Confira também outros sites:
HOME: REVISTA: ENTREVISTA
Carla Mori/Dadanews/brainpix  

" Eu chamo um ator, aí ele recebe um convite do Spielberg e me larga na hora. Não dá para competir com o dinheiro que ele oferece"

 

ISTOÉ – Apesar da falta de recursos, o sr. sempre consegue grandes nomes – Julia Roberts, Helen Hunt, Sean Penn, só para citar alguns – para atuar em seus filmes. Como se explica isso?
Allen –
Sempre procuro o ator que me parece melhor para o papel. Aí descubro que não tenho dinheiro para pagar o salário daquela pessoa. Acontece que algumas vezes você consegue pegar um ator que não liga para o cachê disponível e sai correndo para fazer o trabalho. Mas, na maioria das vezes, os atores só trabalham comigo quando estão parados entre duas produções. Eu chamo um ator, aí em seguida ele recebe um convite do (Steven) Spielberg – que, aliás, é um excelente diretor – e me larga na hora. Não dá para competir com o dinheiro que o Spielberg ou o Oliver Stone oferecem. Mas se o ator acabou de filmar, faturou milhões de cachê e não tem mais nada para fazer, ele aceita meu convite. Por isso, muitas vezes filmo quando sei que há uma estiagem na indústria.

ISTOÉ – O sr. está lançando agora o filme Melinda and Melinda. Trata-se de um drama e uma comédia, com roteiro dividido em duas histórias. Por que o sr. optou por esta solução?
Allen –
É claro que eu faço mais comédias do que dramas. Minha filmografia deixa isso óbvio. Mas é sempre divertido fazer algo mais pesado, um drama, por exemplo, só para variar. Muitas vezes tenho idéias que tanto podem ser escritas de modo cômico quanto seriamente, de modo dramático. Eu sempre escolhi uma das vias e segui aquela opção. Melinda and Melinda era uma dessas idéias que poderiam ir tanto para um lado quando para o outro. Tanto poderia ser engraçada quanto trágico-romântica. Aí me ocorreu: por que não alterar as duas vias e ver se eu consigo fazer um filme desse modo? Pensei que também poderia aprendar algo nesse processo. É claro que não aprendi coisa alguma, mas foi divertido fazer esse trabalho. No caso de Melinda and Melinda, comecei com um drama. Aí entrou no elenco o Will Ferrell. Então voltei para o roteiro e trabalhei para fazer algo sob medida para o Will e acabei fazendo uma comédia.

ISTOÉ – No Brasil as pessoas não conhecem o Will Ferrell (do programa Saturday night live e dos filmes Um duende em Nova York e Dias incríveis) do mesmo modo que os americanos. Por favor, explique como se faz algo sob medida para ele.
Allen –
Bem, em primeiro lugar, ele é fisicamente diferente. É um grandalhão simplório. O jeito como ele se movimenta, sua fisionomia e expressão têm algo de intangível, de ridículo e doce. Todo mundo ri de suas comédias ridículas – inclusive eu mesmo. A grande pergunta era: mas será que ele consegue interpretar outros papéis de forma convincente? Acontece que há algo de muito doce nele que ganha seu coração. Ele é vulnerável, talvez por seu tamanho e falta de jeito, pelas suas expressões ou por algum talento inato dentro dele, sei lá... Teve algumas coisas no roteiro – alguns diálogos – que ele não conseguia fazer. Quando eu escrevo um diálogo, minha tendência é fazer algo para mim, mesmo que eu saiba que não vou ser eu quem vai dizer aquelas frases. Mas eu escrevo instintivamente para mim mesmo e tive de cortar alguns diálogos ou frases porque Will não conseguia fazê-los direito. Não era ele. Não era engraçado quando ele falava. Em outros momentos, teve coisas que ele fez que eu nunca imaginei ao escrever. Antes de encontrá-lo pessoalmente, não imaginei aquelas situações. Ele contribuiu no roteiro de tal modo que acabou construindo um personagem ridículo, engraçado, especial.

