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O companheiro Nego: os
sorrisos abertos e doces da ministra com fama de dura na queda
são menos raros do que se imagina. Muitos deles surgem
nas brincadeiras com o dócil labrador Nego, presente
de José Dirceu.
Na foto à direita, o ex-ministro brinca com o cachorro |
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| A brasileira do ano |
| Dilma Rousseff |
Após crises e torturas, a chefe da Casa Civil
chega ao topo da carreira de ex-guerrilheira,
economista, executiva e ministra |
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| Luiz Cláudio Cunha |
Os grandes olhos castanhos da menina de dez anos, sentada na calçada, ficaram ainda maiores quando ela viu a bailarina, com uma brilhosa roupa verde, executando malabarismos no dorso do elefante. Era o circo rasgando a quietude da pacata Uberaba (MG) no final dos anos 50. Era o maior espetáculo da terra caindo no colo da garotinha extasiada: “Ela era linda, fazendo piruetas lá em cima. Eu adorava circo e queria ser bailarina”, lembra hoje, com os olhos iluminados pela recordação, a frustrada bailarina Dilma Vana Rousseff. Aos 57 anos, passando um rápido olhar sobre o circo da vida brasileira, que acompanhou, aos saltos e sobressaltos, nas últimas quatro décadas, atravessando crises, golpes, renúncias, cassações, prisões, torturas, ditadura, cassações, democracia e cassações, Dilma chega em 2005 ao topo de sua longa e atribulada carreira como economista, executiva, militante política e ministra. Desde junho ela faz suas piruetas no dorso do elefante petista, no Palácio do Planalto, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a escalou como ministra-chefe da Casa Civil, substituindo José Dirceu, a maior atração do PT velho de guerra, engolido pelo leão do mensalão.
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A postos no gabinete: a
seriedade e
a competência conduziram-na ao segundo posto do governo,
atrás apenas da Presidência da República |
“Não sou a primeira-ministra, até porque o Brasil é muito presidencialista”, diz ela, escolhida também a economista do ano pelo Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Sul, na quinta-feira 8, negando a condição de capitão do time que o técnico Lula um dia pespegou em Dirceu. “Sou apenas a ministra que faz a articulação transversal com os outros ministros. Minha obrigação é tratar os problemas dos outros como se fossem meus”, diz, sentada no sofá de visitas da casa oficial, no Lago Sul de Brasília, que ela herdou do sucessor junto com o dócil Nego, o cão labrador de pêlo negro que nunca a deixa só. Mineira de Belo Horizonte, criada em Uberaba, separada de dois casamentos, Dilma precisa viajar para reencontrar a família: a mãe, viúva, mora na capital mineira, assim como o irmão, advogado, mas para ver a única filha, Paula, juíza do Trabalho, toma o rumo de Porto Alegre, onde ainda mora o segundo ex-marido, o ex-deputado e ex-guerrilheiro Carlos Franklin Paixão de Araújo. O primeiro, o jornalista mineiro Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, tinha desviado a jovem Dilma, aos 20 anos, para o circo implacável da luta política, recrutando sua noiva no curso de economia, em 1967, para a militância da Política Operária (Polop), organização doutrinária da esquerda. Antes, aos 15 anos, quando trocou o conservador colégio Sion, onde as moças só falavam francês com as professoras, pelo inquieto Colégio Estadual, escola pública mista onde se geravam contestações, Dilma já desabrochara: “Aí fiquei bem subversiva. Percebi que o mundo não era para debutante”. Correndo da polícia, fazendo passeata para apoiar os operários em greve em Contagem, Dilma viu os primeiros companheiros sendo presos pelo regime que apertava o nó. “O AI-5 foi meu presente de 21 anos. Saiu na véspera de meu aniversário, 14 de dezembro de 1968”, conta. Ela e o marido, visados pela polícia, conseguem escapar do cerco, fogem para o Rio de Janeiro e, como tantos outros jovens, caem na clandestinidade.
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Política com técnica:
em 1990, como secretária do governo gaúcho do
petista Olívio Dutra (no alto, à esq.),
e na posse como ministra das Minas
e Energia, ao lado de Lula |
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A Polop se transformou em Comando de Libertação Nacional
(Colina), que reunia pequenos grupos da esquerda radical, e a estudante
Dilma virou professora, ensinando marxismo a militantes do setor
operário. Ajudou na infra-estrutura de três assaltos
a bancos, assinou artigos no jornal Piquete e chegou à
direção do Colina. Nessa condição, planejou
o que seria o mais rentável golpe da luta armada em todo
o mundo: o roubo do cofre de Adhemar de Barros, ex-governador de
São Paulo. A proeza coube à Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares
(VAR-Palmares), resultado da fusão da Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR) do capitão Carlos Lamarca com o Colina de Dilma Rousseff.
Onze dias depois da fusão, em julho de 1969, 13 guerrilheiros
da VAR-Palmares roubaram o cofre de 200 kg de uma casa no bairro
carioca de Santa Tereza, onde vivia a amante de Adhemar. “A
gente achava que ia ser grande, mas não tinha noção
do tamanho”, lembra Dilma. Aberto o cofre, sacaram de lá
US$ 2,6 milhões – hoje uma mega-sena em torno de R$
25 milhões. A diária mirrada dos guerrilheiros dava
para comer um único risoto por dia, num pé-sujo do
centro do Rio. “Eu era magra como um palito, tinha pouca fome,
e muitos gostavam de almoçar comigo porque comiam minha metade”,
recorda ela, notando que o bote milionário não melhorou
o cardápio extra-light da guerrilha: “Estava muito
difícil trocar o dinheiro, porque havia um cerco total. Dois
meses depois, com o seqüestro do embaixador americano, Charles
Elbrick, a situação ficou ainda pior no Rio.”
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