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| Sérgio Amadeu: "As
resistências encontradas no governo atrapalharam muito mais
do que os problemas previsíveis criados pelo lobby. Saio cansado,
mas sem mágoas." |
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| Exclusão digital |
| Nem tão
livre assim |
Falta de dinheiro e de “vontade política”
para regulamentar programa tira do
governo o maior incentivador do uso
de software livre no país |
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| Darlene Menconi e Eduardo Marini |
Software livre é um programa de computador que pode ser
copiado, usado, modificado e distribuído sem pagamento de
licenças. Os defensores desses sistemas, no governo federal,
perderão nesta semana o seu mais entusiasmado parceiro. Incomodado
com a falta de recursos e de normas para a implantação
desses aplicativos, o sociólogo e professor Sérgio
Amadeu decidiu entregar a presidência do Instituto Nacional
de Tecnologia da Informação (ITI), ligado à
Casa Civil. Nesta entrevista, concedida na quinta-feira 1º,
ele detalha projetos que liderou e revela o que o fez decidir pelo
pedido de demissão.
ISTOÉ – O que motivou o sr. a deixar o governo?
Amadeu – Vou sair porque faltou decisão política
para duas coisas: cadastrar
o projeto de software livre no Plano Plurianual de gastos do governo,
o PPA, e
criar uma norma legal para regulamentar a implantação
do programa. Setores
do governo impediram isso.
ISTOÉ – Explique melhor.
Amadeu – No final de 2004, após 18 meses de
discussão, propusemos à Casa Civil uma norma com duas
situações. Nos casos possíveis de serem resolvidos
com aplicativos livres, eles seriam adotados após licitação.
Nos que houvesse indicação de software proprietário,
a compra deveria ser autorizada pelo ministro de Ciência e
Tecnologia. A proposta ficou parada na Casa Civil.
ISTOÉ – Mas a Casa Civil é a casa
do ITI...
Amadeu – Pois é, o lobby é poderoso.
Antes disso, em meados de 2004, pedimos
a colocação do programa no PPA. Nada mais justo. Estávamos
implementando
ou não? Pois o Ministério do Planejamento não
aceitou. Em janeiro deste ano, solicitamos novamente a inclusão
do programa no PPA. Pedimos R$ 200 milhões em dois anos,
dinheiro fácil de se recuperar nos anos seguintes com economias
em licença e manutenção. Dessa vez conseguimos
incluir, mas, em julho, o Ministério do Planejamento tirou
o programa do PPA. Eu, que já estava sem a lei, fiquei também
sem o dinheiro.
ISTOÉ – E por que não saiu neste momento?
Amadeu – A crise política estourou e decidi
esperar.
ISTOÉ – A escolha da ministra Dilma Rousseff
para a Casa Civil influenciou
sua decisão de sair?
Amadeu – De jeito nenhum. A ministra é competente,
favorável ao software livre
e me pediu para ficar. E ficaria se algum recurso tivesse sido liberado.
Não posso concordar com os bloqueios impostos pelo Ministério
do Planejamento. Não posso. A crise impede o governo de retomar
a questão como prioridade – e a ministra de ficar enfrentando
um outro Ministério por esta causa. Muitos no governo aderiram
apenas ao lado solar da inclusão digital. É bonito
apoiar telecentro, computador barato para pobre, mas na hora de
enfrentar interesses a favor do software livre,
falta apoio, falta cara na reta. O lobby privado não venceu.
As resistências encontradas no governo atrapalharam muito
mais do que os problemas
previsíveis criados pelo lobby. Saio cansado, mas sem mágoas.
ISTOÉ – O ministro das Comunicações,
Hélio Costa, questionou as
vantagens do software livre?
Amadeu – Não foi assim. Ele disse que precisava
saber se o suporte ao
software livre ficava mais caro do que a licença do privado.
A dúvida é fruto
de uma mentira divulgada pelas empresas de softwares proprietários
para amedrontar e preservar monopólios.
ISTOÉ – O sr. sentirá saudades de
alguns projetos?
Amadeu – Sim, de coisas como o Casa Brasil, versão
aprimorada dos telecentros implantados na cidade de São Paulo.
Serão 90 em todo o País até o final do ano,
com salas de conferência e outros serviços. Há
também o projeto PC Conectado,
um computador com configuração de mercado, sistema
operacional Linux e mais
26 softwares livres. Programa para tudo. Custará cerca de
R$ 1,2 mil, em 24 parcelas, para as classes C e D, preço
impossível se houvesse pagamento de licença. Como
alternativa, a Microsoft ofereceu um certo Start Edition, que, com
três aplicativos abertos – um antivírus e duas
janelas do navegador de internet,
por exemplo –, não roda um quarto.
ISTOÉ – Este é o resultado de sua
análise...
Amadeu – De minha análise? Como assim?
ISTOÉ – A Microsoft o considera eficiente...
Amadeu – Foram eles que disseram isso quando nos
apresentaram o sistema.
ISTOÉ – E por que o PC Conectado ainda não
colocou o bloco na rua?
Amadeu – Fizemos nosso serviço. Cabe ao governo
liberar financiamentos. |