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| Discípulos do Instituto
Niten em São Paulo: arte marcial como filosofia |
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| Arte marcial |
| Samurais modernos |
Eles existem até hoje e, no Brasil, a
prática ganha adeptos de todas as
gerações. Qual o segredo dessa arte? |
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Por Cláudia Pinho
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A cena pode causar certo estranhamento. São dezenas de pessoas,
entre homens, mulheres e crianças, vestidas com roupas e
acessórios inusitados e empunhando espadas roliças
de madeira. A sala é de um silêncio eloqüente.
Não são ouvidos risos nem conversas, apenas gritos
de guerra e o som das batidas dos instrumentos. Em movimentos lentos,
precisos e repetitivos, os participantes entram em combate como
se executassem uma coreografia de cinema, típica dos filmes
o Último samurai e Kill Bill. São
os samurais modernos, pessoas que praticam artes marciais com o
uso de espadas em busca de equilíbrio físico e espiritual.
A principal modalidade é o kenjutsu, um combate
em duplas baseado na estratégia dos lutadores, que usam uma
espada de bambu, o shinai. Se até pouco tempo atrás
esse tipo de luta se limitava aos descendentes de japoneses, hoje
atrai muitos adeptos. Apenas no Instituto Niten (www.niten.org.br),
pioneiro no País para a atividade, são mais de 800
alunos espalhados nas suas 32 unidades no Brasil.
Lá, além do kenjutsu, são oferecidas
aulas de iaijutsu, técnica na qual o aluno usa uma
espada de metal sem corte e enfrenta um guerreiro imaginário
em busca do aprimoramento do espírito, e o jojutsu,
uma técnica de combate que ensina os alunos a desarmar os
adversários usando apenas o bastão de madeira. As
três modalidades foram aperfeiçoadas com o método
Ken Intensive Recuperation (Kir), ou Recuperação Intensiva
pela Espada, desenvolvido pelo médico e sensei Jorge Kishikawa,
que há 36 anos segue os ensinamentos dos antigos samurais.
“Nosso objetivo é transformar as pessoas, ensinar valores
que podem ser aplicados na vida pessoal e profissional”, diz.
Kishikawa trocou a medicina pelo conhecimento oriental. Mais do
que cuidar do físico, a luta marcial é uma filosofia
de vida. O mestre brasileiro se baseia em seis pilares para atrair
seus adeptos: coragem, lealdade, honra, sabedoria, polidez e compaixão.
Todas essas virtudes são trabalhadas nas aulas, nas quais
os alunos aprendem também técnicas de autocontrole,
respiração e concentração. Quem consegue
manter a calma nos dias de hoje pode se considerar um privilegiado.
E é isso o que procuram aqueles que escolhem a luta de espadas
como atividade. “Fiquei mais tranqüilo e paciente. Uns
encontram essas coisas na religião, eu encontrei no kenjutsu”,
diz o designer de automóveis Fabrício Toscano,
31 anos, que luta há dois anos. A maneira como as aulas são
dadas pode explicar essa mudança de comportamento. As lutas
são sempre em duplas e os alunos ficam posicionados um de
frente para o outro, sem desviar o olhar. Para os samurais, isso
significa enfrentar os problemas de frente, no combate ou na vida.
“Nós agimos nas aulas como se estivéssemos no
mundo dos antigos samurais. Nos cumprimentamos com reverência
e não conversamos. Buscamos e repassamos aos alunos as origens
dos mestres”, explica Kishikawa.
Todo esse rigor em sala de aula tem o seu valor. Os discípulos
acabam incorporando o Bushidô, o código de
ética dos samurais. O respeito e a solidariedade com o próximo
saem de dentro da sala de aula e ganham as ruas. Os novos samurais
são unânimes em dizer que levam para o dia-a-dia os
ensinamentos do sensei. Até mesmo as crianças. “Eu
hoje encaro as coisas com mais garra. Era muito tímido, ficava
nervoso na hora de fazer uma prova da escola e agora me controlo
melhor”, comemora Octávio Sakahara Saito, dez anos,
que há dois faz parte do grupo. Outra luta de arte marcial
que segue a filosofia samurai é o Kendo, uma variação
mais moderna do kenjutsu, na qual os adeptos usam a mesma
armadura e a mesma espada de bambu. “Nós também
estamos preocupados com a formação do caráter
do indivíduo, além do preparo físico, mental
e espiritual”, diz Ciutoco Kojima, presidente da Confederação
Brasileira de Kendo, que reúne 600 alunos em 30 academias
do País. Nesses tempos difíceis, não é
de estranhar a procura crescente pelo conhecimento dos antigos samurais.
Esses guerreiros sabiam equilibrar, com sabedoria, o uso do corpo
e da mente. E, para resolver muitos dos problemas atuais, falta
exatamente isso.
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