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Por enquanto, eles querem apenas
ficar: para Rodrigo Fleury e Thaina
Levy, dois estudantes paulistanos
que já “ficaram”, namorar é outra
história. E aí, sim, quando houver
amor, o sexo poderá finalmente rolar |
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| Sexualidade |
| O sexo na adolescência |
Uma ampla pesquisa sobre a
sexualidade dos jovens mostra
que dois em cada três descobrem
o sexo até os 16 anos e que transar
com o primo é coisa do passado |
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Por Célia Chaim, Eliane Lobato
e Hugo Marques |
As meninas muitas vezes ainda brincam com suas bonecas. Os meninos
custam a deixar os jogos eletrônicos que os levam a ficar
grudados por horas a fio no computador. Mas o mundo desses adolescentes
se resume apenas a essas amenidades? Definitivamente não.
E as provas desta tese são os resultados de uma pesquisa
inédita, a maior sobre a sexualidade dos jovens brasileiros
já feita no País, chamada Juventude, juventudes:
o que une e o que separa. O estudo de fôlego foi realizado
pela Organização das Nações Unidas para
a Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, com
a coordenação das sociólogas Miriam Abramovay
e Mary Garcia Castro. ISTOÉ teve acesso com exclusividade
às 470 páginas do trabalho. Os pesquisadores ouviram
dez mil adolescentes em todos os Estados do País e chegaram
a revelações importantes. Uma delas: 66,5% desses
jovens, ou seja, dois em cada três, têm a primeira relação
sexual até os 16 anos. Em números, são 25,3
milhões de pessoas. Outra: 16,1% dos entrevistados disseram
que a primeira vez aconteceu até os 13 anos, ou seja, 6,1
milhões de pessoas.
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Muito namoro - e - muito cuidado:
a primeira experiência sexual de
Felipe Izing foi aos 13 anos com
uma “guria” dois anos mais velha.
Tem uma vida sexual saudável. “Camisinha sempre”,
diz |
Tiago Vargas descobriu os prazeres sexuais aos 14 anos, com uma amiga da escola. Hoje, cinco anos mais velho, já perdeu as contas: “Foram de 30 a 40 mulheres só nos últimos 12 meses”, diz. “Muitas vezes é com desconhecidas.” Morador da área nobre de Brasília, olhos verdes, ele acha que tem todo o conhecimento necessário para se proteger e evitar doenças. Às vezes, embalado pelo álcool, admite que deixa de lado a camisinha e corre risco. Excluindo o grande número de parceiras sexuais, o perfil da iniciação sexual de Tiago é um resumo do modelo experimentado por quase todos os brasileiros de sua geração.
A socióloga Miriam Abramovay explica que o levantamento
é um dos retratos
mais claros que se tem até hoje dos filhos da internet, a
geração que cresceu
na era da globalização. “Fiquei impressionada.
Eles estão com a sexualidade
a toda prova”, diz Miriam. “E começam a atividade
sexual cada vez mais cedo.”
A iniciação sexual é mais precoce nas camadas
mais pobres. Nas classes D e
E, 16,8% deles se iniciam com apenas 13 anos. Nas faixas menos favorecidas
estão 26,7 milhões com menos de 18 anos. Entre os
seis milhões dos setores
mais ricos do Pais, as classes A e B, o índice cai para 13,9%.
Na classe C, com
15,1 milhões de jovens e adolescentes, a taxa é de
15,7%. A amostragem da pesquisa se refere a todos os 47,8 milhões
de jovens das regiões metropolitanas, periferias, interiores
e áreas rurais.
Embora aconteça cedo, e apesar dos descuidos, os adolescentes
estão muito
bem informados. Na maioria dos casos, sabem, no mínimo, o
que têm de usar e fazer para transar. Na avaliação
da pesquisadora Miriam, é preciso entender o vocabulário
dessa juventude para produzir uma orientação com resultados
mais efetivos. Quando eles falam em “ficar”, geralmente
a coisa não passa de
uma simples troca de beijos, abraços e carinhos. Namorar
é outra história: não raramente inclui sexo
com o namorado ou o amigo. Tudo leva a concluir que o
“mito do primo”, a descoberta das sensações
de prazer com o parente mais próximo, nas temporadas em que
ficam juntos, é algo que a nova geração enterrou
de vez. De certo ponto, isso é positivo. “O baixo número
de relações sexuais com parentes que apuramos, um
número bem menor do que as mantidas com desconhecidos e até
profissionais de programa, derruba o mito do elevado número
de relações entre primos”, confirma a socióloga.
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À espera do momento certo
e do amor:
A brasiliense Gabriela Monteiro, de 14 anos, “ficou”
algumas vezes e teve cinco namorados. Mas ainda não transou.
“Só vai rolar quando eu sentir amor pela pessoa”,
garante ela |
Outro ponto interessante é que a violência e a Aids levaram os mais novos a se agregar mais. Por isso, o estudo descobriu uma alta taxa de sexo com os amigos e um índice considerável de relatos de fidelidade ao namorado. ISTOÉ ouviu três garotas em Brasília. Todas disseram ter “ficado” com garotos várias vezes sem fazer sexo. A estudante Gabriela Monteiro, 14 anos, é uma delas. “Ficou” algumas vezes e teve cinco namorados. “Só vou transar quando eu sentir amor pela pessoa”, diz Gabriela. “Acho que eu nunca amei ninguém.” Ela estuda no primeiro ano do segundo grau e acha que já tem todas as informações necessárias para se proteger.