ISTOÉ – Publicaram uma foto de vocês dois, entre as filmagens, e a legenda dizia: “Allen ensinando Ferrell a ser Allen.” Mas, pelo que o sr. diz, ele não é o sr. em Melinda and Melinda, correto?
Allen –
É claro que o personagem tem sempre muito de mim. Afinal, escrevi pensando – como sempre – em mim mesmo. Mas há diferenças entre o personagem e eu. Por exemplo, cortei muitas piadas curtas no meio de frases. Se eu disser a frase, ela fica engraçada. Se ele falar, não tem graça: soa mais como um diálogo do que como uma piada. Aquilo que é natural para mim, não é para ele. Não é a primeira vez que isso acontece. Com a Diane Keaton era o mesmo problema. Ela também não conseguia dizer aquelas piadas curtas, do mesmo modo que o Will não conseguiu. Eu costumava escrever para ela essas tiradas rápidas e cortantes, mas ela era incapaz de dizê-las de modo engraçado. Diane é a pessoa mais engraçada que eu conheci na vida, e costumava sempre roubar a cena. Roubava o filme todo. Sempre escrevi filmes para mim, como personagem principal. Ela era personagem secundária, mas mesmo assim roubava as cenas.

  Nicolas Khayat/abaca/brainpix

 

" Sou judeu, fui criado num ambiente judaico. Acho que nunca conseguiria escrever de forma convincente sobre uma família negra "

ISTOÉ – Manhattan tem uma grande população negra. No entanto, seus filmes raramente costumam mostrar negros na cidade. Em Melinda and Melinda o sr. escalou os atores negros Chiwetel Ejiofor (Coisas belas e sujas e Elas me odeiam mas me querem) e Daniel Sunjata (Má companhia e Anjo de vidro). O sr. sucumbiu ao multiculturalismo?
Allen –
Sou judeu, fui criado num ambiente judaico. Esse é meu idioma. Acho que nunca conseguiria escrever de forma convincente sobre uma família negra. Tive essa conversa diversas vezes com o (cineasta negro) Spike Lee. Duvido também que ele consiga escrever de forma convincente sobre uma família judia. Eu vi Ejiofor em Coisas sujas e belas e o achei superatraente. É um grande ator e muito carismático. Achei que era a pessoa que eu procurava para o papel. Ele leu o roteiro que mandei e aceitou fazer. Já Sunjata, que faz o personagem na parte cômica, vem dos teatros da Broadway. Eu o vi na peça Take me out e gostei muito. Qualquer um dos dois, tanto Chiwetel Ejiofor quanto Daniel Sunjata, poderia fazer a parte do outro – ou seja: poderiam trocar de lugar no filme. Eu queria alguém que realmente pudesse conquistar as duas mulheres e também fosse uma ameaça ao personagem de Will Ferrel. Aqui não me importava a cor dos atores. Imaginei uma festa na qual há um pianista e ele é talentoso e atraente. Como decidi que o Ejiofor seria esse pianista, a outra história deveria ter também um negro pianista.

ISTOÉ – Como é seu sistema de trabalho num texto? Como é que o sr. escreve?
Allen –
Escrevo naqueles blocões de papel amarelo, a lápis ou à caneta. Escrevo deitado na minha cama. Acabo sempre tendo de copiar tudo à máquina depois e isso toma uns três dias. Eu provavelmente deveria escrever sempre à máquina,
pois nesse caso você trabalha a cena ou ato e depois passa para o papel já sabendo como é que vai funcionar. Ao escrever à mão, você, na verdade, está ouvindo a cena em sua cabeça e não sabe se a coisa vai funcionar direito quando
se tornar audível a todos. Mas escrever à mão para mim é muito mais rápido.
Acabei me viciando nesse processo.

ISTOÉ – O sr. criou um personagem – o judeu intelectual, neurótico e engraçado. O público acabou acreditando que todo nova-iorquino judeu é um Woody Allen. E os judeus da cidade também tentam incorporar essa persona e imitar o sr. O que acha de ter povoado uma metrópole com milhares de Woody Allens?
Allen –
Um horror! Mesmo porque eu não sou aquele personagem. Caso queiram meu conselho: não tentem ser Woody Allen. Acho muito difícil ser eu.