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André Dusek
"Há espaço no Brasil para disputarmos corações e mentes com um projeto de justiça social distanciado do neoliberalismo amoral"

Heloísa Helena
"A eleição não é
só PT versus PSDB"
A senadora Heloísa Helena prega a entrada
de mais candidatos na campanha e diz que é
justo que mais partidos mostrem seus projetos

Por Mário Simas Filho e Rodrigo Rangel

Ela mesma se define como uma menina danada, dessas que não param quietas um só minuto. Neste momento, com toda a sua energia, a senadora Heloísa Helena está disposta a sair candidata a presidente pelo PSOL. Ela acredita que, quanto mais concorrentes houver, mais haverá condições para se questionar o “receituário de irresponsabilidade fiscal, social e administrativa representado pelos antigos e pelos novos inquilinos do Palácio do Planalto”. É claro que, com sua linguagem pessoal e intransferível, a senadora está fazendo referências aos adversários do PSDB e do PT. “O povo precisa saber que há alternativas que devem ser expostas e discutidas.” Nos últimos meses, graças a sua participação na recém-encerrada CPI dos Correios, Heloísa Helena ganhou visibilidade nacional e, uma vez candidata, acreditam muitos analistas, tem boas chances de crescer durante a campanha. Segundo as pesquisas atuais, ela pode largar de um patamar de 5% das intenções de voto. Pessoalmente, no entanto, ela não faz contas. A ISTOÉ, a senadora atacou os partidos que buscam alianças “apenas de olho na matemática eleitoral” e avaliou como falsa a polarização entre o PT e o PSDB: “É o mesmo projeto de País, só que dividido em dois palanques”, dispara. Defensora ferrenha do fim do voto secreto no Congresso e, na mesma direção, da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de todos os agentes públicos, ela poderá apresentar na campanha a proposta de um salário mínimo de R$ 1,6 mil. Abaixo, algumas de suas idéias.

ISTOÉ – O PSOL tem como desfraldar a bandeira da ética que o PT ainda
tenta empunhar?
Heloísa Helena –
A história da esquerda brasileira ou a defesa da ética na política nem nasceu com o PT nem se encerra com o PSOL. Reconhecemos humildemente que não constituímos o santuário dos ungidos pelos deuses da revolução socialista e da ética. Nós apenas criamos, por obrigação histórica, um abrigo para a esquerda socialista e democrática que não se vende para se lambuzar no banquete do poder e não se rende para ser aceita no convescote do capital. Acreditamos que há espaço, no nosso querido Brasil, para disputar mentes e corações com um projeto de justiça social distanciado do pensamento único neoliberal e amoral.

ISTOÉ – Da forma como está posta hoje, a eleição presidencial pode virar um plebiscito sobre o governo Lula, e uma disputa polarizada entre PT e PSDB. Isso é bom para o debate político?
Heloísa Helena –
É fato que setores importantes da sociedade trabalham de forma sofisticada e desprezível para legitimar a falsa polarização PT e PSDB. Mas a eleição não é só PT versus PSDB. Sabemos também das gigantescas dificuldades que esse quadro eleitoral nos impõe. Mas a nossa decisão é não fingir estarrecimento diante da farsa técnica e da fraude política representada pelo mesmo projeto de governo, apenas dividido em dois palanques.

ISTOÉ – Como se posicionar diante disso?
Heloísa Helena –
Precisamos apresentar uma alternativa concreta para o Brasil, cumprindo a doce tarefa de desmascarar a verborragia do receituário de irresponsabilidade fiscal, social e administrativa, representada pelos antigos e pelos novos inquilinos do Palácio do Planalto.

ISTOÉ – A eleição presidencial é um momento para aprofundar o debate
político. Se houver apenas dois candidatos fortes, esse debate corre o
risco de se empobrecer?
Heloísa Helena –
Respeitamos as táticas de todos os partidos, especialmente quando não estão referenciadas na medíocre matemática eleitoralista. Essas táticas devem ser definidas pela coerência com os objetivos estratégicos dos programas partidários e na identidade com a alternativa do programa eleitoral apresentado à sociedade. Daí a justa necessidade de buscar todos os espaços institucionais para disputar no imaginário popular, de forma transparente, as convicções ideológicas que norteiam os projetos para o Brasil.

ISTOÉ – Um partido grande como o PMDB pode ficar de fora da eleição para presidente. Qual a sua opinião sobre essa possibilidade?
Heloísa Helena –
A pergunta é legítima, mas prefiro não comentar. Não vamos aumentar os inimagináveis problemas que eles já têm para resolver!

ISTOÉ – A campanha deverá ser pautada por denúncias em lugar do debate
de um projeto para o País?
Heloísa Helena –
Como sertaneja, menina de tranças correndo pela caatinga alagoana (risos), vocês não imaginam como eu era danada, eu aprendi a máxima: “Quem for podre que se quebre!” Assim eles serão tratados no embate eleitoral. Mas não estaremos na eleição limitados a tratar dos aspectos putrefatos do parasitismo da máquina pública, impondo ao eleitorado um estado de náusea infinita. Nós do PSOL estaremos apresentando as nossas alternativas para a democratização da riqueza, das políticas públicas, da terra e do espaço urbano, da informação e da cultura. Trataremos de propostas que vão da soberania nacional, requisito irrenunciável de política econômica mesmo sob a égide da globalização capitalista, até o cumprimento da obrigação do Estado brasileiro em adotar suas crianças e jovens, antes que eles sejam tragados pela prostituição e pelo narcotráfico como último refúgio.