O carioca Garp Esteves Bruno, 17 anos, que já teve várias namoradas, não é tão romântico quanto Gabriela. Atualmente só, explica: “Garotas tem um monte. Mas as bacanas, as legais, estão difíceis. Hoje, comigo é só rolo.” Menina legal, para ele, é aquela que tem “algo mais”, com quem “o papo acontece.” Sua primeira vez foi há dois anos, “com uma namoradinha”. Depois de muitos beijinhos e carícias, eles foram para a casa de um primo dela “e rolou.” Garp não acha que foi tarde: “Aconteceu na hora que tinha de ser. Sei que tem gente que tem a primeira experiência mais cedo, até com dez anos. Mas cada um tem sua hora, não existe padrão nisso.”
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“Atualmente, comigo é
só rolo”:
Garp Esteves Bruno, carioca, teve
várias namoradas, transou pela
primeira vez há dois anos, mas
está só. “Garota bacana tá difícil” |
Há pelo menos uma explicação convincente para a descoberta cada vez mais rápida dos prazeres do sexo. “A realidade se altera rapidamente com o bombardeio dos veículos de comunicação. Se por um lado sobra informação, o que leva a um conhecimento precoce sobre sexo, por outro ela nem sempre é bem compreendida, o que leva a dúvidas sobre prevenção de doenças e gravidez”, constata a ginecologista e sexóloga Maria Maldonado, da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro. Ela explica que, quanto menos informação as pessoas têm, mais vulneráveis estão em relação a questões de saúde reprodutiva, como gravidez não desejada, uso de métodos contraceptivos e contaminação pelo vírus da Aids. O melhor caminho, atestam esses estudiosos, não é tentar retardar a iniciação sexual dos garotos à força e a todo custo, mas fazê-los exercer a sexualidade com responsabilidade.
Aos 17 anos, Felipe Izing sente que o mundo está em
suas mãos. Nascido em Itapema, Santa Catarina, ele está
morando no Rio de Janeiro para exercer duas das mais badaladas profissões
do momento: modelo, que ele já é, e ator. “Vou
começar um curso de teatro brevemente”, afirma o surfista
de 1,82 m e ares de galã. Acostumado ao assédio feminino
desde muito novo, Felipe diz que teve sua primeira experiência
sexual aos 13 anos com uma “guria” dois anos mais velha.
A fila andou e ele teve um namoro “longo” – de
um ano e meio –, e alguns relacionamentos rápidos.
Hoje, namora há três meses uma carioca dez anos mais
velha. Felipe foi emancipado pelos pais, Marilene e José
Otto Izing, para que possa viver sozinho e trabalhar no Rio. Antes,
porém, recebeu todas as orientações necessárias
para levar uma vida sexual saudável. “Camisinha sempre!”,
resume. “Meus pais conversaram muito comigo e com meu irmão
mais velho sobre isso.” No livro Fala sério,
as médicas Evelyn Eisenstein (pediatra) e Andrea Teixeira
Matheus (psicóloga) explicam que “não existe
idade certa para deixar de ser virgem”. Para elas, é
o desejo que estabelece o momento – desejo que, para nosso
honesto personagem Felipe, surge diante de uma garota bonita com
uma conversa interessante. “Algumas vezes, vale a pena investir,
mas há garotas que só querem aquele único encontro,
não estão a fim de namoro, não.”
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Garoto animado e precoce: Tiago
Vargas
descobriu os prazeres sexuais aos 14 anos com uma amiga da escola.
Às vezes, animado, esquece
a camisinha |
Alguns pais explicam, outros exigem um exercício de autoridade
nem sempre aceito e aprovado. Thaina Levy, que acabou de fazer 18
anos, ficou com alguns amigos
um pouco mais velhos, mas nada ultrapassou a barreira
do “ficar”. Rodrigo Fleury, estudante de moda, foi um
deles. Ele é o que se chamaria de “livre, leve e solto”.
Ele conta que sua vida sexual começou aos 16 anos. Parece
bem distante de assumir algum namoro mais
sério. Para a socióloga Mary Garcia Castro, outra
coordenadora da pesquisa da Unesco, não é somente
a idade da iniciação sexual que surpreende. “As
meninas estão começando também cada vez mais
cedo”, diz. “O que se conserva em todas as faixas de
idade, principalmente entre as garotas, é que eles se entregam
principalmente quando há amor.”
O tempo voou na questão da mudança de comportamento em relação ao sexo. Dez anos atrás, era praticamente inadmissível pensar que namoradas e namorados adolescentes poderiam passar a noite juntos na casa dos pais. “Até mesmo em função da violência que corre solta, é melhor deixá-los passar a noite juntos e por perto”, completa a psicanalista Renata Galvão. Por sinal, a pesquisa da Unesco mostra que 20,7% dos pais brasileiros, ou um a cada cinco, possuem opinião semelhante à de Renata. No outro extremo da linha de definição de comportamentos, 60,3% proíbem os filhos adolescentes de chegarem tarde em casa. “A família brasileira é controladora, no bom sentido”, diz a socióloga Miriam. Mas, empurrada pelos fatos, está mudando numa velocidade bem maior do que acharia confortável.
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