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Parceria: o retraído Thomás,
nove
anos (de camisa listrada), reforça
o orçamento do lanche de Gabriel,
sete, que o ajuda a fazer amigos |
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| Família |
A nova ciência
dos irmãos |
Descobertas e estudos recentes
mostram que, mais do que pais,
maridos ou mulheres, são eles a
maior influência de nossas vidas |
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Por Aziz Filho, Celso Fonseca
e Eliane Lobato |
Numa sociedade que muda velozmente, é natural que
a família, o mais forte pilar da existência humana,
passe por muitas transformações. Uma das mais recentes
descobertas de especialistas no tema é que irmãos
têm a mais profunda e decisiva influência na formação
da personalidade e na escolha de profissões uns dos outros.
Os pais trabalham fora e ficam pouco tempo com os filhos. As empregadas
e babás obedecem ordens e não entram na hierarquia
familiar. As creches são impessoais. O que sobra? Os irmãos,
as únicas pessoas que estão permanentemente ao nosso
lado na infância e na adolescência e nos acompanham,
de fato, por toda a vida – já que os pais, seguindo
a lei natural da vida, morrem antes e maridos e mulheres chegam
depois.
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Bons amigos no tatame: Royler,
40 anos, e Rolker, 41, dois dos
oito irmãos da família Gracie,
mostram união pelo jiu-jitsu |
São os irmãos que servem de espelho, são os modelos
que pretendemos imitar ou rejeitar. São eles que despertam
nossos primeiros sentimentos. Com eles dividimos as primeiras emoções
e descobertas. Eles são nossos primeiros rivais, na disputa
pelo afeto e a atenção dos pais ou simplesmente na disputa
de um brinquedo. Eles são nossos primeiros amigos, os primeiros
a nos proteger e a ensinar os atalhos da vida.
• Relação afina sentimentos
como solidariedae e ciúme
Mesmo os filhos únicos buscam compensar artificialmente essa
referência familiar que não têm. estudos mostram
que, cada vez mais, a influência vertical – de pais
para filhos – cede espaço na sociedade moderna para
a horizontal, de irmão para irmão. um dos pesquisadores
do assunto, o americano frank sulloway, do instituto de tecnologia
de massachusetts, afirma que a ordem de nascimento dos irmãos
pode modificar a personalidade. o primogênito seria mais conservador
e obediente, ao contrário do caçula, mais paparicado
e relaxado. o primeiro influencia muito a formação
do menor. os do meio, menos cobrados e alvos de atenção
menor, acabam encontrando mais espaço para exercer a liberdade
e se relacionar de forma mais leve e carinhosa com os irmãos.
Psicólogo clínico licenciado na Flórida,
nos Estados Unidos, o paulista Mauro Godoy, 46 anos, compartilha
das idéias do americano. “O mundo da criança
é o da família, que é referência para
a vida. Há influência entre irmãos: o mais velho,
por exemplo, acaba incorporando a postura de ser superior que o
caçula lhe atribui”, diz. Ou seja, a influência
tem mão dupla. Ele frisa que o fato de os irmãos assumirem
mais espaço na definição da personalidade não
significa que os pais deixaram de ser importantes, em especial a
mãe. “A relação mais forte é com
a mãe. Ela é que ampara e ensina a lidar com a estrutura
emocional”, ressalta. Mas é a convivência contínua
com os irmãos que marca e desperta as mais caras emoções.
É a relação entre eles que afina instrumentos
como solidariedade, cumplicidade, inveja, ciúme ou competição,
no primeiro grande ensaio da vida em grupo, dos conflitos na escola
às frustrações profissionais ou amorosas. A
mitologia está repleta de narrativas drásticas vividas
por descendentes de um mesmo pai, como é o caso da lenda
de Rômulo e Remo, irmãos gêmeos criados por uma
loba. O primeiro acaba matando o segundo e torna-se o rei de Roma.
Em conhecido episódio bíblico, Caim assassina seu
irmão Abel tomado de ciúme por se sentir rejeitado
por Deus. Felizmente, nos dias de hoje, os complexos e desavenças
são resolvidos de forma mais amena.
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| Cúmplices eternos: para
Bruna, 20 anos, a influência do irmão Tomaz, 17, é maior do
que a exercida pelos pais |
• “O esboço da sociedade está
centrado na irmandade”
O que as novas descobertas e estudos mostram é
que, atualmente, situações como as simbolizadas nos
episódios de Rômulo e Remo e de Caim e Abel são
cada vez mais raras. O relacionamento melhor entre irmãos,
num mundo que pelas circunstâncias os empurra para a cumplicidade,
reduz esses riscos. O caso da família Gracie é exemplar.
