O mercado da moda está prestes a ganhar uma grife idealizada
e dirigida por estilistas que ganham a vida desfilando nas ruas
do Rio de Janeiro – para vender o próprio corpo. São
as prostitutas cariocas que, reunidas em associação,
passarão a confeccionar e comercializar roupas de festa,
figurinos básicos e o que chamam de modelitos de “batalha”
– saias, vestidos e blusas ideais para exercer a mais antiga
profissão. “Serão roupas insinuantes, sensuais,
mas sem vulgaridade. Queremos resgatar a elegância das meninas
do passado”, planeja Gabriela Leite, prostituta fora da ativa
que dirige a Ong Davida e defende os direitos das colegas. A originalidade
da idéia já bastaria para chamar a atenção,
mas o nome escolhido para a empresa não poderia ser mais
polêmico. Inspirado na famosa Daslu – batizada assim
por pertencer a duas Lúcias – a nova grife, que começa
a lançar moda em fevereiro, se chama Daspu, numa referência
direta à ocupação das proprietárias.
“Não sei se o pessoal da Daslu vai gostar”, ironiza
Gabriela. Parte do lucro será utilizada para financiar os
projetos da ONG, como as atividades de prevenção à
Aids e a outras doenças.
O objetivo é que as peças da Daspu sejam usadas
não só pelas prostitutas,
mas pelo público. “Penso em saias curtas, mas não
só isso. Também vamos desenhar algumas saias compridas
com fendas, algo mais insinuante”, explica Gabriela. Roupas
transparentes, nem pensar. “Isso é coisa de travesti”,
descarta ela. O primeiro trabalho experimental foi o desenho para
o bloco carnavalesco Prazeres Davida, que começou a ensaiar
para o Carnaval na última semana.
Estão envolvidas diretamente na empreitada 22 prostitutas
e o capital inicial foi emprestado pela própria ONG. Com
a venda das roupas, o dinheiro será restituído.
A esperança é que a quantia apurada traga alívio
para a instituição, nesses
tempos de poucos patrocinadores. “Não fazemos muito
sucesso nessa tal de responsabilidade social. Qual empresa gostaria
de associar seu nome a prostitutas?”, lamenta Gabriela. Ela
estima que a média de ganho de uma prostituta que trabalha
na rua é de R$ 1 mil mensais. Mas há as que ganham
para pagar somente o almoço e o jantar. Por isso, a ONG tem
como uma de suas bandeiras atuais a defesa do projeto de lei que
equipara a prostituição a outras profissões,
com os mesmos direitos trabalhistas. A diretora da associação
reconhece que as chances de aprovação no Congresso
não são grandes.