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| Determinação:
Catarina, 43 anos, começou a beber aos 13. Só decidiu buscar
ajuda quando não agüentava mais sofrer. “Parei de tomar, mas
ainda tenho a doença. Não existe ex nessa história”, admite
ela, hoje coordenadora de um grupo de ajuda a dependentes |
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| Família |
| Minha mãe
é alcoólatra |
Aumenta a cada ano, no Brasil e no
mundo, o porcentual de mulheres
dependentes. As grandes vítimas são
os filhos, envolvidos numa rotina
de restrições e constrangimentos |
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| Por Célia Chaim |
*Manuel sempre percebeu que sua mãe era diferente
das mães de seus amigos. Às vezes sentia vergonha,
geralmente quando ela falava “enrolado” perto deles.
No começo, esses amigos davam risada nessas situações.
Depois, deixaram de ir à casa de Manuel. Na escola,
caçoavam dele. Sua mãe foi ficando cada vez mais “esquisita”,
limitando muito sua vida social e levando sua auto-estima a zero.
Não dava para convidar um amigo para ir a sua casa estudar.
Todos perceberiam o que ele se negou a perceber: sua mãe
(que morreu quando ele tinha 26 anos) era “esquisita”
por causa dos efeitos do uso excessivo do álcool. Era alcoolista.
Ele se escondeu da vida para esconder sua mãe, constantemente
embriagada.
Manuel não está, absolutamente, sozinho
em meio a essa realidade. Milhares de crianças e adolescentes
convivem com algum parente com a doença no Brasil. Pesquisadores
estimam que eles podem representar até 11,2% da população
do País, ou quase 20 milhões de brasileiros. O problema
é que, nos últimos tempos, as mulheres começaram
a aparecer com força cada vez maior nas estatísticas
dessa doença progressiva e incurável, de acordo com
a Organização Mundial da Saúde.
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A fé como aliada: muitas
igrejas e organizações religiosas desenvolvem trabalhos para
ajudar os dependentes a largarem
a bebida. O primeiro
passo na recuperação é difícil - admitir ser vítima
de uma doença grave |
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Estudos recentes mostram que crianças e adolescentes filhos
de pais com o vício estão mais sujeitos a desequilíbrios
emocionais e psiquiátricos. Normalmente, o primeiro problema
identificado é um prejuízo severo na auto-estima,
com repercussões negativas sobre o rendimento escolar e as
demais áreas do funcionamento mental. Esses adolescentes
e crianças tendem a subestimar suas próprias capacidades
e qualidades. Os males gerados pelo alcoolismo são a terceira
causa de morte no mundo. “É uma doença sutil,
que pode avançar até a morte”, diz Alice.
Ela bebeu durante 30 anos, parou há quatro e está
decidida a não voltar. Começou por volta de 17 anos.
“Ao longo do tempo passei da “cervejinha” aos
destilados. Quando acordei, bebia praticamente 24 horas por dia”,
conta ela. Não conseguia dormir. Às vezes, passava
pelo que ela chama de apagão, quando via “muitas aranhas
e cobras”, imagens que se confundiam com uma intensa mania
de perseguição. Seu único filho, o jovem Eduardo,
diz que “enterrou sua juventude no vício da mãe”.
Catarina, 43 anos, é uma brasileira linda, tipo
Sonia Braga antes das plásticas. Sorri o tempo todo, deixando
ver seus dentes perfeitos. Começou a beber aos 13 anos. “Aos
35, passei a associar outras drogas ao álcool.” Só
foi pedir ajuda a uma associação de alcoólicos
anônimos quando não conseguia parar em pé. Embora
tenha deixado de beber há alguns anos, sob o ponto de vista
clínico, não se curou da doença. Parar de beber
é a vitória maior para o dependente, mas a doença
não acaba. Se ele voltar a dar uns goles, em pouco tempo
recupera um ritmo igual ou até maior do que o mantido antes
da pausa. “Não existe ‘ex’ nessa história”,
admite Catarina, hoje coordenadora de um grupo de ajuda
a dependentes em São Paulo. Ela sabe que a identificação
precoce do alcoolismo geralmente é prejudicada pela negação
dos pacientes quanto à sua condição de alcoolistas.
Além disso, nos estágios iniciais é mais difícil
fazer o diagnóstico, pois os limites entre o uso social e
a dependência nem sempre são claros. Quando o diagnóstico
é evidente e o paciente concorda em se tratar é porque
já se passou muito tempo e diversos prejuízos foram
sofridos. Neste ponto, fazê-lo parar de beber costuma ser
uma tarefa árdua.
Para iniciar um tratamento de alcoolismo é necessário
que o paciente preserve em níveis elevados a auto-estima
sem, contudo, negar sua condição de doente. Muitos
não conseguem esse comportamento na prática. Felizmente,
a dona-de-casa paulistana Marina, 65 anos, superou tudo isso com
força de vontade. O caminho adotado por ela para combater
a doença é o mais recorrente: as associações
de alcoólicos anônimos. Marina bebeu por 20 anos. Hoje,
quando muito, degusta aquela cerveja sem álcool. Começou
na faixa de idade em que se inicia a maioria das mulheres, entre
26 e 34 anos. Há um grande número de separadas entre
as dependentes, mas os especialistas ainda não sabem se,
estatisticamente, essa condição é mais causa
ou efeito no caminho para o alcoolismo.
O início do consumo de álcool cada vez mais cedo
pelas mulheres brasileiras fez diminuir a relação
de dependência entre homem e mulher. As pesquisas revelam
que a dependência alcoólica na mulher possui características
próprias. Ela começa a beber mais tarde, bebe menos
e com menor freqüência, mas o risco de desenvolver dependência
é mais alto. Doenças como cirrose hepática,
hipertensão, desnutrição e hemorragia gastrointestinal
são desenvolvidas mais rapidamente entre as mulheres –
em média com 12 a 15 anos de dependência, contra 17
a 20 anos nos homens. De acordo com o psiquiatra Arthur Guerra de
Andrade, presidente executivo do Centro de Informações
sobre Saúde e Álcool (Cisa), filhos de mulheres que
consomem álcool em excesso durante a gravidez estão
sujeitos à síndrome alcoólica fetal, que pode
provocar seqüelas físicas e mentais no recém-nascido.
Isa, 19 anos, é filha de uma alcoolista de 42. “Você
sofre com isso?” Ela chora, temendo ofender a mãe com
o seu sim. A jovem não namora, não leva amigos à
sua casa e não sai porque, com um pai já desanimado,
tem medo de que aconteça alguma coisa. Acha que culpar a
mãe pelas restrições que enfrenta é
complicado quando se sabe que o alcoolismo é uma doença.
Mas não nega que seus sonhos não existem mais. Considera-se
infeliz. Portanto, para começar um tratamento – seja
ele qual for –, o melhor mesmo, no caso das mulheres, seria
olhar para os filhos e, num momento de lucidez, perceber a infelicidade
que eles carregam desde o dia em que perceberam ter em casa uma
mãe com um problema tão devastador.
*Os nomes em itálico são
fictícios |