Oriundo de um núcleo familiar absolutamente fora do atual
contexto, Royler Gracie, 40 anos, tem oito irmãos biológicos
e todos, sem exceção, se dedicam à mesma atividade:
o jiu-jítsu. A influência entre eles, para Royler,
é inquestionável: “Lembro que eu tinha quatro
anos e via meus irmãos mais velhos de quimono. Claro que
eu também queria ter meu quimono”, diz ele, campeão
mundial do esporte. Mas não foi só o gosto pela atividade
esportiva que um passou para o outro. Também há um
padrão de comportamento da família Gracie –
além de Royler, moram no Brasil o irmão Rolker, 41
anos, e o patriarca, Hélio, 94, no Rio. Os demais exercem
a atividade fora do País. “Nosso lema é ‘drogas,
tô fora’”, diz ele. “Temos uma atitude muito
parecida em relação à vida. Isso começou
com meu pai e foi passado dos irmãos mais velhos para os
mais novos”, completa.
Há estudos que ampliam – e muito – o poder
da ascendência fraterna. No mês passado, pesquisadores
da Brock University, em St. Catharines, no Canadá, concluíram
que ter um irmão mais velho aumenta as chances de um homem
ser gay. Se este irmão for homossexual, a possibilidade de
o mais novo repetir a opção aumenta. A pesquisa foi
realizada com 944 homens. Já pediatras do St. George’s
Hospital, da Inglaterra, afirmaram que o número de irmãos
pode influenciar até mesmo a escolha da posição
de um jogador de futebol. O estudo garante que os goleiros e os
zagueiros têm no máximo um irmão ou irmã,
enquanto os atacantes provêm de famílias numerosas.
Os últimos aprenderam dentro de casa a correr atrás
e disputar a bola. Ronaldinho Gaúcho – atacante –
tem oito irmãos.
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| Um quarto para três: Emerson,
18 anos (de boné), Wilson, 29 (de óculos),
e Handerson, 28, dividem um espaço de 16 metros quadrados, onde
prevalecem a serenidade e a autoridade |
• “Adoecimento psicológico
das crianças”
“Durante muito tempo a psicanálise
pôs somente a mãe e o pai na berlinda, mas é
na irmandade que estão centra
das a rivalidade e a solidariedade, o esboço da sociedade”,
diz a psicanalista Ana Maria Iencarelli, 56 anos, pós-graduada
pela universidade francesa Sorbonne. A revisão por ela proposta
encontra um cenário bem mais complexo do que o núcleo
familiar dos tempos do patriarca Sigmund Freud. “Na família
de hoje, a figura paterna não é necessariamente o
pai de todas as crianças. Isso muda os padrões, abre
uma nova experiência afetiva, mais forte ainda, entre os irmãos”,
exemplifica.
Não é só. A fragilização da
figura paterna e a ausência da mãe moderna podem agravar
o que Ana Maria chama de “adoecimento psicológico das
crianças”, que passam a contar só com o irmão
– isso quando não é filho único. “Com
menos figuras adultas e estruturadas por perto, a instabilidade
afetiva aumenta e a importância do irmão cresce.”
O espaço aberto pela ausência dos pais reforça
o poder do irmão mais velho sobre o mais novo, especialmente
quando a diferença de idade supera os três anos. A
substituição tem suas vantagens, como a proximidade
e a facilidade no diálogo pelo fato de pertencerem à
mesma geração. Mas também carrega alguns riscos.
É um dos alertas do psiquiatra e psicoterapeuta Alfredo de
Castro Neves, 62 anos, duas vezes presidente da Sociedade Brasileira
de Neurologia e Psiquiatria Infantil. Exatamente por dominar a linguagem
do caçula, o primogênito pode ser mais autoritário
do que o pai. “O mais novo pode ficar sufocado pela pressão
de um mais velho repressor, reprimir experiências e se sentir
impotente.” Quando isso não ocorre, o resultado geralmente
é bom. “A capacidade de falar a mesma língua
e ter a leitura parecida dos eventos fortalece o discurso do irmão
mais velho. Já a orientação do pai, com referenciais
antigos, fica mais fraca”, compara o terapeuta.
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Caim e Abel: diz a Bíblia
que o primeiro matou
o segundo por se sentir rejeitado por Deus. Apesar dos ciúmes
inevitáveis, os irmãos
de hoje jamais
estiveram tão próximos |
• Criança deve se relacionar com iguais,
não com adultos
Independentemente do formato da família, tradicional
ou moderno, não há dúvida de que a relação
entre irmãos cria referências duradouras. “Os
pactos entre eles ensinam a honrar acordos, trocar, dosar rivalidade
com solidariedade”, descreve a psicanalista Ana Maria. Os
laços de parceria também tendem a ser sérios.
Os irmãos cariocas Tomaz, 17 anos, e Bruna, 20, ambos com
sobrenome Costa Praça, não têm dúvidas
disso. “A nossa cumplicidade é absurda. Temos muito
mais afinidade entre nós do que com nossos pais”, sentencia
ele. “Tomaz exerce muito mais influência sobre mim”,
diz ela. Entre os segredos que ela repassou para o irmão
está a elegância na hora de abordar as garotas nas
boates e festas que freqüentam juntos. “Eu o convenci
a não falar com as mulheres como ele não gostaria
que falassem comigo ou com nossa mãe.” A coesão
da dupla reduz a capacidade dos pais, separados, de vigiar e punir.
