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Max G Pinto  

"FHC fez mais pelos direitos humanos. Lula
se omitiu sobre o que deveria ser feito e deu
um passo para trás"

 

ISTOÉ – Mas o Brasil cresceu aquém
das expectativas.
Bicudo –
Isso acontece exatamente em razão da concentração de riqueza, que continua nas mãos
de poucos. O povo continua no mesmo miserê que estava nos governos anteriores. Não existe um desenvolvimento que se sustente apenas na produção e na comercialização das commodities. O Brasil precisa crescer em outros setores comerciais, industriais e de serviço.

ISTOÉ – A culpa é das elites?
Bicudo –
Elas se divorciam do povo, conquistam o poder e permanecem no poder. Há séculos isso acontece. O governo Lula contemplou as necessidades de alguns setores, mas do ponto de vista da população deixou a desejar. O Bolsa Família é puro paternalismo. Você tem que dar educação, saúde e oportunidades. Eu costumo comparar essa questão da Bolsa Família com a atuação dos políticos do começo do século passado, que davam botinas para os eleitores votarem.

ISTOÉ – Na defesa dos direitos humanos, o sr. sempre foi um lutador. Já recebeu ameaças de morte?
Bicudo –
Eu nunca contei, mas foram muitas, principalmente na época do esquadrão da morte. Por outro lado, no cumprimento daquilo que é o nosso dever uma força maior nos impulsiona a continuar atuando e seguindo em frente, com medo ou sem medo. Teve uma ameaça na década de 90 que eu levei muito a sério. Nessa ocasião, eu recebi uma carta de um oficial da PM de São Paulo juntamente com uma xerox de uma ordem de serviço assinada por um coronel chamado Profício sobre uma operação denominada Alfa, cujo objetivo era a minha eliminação. Eles simulariam um ataque de meninos de rua. Essa eu levei a sério.

ISTOÉ – O sr. tem medo de andar na rua hoje em dia?
Bicudo –
Não. Nem no tempo da ditadura e dos inquéritos contra o esquadrão da morte eu deixei de freqüentar lojas, cinema, restaurantes, ir para o meu sítio no interior do Estado. Nunca deixei de fazer minhas coisas e de viver minha vida naturalmente. Minha segurança particular está lá em cima (aponta para o céu).

ISTOÉ – Como o sr. avalia hoje os direitos humanos no Brasil?
Bicudo –
De uma maneira muito pessimista. Temos alguns fatos que mostram que os direitos humanos não são a prioridade do governo brasileiro, nem do governo de muitos Estados, inclusive o de São Paulo.

ISTOÉ – Qual dos nossos governantes avançou na política de preservação
dos direitos humanos?
Bicudo –
Foi o Fernando Henrique Cardoso.

ISTOÉ – Mais do que o Lula?
Bicudo – Mais, muito mais. Ele fez um relatório anual sobre o estado dos direitos humanos no Brasil, criou a Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Pessoas de alto nível foram presidentes dessa secretaria. Foi ele quem criou o SOS Tortura que o governo atual invalidou. Nessa área, Lula se omitiu e não fez o que deveria fazer a mais. Deu um passo para trás.

ISTOÉ – E qual foi?
Bicudo –
Não houve nenhuma atuação do governo federal, por exemplo, no caso do Castelinho (ação policial que resultou na morte de 12 supostos integrantes do PCC), nem nas mortes dos moradores de rua, e muito menos com relação à situação da Febem em São Paulo. E quando se fala que se fez a federalização das violações graves dos direitos humanos eu me pergunto: qual delas já foi federalizada? Nenhuma. Algum tempo atrás eram oito as solicitações e o procurador-geral da República arquivou as oito.

ISTOÉ – A pena de morte ainda é um tabu para a esquerda. Ela resolveria o problema da violência e da criminalidade no País?
Bicudo –
A pena de morte não resolve o problema. Ela não intimida o agente criminoso. Se intimidasse, nos Estados Unidos não teria o número de homicídios que tem. Além do mais, ela é uma atuação ilegal do Estado, e no Brasil as penas existentes já são mais do que suficientes.

  Max G Pinto

 

"O Tribunal de Justiça tem seguido uma linha de relevar as ações violentas da polícia de São Paulo"

ISTOÉ – O que realmente intimida o
agente criminoso?
Bicudo –
O que mais intimida é a certeza da efetiva punição. Aqui, as penas são pesadas e a Justiça
é lenta. Um exemplo mais recente dessa lerdeza
é o caso da chacina do Carandiru. O coronel Ubiratan Guimarães ficou impune durante 13 anos e vai continuar impune até a decisão do Superior Tribunal
de Justiça, que pode demorar mais cinco ou seis
anos e aí ele atinge os 70 anos. E chegando nesse estágio a pena já poderá estar prescrita. Então,
isso é a impunidade decretada. E a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo concorre para
essa conseqüência.

ISTOÉ – O sr. ficou surpreso com a decisão
do Tribunal de Justiça?
Bicudo –
Não. Porque o Tribunal tem seguido uma linha no sentido de relevar as atuações violentas da polícia de São Paulo. Juridicamente, essa decisão em favor do coronel Ubiratan é uma violação flagrante da lei federal. Não foi uma decisão técnica, foi uma decisão política que alarga o campo da impunidade e estimula a violência oficial. Essa decisão enodoa a trajetória desta corte e está tendo repercussão nacional e internacional.

ISTOÉ – O sr. passou por inúmeras experiências. Como resume a sua história de incansável lutador pelos direitos humanos?
Bicudo –
É uma luta que me satisfez, embora os resultados tenham sido pequenos, se é que existiram. Mas, se tivesse que fazer de novo, eu faria tudo igualzinho.