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Pânico: conflito
entre PMs
e traficantes em Botafogo
provoca o caos e jornalista
é atingida por tiro de fuzil |
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| Rio de Janeiro |
| Tráfico
na pista |
Guerra no morro Dona Marta
mostra que os reflexos da
violência já tomam conta do asfalto |
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| Francisco Alves Filho |
Passava pouco das 19 horas da segunda-feira 29, quando o carro
entrou na rua São Clemente, uma das mais nobres de Botafogo,
zona sul do Rio de Janeiro. No trecho próximo a endereços
tradicionais, como a prefeitura, o Consulado de Portugal, a Pinacoteca
e o Colégio Santo Inácio, o motorista fez a curva
à direita. Logo em seguida ouviu o estampido. Era um tiro
de fuzil, que acabara de estilhaçar o vidro do carona para
se alojar no tórax da jovem Nadja Haddad, 24 anos, repórter
da Rede Bandeirantes. “Fui atingida”, disse ela ao motorista
da emissora, Moabe Ferreira. “Me ajuda.” A jornalista
foi uma das cinco feridas na batalha travada entre policiais e traficantes
do morro Dona Marta, localizado às margens da São
Clemente. O confronto aconteceu no asfalto, em uma via de grande
movimento, com policiais entrincheirados atrás dos muros
dos prédios, enquanto famílias inteiras assistiam
desprotegidas ao bangue-bangue. O novo episódio de violência
urbana carioca reforça a idéia de que ficou no passado
o tempo em que o poderio bélico dos traficantes se restringia
aos morros. “Cada vez mais, os prédios e as ruas do
Rio localizadas próximo a favelas sofrem a influência
do tráfico”, avalia Helvécio Alcântara,
diretor da Bolsa de Imóveis. A entidade estima que em vários
bairros cariocas edificações desse tipo perderam mais
de 50% de seu valor de venda.
Integrante do Laboratório de Análises da Violência
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o sociólogo
Inácio Cano afirma que o domínio territorial continua
se dando nas favelas, mas os reflexos da violência se fazem
sentir cada vez mais no asfalto. “Durante anos, as políticas
de segurança foram feitas para isolar a violência nas
áreas pobres”, critica ele. “Se tivéssemos
tratado adequadamente do problema quando ele só acontecia
nos morros, isso não estaria acontecendo.” Não
é a primeira vez que o Dona Marta serve de cenário
para batalhas como essa. No final da década de 80, quando
os traficantes Zaca e Cabeludo disputaram o poder paralelo no local,
as trocas de tiros viraram rotina – algumas vezes também
atingindo a São Clemente. Também na caçada
ao traficante Marcinho VP, em 2000, isso aconteceu. O inusitado
dessa vez é que os marginais tenham reagido de forma tão
violenta a uma simples ação policial. “A ousadia
dos traficantes parece não ter limites”, lamenta a
presidente da Associação de Moradores de Botafogo
(AMB), Regina Chiaradia. “Os bandidos do Dona Marta foram
para o asfalto e chegaram bem perto da porta do 2º Batalhão
de Polícia Militar, que fica do outro lado da calçada.”
Na semana anterior, um ônibus foi incendiado pelo tráfico
no Cosme Velho, outro bairro nobre. O drama está democraticamente
distribuído e afeta tanto moradores vizinhos de morros de
Copacabana e Ipanema, na zona sul, quanto os de Vila Isabel, Tijuca
ou Engenho da Rainha, na zona norte.
Ameaças – Mesmo quando a comunidade
encontra formas criativas para reagir ao poder marginal, o terror
permanece. Ficou nacionalmente famoso o caso de dona Vitória,
a velhinha octogenária que de seu prédio em Copacabana
gravou em vídeo a movimentação dos traficantes
da Ladeira dos Tabajaras. Depois da divulgação das
cenas de livre venda e consumo de maconha e cocaína, a polícia
ocupou a área, prendeu vários traficantes e interrompeu
o comércio de drogas. Nem por isso os moradores voltaram
a viver em total tranqüilidade. Nos últimos dias, os
vizinhos de dona Vitória passaram a receber recados dos traficantes.
São ameaças de que, assim que a ocupação
policial terminar, o prédio de onde foram feitas as gravações
poderá ser alvo de atentados. “Não se pode querer
que a comunidade combata o tráfico colocando a vida em risco.
A solução é a intensificação
das operações de inteligência da própria
polícia”, afirma a presidente da AMB. A troca de tiros
no Dona Marta teve origem na caçada aos traficantes que teriam
fugido da Ladeira dos Tabajaras para o morro de Botafogo. Na quarta-feira
31, o estado de saúde da jornalista Nadja Haddad apresentou
uma melhora e ela foi transferida da Unidade de Terapia Intensiva
para a Unidade Intermediária do Hospital Samaritano. |