As diferenças influenciam também: se ela é
“consumista” e ele é “afobado”, de
acordo com as descrições, cada qual aprende com o
outro a evitar o que considera defeito.
A psicanalista infantil Ana Olmos reconhece a força da
influência fraterna, mas não a isola do contexto familiar.
“Os irmãos são importantíssimos, mas
nunca pensei num corte no qual são uma influência separada
dos pais”, explica. A especialista ressalta que irmãos
ensinam-se mutuamente a dividir carinho, lidar com as emoções,
o ciúme, “tudo o que se precisa treinar para enfrentar
a vida, aprender a negociar e enfrentar conflitos”, como diz.
“A criança deve se relacionar com iguais e não
com adultos. Ter um irmão vai fazer com que ela escale alguns
degraus do desenvolvimento emocional.” Por isso, ela chega
a contra-indicar que os pais tenham filhos únicos. O psicólogo
Godoy, porém, acredita que estes têm conseguido compensar
a falta dessa referência. “O filho único não
é mais um coitado, uma pessoa frágil. Ele acaba por
‘adotar’ um irmão no colégio ou na praça
mais próxima”, analisa. O especialista acredita que
essa estratégia é facilitada pelo grande número
de filhos únicos que existem atualmente. E que, numa amizade
fraternal, se aprimoram mutuamente.
Quando a família tem três filhos, os pactos são
diferentes. Os irmãos Handerson Luiz Brocchi, 28 anos, Wilson
Roberto, 29, e Emerson, 18, dividem o mesmo quarto de 16 metros
quadrados na casa dos pais, em Tatuapé, São Paulo.
O porta-voz do trio nessa entrevista foi Handerson, o do meio. Segundo
ele, o primogênito Wilson, também chamado de Nenê,
é a grande referência. “Ele nos apóia
em tudo, dá conselhos nos namoros, nas amizades. Ou pega
no pé, como está fazendo atualmente com Emerson
(o caçula) que gosta de ficar no Orkut o dia inteiro.”
Ratificando as afirmações dos especialistas, Nenê
é sereno e responsável. “Recentemente eu briguei
com meu pai e ele me chamou para dar conselhos.” Handerson
vai abandonar os irmãos para casar, em outubro. Mas garante
que, se não tivesse motivo tão forte, continuaria
com os dois.
Nem sempre é o mais velho que influencia o caráter
do mais novo. É menos comum, mas pode acontecer o contrário,
especialmente quando o pai ou a mãe sobrecarregam o primogênito
com exigências e inseguranças típicas de marinheiros
de primeira viagem. O filho mais velho se torna alvo de descargas
emocionais e o caçula tende a compreender o fenômeno,
a se solidarizar e a fazer tudo para proteger o irmão. “O
mais novo se torna amigo, vira um modelo de virtude para o mais
velho, que passa a admirá-lo”, explica Ana Maria.
• Irmão limita exageros
para o filho que era único
É um pouco do que observa a paulistana Adriane
Silva Valença, 37 anos, que está grávida e
é mãe de Gabriel, sete, e Thomás, nove. Como
é mais “descolado”, segundo ela, o caçula
Gabriel é quem introduz Thomás, mais retraído,
nas rodinhas de amigos. E, mantendo a sina do irmão mais
velho, Thomás, por sua vez, protege o irmão. Quando
vai à lanchonete da escola, reserva R$ 1 dos R$ 5 que a mãe
dá a cada um para reforçar o lanche do irmão
mais novo, mais comilão e que precisa crescer. O presidente
do Instituto da Família, Leonardo Posternak, resume a questão:
“A função do irmão é a de chegar
para limitar e até cortar exageros e privilégios do
filho que era único.” Mas quando um irmão nasce,
acaba com a pseudo-estabilidade do mais velho – que raramente
aceita impunemente esta interferência. “Virão
transtornos transitórios, mas também altíssimas
doses de amizade e de agressão. É normal que um dos
irmãos se sinta intranqüilo. Ciúme, nesses casos,
é como gripe, não tem como não pegar. Mas passa.”
No rico universo dos relacionamentos entre irmãos, há
espaço para muitas questões laterais. A condição
peculiar do filho do meio é uma delas. Depois da sociedade
patriarcal, em que os casais tinham muitos filhos, desembocamos
na estrutura contemporânea, em que é comum famílias
com um ou dois descendentes no máximo. Para o psicólogo
Mauro Godoy, esse novo modelo vai provocar mudanças: “Uma
delas é praticamente a extinção do filho do
meio.” Uma pena, pois levantamentos americanos revelam que
40% de dirigentes de empresas são filhos do meio. De qualquer
maneira, com um, dois ou vários filhos na família,
há leis eternas nesse relacionamento: irmãos sempre
serão referência uns dos outros. |