeiro pelo computador, depois pessoalmente”, diz Ana Carolina.
“Foi o jeito que encontrei para quebrar o
gelo.” Na verdade, o gelo foi quebrado além da conta.
A sua mãe gostou de computador e hoje vasculha o Orkut da
filha para conhecer seus amigos e checar
se ela está “andando na linha”.
Foi também para essa checagem que a médica Maria Cristina Rebecchi mergulhou na internet. Desde que seu filho Vinícius foi estudar em Londres, eles não passam um dia sem conversar pelo MSN ou pelo Skype, programa que permite ligações telefônicas. “Fiz com que ele comprasse um computador com webcam para mantermos contato”, diz a mãe. “Cuido dele assim.” Empolgada, a médica também aproveita os intervalos das consultas para se conectar com o irmão que mora na Alemanha: “Antes de eu descobrir a internet, a gente mal se falava.”
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| A conversa via MSN ajudou Anderson
e Marisa Batista a reatarem o casamento |
A psicóloga Ana Olmos, especialista em comportamento de
adolescentes, se rendeu ao fascínio da rede. A sua filha
Carolina, 22 anos, trancou o curso de medicina em São Paulo
para trabalhar na África na área de saúde.
Diariamente, mãe e filha conversam pelo Skype e trocam e-mails.
“Prefiro o e-mail porque a Carolina se revela mais”,
diz Ana. A psicóloga explica que, relacionando-se pessoalmente,
as pessoas podem criar barreiras, ficando na defensiva. “Pela
rede aumentam as chances de nos relacionarmos de uma forma mais
livre, verdadeira e integrada.”
Além de estreitar laços, a internet oferece produtos
sofisticados – muitos deles ligados diretamente ao conforto
e à segurança. Um dos herdeiros de uma conhecida rede
de fast-food (que prefere não ter seu nome revelado)
acaba de instalar em sua casa, num condomínio fechado de
São Paulo, um sistema que controla todos os cômodos
da residência. Pelo computador, o empresário pode abrir
e fechar portas, janelas e cortinas. Mais: consegue encher ou esvaziar
a sua banheira e aquecer o piso da residência. E, se sair
apressado e esquecer de apagar alguma lâmpada, basta um clique
no mouse do computador de seu escritório ou um comando
do celular (que é pré-programado) para resolver o
problema. Por tanto luxo, conforto e segurança ele teve de
pagar mais de R$ 100 mil.
A utilização da banda larga no Brasil não
pára de crescer e somente essa rede de alta velocidade pode
suportar serviços tão requintados. Atualmente, oito
entre dez brasileiros de classe média estão conectados
à rede, navegam velozmente e a maioria dos acessos é
feita em casa. Com esse índice, as famílias brasileiras
deixaram para trás as americanas, européias e japonesas,
que ainda preferem a conexão discada (aquela que deixa o
telefone mudo toda vez que se entra na internet). Segundo o Ibope/NetRatings,
cada domicílio do País gastou em julho
deste ano, em média, 20 horas na rede, duas a mais que os
domicílios japoneses
e três a mais que os dos EUA. “Sem infra-estrutura,
nada disso seria possível”,
diz Ethevaldo Siqueira, um dos maiores especialistas em tecnologia
da
informação no País.
Outro impacto é a economia de custos. A compra de carro,
por exemplo, passou a ser fundamentalmente determinada pelo computador.
Segundo Fabia Juliasz, diretora executiva do Ibope/NetRatings, a
cada 20 consumidores que adquirem veículos novos, 15 fazem
pesquisas de preço pela internet. E o comércio eletrônico,
que começou anêmico há uma década, não
pára de bater recordes: no primeiro semestre desse ano, as
vendas online atingiram R$ 1,7 bilhão, 80% a mais
que
no mesmo período do ano passado. O grupo Pão de Açúcar,
que lançou o conceito de supermercado virtual, recebe, em
média, 90 mil pedidos por ano. Basta clicar
na lista dos 12 mil produtos disponíveis para receber a compra
no endereço e
no horário mais convenientes. A escritora Neusa Sapienza,
62 anos, é uma das clientes mais ativas. “Pela internet
eu não caio na tentação de comprar mais do
que devo”, diz ela. Com a economia que faz e o tempo que sobra,
Neusa consegue cuidar de si mesma e de sua casa: “A internet
me dá força para que eu seja, cada vez mais, a rainha
do lar.”
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