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Renato Velasco

• Carioca, 56 anos
• Está casada pela terceira vez
• Tem dois filhos jovens e uma neta
• Escreveu três livros, Na cabeceira
da cama
, Conversa na varanda e A cama
na varanda
, todos lançados pela
editora Rocco
• Há sete anos assina a coluna
Conversa íntima, no Jornal do Brasil
• Foi professora de psicologia
do Departamento de Comunicação
Social da PUC (Rio)

 

Regina Navarro Lins
O casamento acaba
com o tesão
Autora de O livro de ouro do sexo,
sexóloga detona o casamento
nos padrões tradicionais e diz que
caminhamos para a androginia
e a bissexualidade

Eliane Lobato

No futuro, sexo a três, ou ménage à trois, será tão comum quanto a dois. As pessoas serão andróginas, sem marcações muito definidas entre masculino e feminino e, nesse contexto, a bissexualidade poderá vir a ser a opção preferencial. O casamento com cláusula de exclusividade sexual deixará de existir. Freqüentar clubes de swing ou praticar sexo grupal em casa será corriqueiro. Sai de cena a idéia do amor romântico, no qual a busca pela alma gêmea leva o indivíduo a idealizar o parceiro e, ato contínuo, a frustrar-se com a realidade. Essas são algumas das tendências de mudanças no comportamento sexual que poderão se tornar fenômeno de massa daqui a algumas décadas, segundo a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins. O tema é abordado em O livro de ouro do sexo (Ediouro), que ela lança em parceria com o marido, o roteirista e escritor Flávio Braga, no fim deste mês. Regina tem idéias libertárias e, não raro, provoca polêmica até entre seus próprios colegas. Crítica dos padrões de comportamento oriundos da sociedade patriarcal, Regina costuma dizer, nas palestras que faz pelo Brasil afora, que “o casamento é o lugar onde menos se faz sexo” e que isso vale para os casais homossexuais também. Autora do best seller A cama na varanda, desta vez ela fez um tratado sobre sexo. Fala de Freud e Reich, sobre os grandes movimentos de emancipação, a indústria erótica, as fantasias e, baseada em estudos, pesquisas e “sinais da sociedade”, arrisca um painel para o futuro.

ISTOÉ – Quais são as tendências sexuais para o futuro?
Regina Navarro Lins –
Quando falo de tendências, falo de mudanças que virão não para pequenos grupos, mas para se transformar em fenômeno de massa. Há 40 anos, as meninas se casavam virgens e hoje isso é uma exceção. Estamos falando de mudanças assim, que podem ser predominantes no comportamento das pessoas. Em dois anos de estudos, Flávio e eu chegamos a algumas conclusões. Primeiro, a exclusividade sexual vai acabar. A idéia de que se você ama não tem tesão por mais ninguém é falsa e equivocada. Está dentro das expectativas do amor romântico que idealiza as relações e condiciona o sexo a só ser bom se houver amor. Como a exclusividade nas relações tende a acabar, as pessoas vão aceitar com mais naturalidade que alguém tenha desejo sexual por várias pessoas. A médio prazo, será comum ter vários parceiros.

ISTOÉ – A sra. quer dizer swing?
Regina –
Não exatamente. Refiro-me a vários parceiros, um de cada vez, mas no mesmo período da vida. É bem possível que se tenha um parceiro predileto para o sexo, outro para viajar, outro para a vida cultural. Vai diminuir o número de pessoas que queiram formar um casal fechado. Há uma nova formação de rede de amigos que está substituindo a família e o casamento. Pessoas solteiras ou divorciadas se unem e se amparam. Quando um está doente, os outros dão apoio. E sexo com amigo também está incluído. Na medida em que os envolvidos não tenham expectativa de relação estável e separem sexo de amor, não tem problema. Essa história de que sexo com amigo deve ser evitado para não acabar com a amizade só é válida se um dos dois quiser namorar firme enquanto o outro quer apenas sexo.

ISTOÉ – O casamento vai acabar?
Regina –
Esse modelo que a gente conhece – duas pessoas sob o mesmo teto, regidas pela exclusividade e com direito a cobranças – tende a diminuir. Claro que sempre vai existir, mas vão predominar relações mais abertas. Primeiro porque o casamento fechado, desse jeito que a gente conhece, é uma tragédia. O casamento é o lugar onde menos se faz sexo. Não tenho dúvidas. O swing, a troca de casais, tudo isso está se tornando corriqueiro, mas o que desponta como mudança de comportamento forte é o sexo a três. Depois de observar essa tendência em consultório, palestras, e-mails, eu lancei a seguinte pergunta no meu site (www.camanarede.com.br): “Você gostaria de fazer sexo a três?” Mais de duas mil pessoas responderam e 80% disseram que sim. Quando 80% dizem que desejariam é porque já está em processo de mudança.

ISTOÉ – E por que as pessoas preferem três no relacionamento?
Como é? Dois homens e uma mulher ou o inverso?
Regina –
Acho que, na medida em que há um afrouxamento dos limites, da censura, as pessoas começam a ficar mais livres. Querem experimentar novas sensações. Ménage à trois é uma prática antiga. Esse trio sexual, hoje, é majoritariamente duas mulheres e um homem. Acho que é porque o homem ainda está carregado de valores patriarcais e não admite estar com outro homem nu numa cama. Mas isso também tende a diminuir. Passará a ser natural: sexo a três, swing, sexo grupal, parceiros múltiplos. Tudo isso porque há um outro fenômeno importante em marcha: não tenho dúvida de que caminhamos para a androginia.

ISTOÉ – Por quê?
Regina –
Primeiro, vamos desfazer aquela imagem do homem pálido que ninguém sabia se era homem ou mulher. Não é isso a que me refiro. É uma pessoa ser mais inteira, ter dentro dela a harmonia entre masculino e feminino sem precisar mutilar ou esconder aspectos de sua personalidade. A marca da androginia é a capacidade de dissolver a divisão entre o que seria ser homem ou ser mulher. As pessoas são o que são. E vamos gostar delas pelas suas características de personalidade, seu jeito de ser, e não por ser deste ou aquele gênero. Nesse sentido, as pessoas vão se abrir para a experimentação sexual também com pessoas do mesmo sexo. A pílula anticoncepcional foi o golpe fatal no sistema patriarcal e tudo começou a se transformar. O homem deixou de controlar a sexualidade e a fecundidade da mulher. Ela passou a ter filho quando quer, se quiser, com quem quiser. Sua sexualidade também se aliou ao prazer. A fronteira entre masculino e feminino começa a se dissolver em outros campos também. Não tem mais nada que interessa somente ao homem ou só à mulher. E isso é fundamental numa sociedade de parceria.