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Pesquisa
Censo gay
ISTOÉ divulga com exclusividade o
primeiro mapeamento que revela o
estilo de vida dos homossexuais
Felipe Gil

O Brasil está prestes a se deparar com um novo censo. Não se trata da tradicional pesquisa do IBGE, mas do maior mapeamento de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros já realizado no País. Entre os meses de setembro
e dezembro de 2004, o site GLS Planet
e a Jump, empresa especializada em pesquisas de mercado, lançaram pela internet 62 questões sobre o estilo de vida de 5.180 pessoas, que se mantiveram anônimas. O levantamento corrobora antigas suposições, como a idéia de que os casais homossexuais têm renda maior do que o resto da população, mas também traz surpresas, como o fato de apenas metade dos entrevistados já ter se sentido discriminada. Segundo Sônia Alves, 40 anos, que criou o site GLS Planet com a parceira Anna Braga, 45, a rede foi escolhida como o canal do estudo por seu
caráter discreto. “É difícil o gay se identificar para uma pesquisa. Espalhamos links para o censo em vários blogs e a internet se mostrou a melhor maneira de atingir o nosso alvo”, diz Sônia.

Gilberto Marques/AE
De olho na parada: a nona edição da Parada do Orgulho GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) de São Paulo será no domingo 29. Em 2004 (foto), o evento reuniu 1,5 milhão de pessoas e movimentou R$ 100 milhões. Este ano, é esperado um público de dois milhões. A festa já superou, em número de participantes, outras tradicionais, como a de San Francisco (EUA) e a de Berlim (Alemanha). Em 26 de junho será a vez da décima parada do Rio de Janeiro

Seguindo o padrão da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), que determina as classes sociais a partir de bens de consumo, a pesquisa chegou à conclusão de que 36% pertencem à classe A, 48% à B e 16% à
C. O fato de a internet ter sido utilizada como o meio de resposta eleva o número de ricos, bem como o grau de escolaridade: 57% completaram o ensino superior. Sair do armário também depende da classe social. Na A, 68% assumem sua orientação sexual. Já na C, o índice sobe para 74%. Embora a parcela de gays que declararam ter sofrido algum tipo de discriminação tenha sido de 55%, o resultado foi uma surpresa positiva. “Achei que este número ficaria entre 80% e 90%”, revela Virgínia Rowlands, 39 anos, diretora da Jump e responsável pela análise dos dados. Entre os discriminados, oito em cada dez foram vítimas de piadas. O assustador é que 42% deles foram alvo de chacotas vindas de conhecidos. A
relação com a família também é difícil. Dos discriminados por parentes, 15% sofreram com surras e 39% foram obrigados a fazer terapia. Na hora de assumir sua condição, os gays elegem a família apenas como terceira opção. Antes vêm os amigos e os chefes no trabalho.

Outro aspecto acentuado foi a importância dada pelos gays aos direitos civis. Para Virgínia, ficou muito claro que os homossexuais não querem mais ser cidadãos de segunda classe. “Eles cumprem seus deveres e querem ter o direito de fazer planos de saúde em conjunto, unir os bens do casal e receber pensão por morte.” Os dois primeiros foram considerados muito importantes para 80% dos entrevistados e a pensão por morte, para 73%. Os resultados completos estarão disponíveis no site www. censogls.com.br a partir na sexta-feira 20. Sônia acredita que, com eles, os grupos ativistas poderão focar melhor suas ações. “Um exemplo é trabalhar a aceitação do gay na própria família”, diz. Ela adianta que um novo censo, ainda mais amplo, já está sendo preparado e terá início em agosto. Outro braço do levantamento será a elaboração de pesquisas de mercado encomendadas para setores específicos, como o turismo, por exemplo.