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Intimidade: Há
25 anos com a pintora Christina, Coelho afirma que ela é
o
seu Zahir e que as crises conjugais
de seu alter ego são pura ficção |
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| Livros |
Não posso deixar
de ser eu |
À frente de um magalançamento,
Paulo Coelho traz à luz O Zahir,
sua obra mais autobiográfica |
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| Eliane Lobato |
Na casa de Paulo Coelho, nos Pireneus franceses, fronteira com
a Espanha, há um dispositivo de ultra-som no jardim que emite
um ruído desagradável para as toupeiras. O som reverbera
dentro da terra e faz com que o bicho se afaste. Assim, de maneira
polida, ele mantém a distância o que não é
bem-vindo. Por outro lado, os portões do jardim ficam escancarados
para receber amigos, fãs, leitores. Como o paradoxo do amor
e ódio faz parte da carreira de Coelho – um dos autores
mais vendidos do mundo e, também, vigorosamente rejeitado
–, a “estratégia da toupeira” se repete
na vida. Aos leitores, tudo. Aos detratores, distância. Mas
seu novo livro, O Zahir, que chega às livrarias nesta
segunda-feira 21 – antecipando o lançamento oficial
em 12 dias –, revela certa mágoa com a crítica
literária e com “quem não leu e não gostou”
de seus trabalhos. A obra, na qual cria um protagonista baseado
em si próprio, fala de um casamento em crise e defende relações
extraconjugais, além de incluir guerras, um misterioso desaparecimento
e, óbvio, espiritualidade.
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“Vê se pode!”:
Autor
nega suposto caso com
a sra. Carlos Menem |
A tiragem inicial de O Zahir é de oito milhões
de exemplares em 42 línguas e 83 países. O lançamento
mundial será no Irã, 48 horas antes do Brasil, onde
a primeira edição será de 320 mil livros, recorde
nacional. Os números superlativos são constantes em
sua trajetória: o autor conta que brevemente estará
em seu site a apuração atualizada e comprovada da
venda de sua obra mundo afora: 65 milhões de livros. Somente
O alquimista é “responsável por quase 27
milhões”, garante. “Fui o escritor mais vendido
em 2003. Não
fui em 2004 porque não lancei livro nenhum, mas também
seria difícil porque O código Da Vinci veio
pegando pesado”, diz. O Zahir tem estofo para ser o
arrasa-quarteirão da vez.
O título foi tirado de um conto homônimo do livro
O Aleph, do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).
Zahir tem origem na tradição islâmica e, em
árabe, quer dizer visível, presente, aquele ou aquilo
que não se esquece. Na trama de Coelho, Zahir é Esther,
a mulher do protagonista, a quem ele ama e com a qual vive uma crise
matrimonial. Ela é uma jornalista correspondente de guerra,
porta pela qual entram em cena os conflitos étnicos, políticos
e religiosos que mobilizam o mundo. Parte da história se
passa no Cazaquistão, país tolerante com várias
religiões. Paris é constantemente revisitada pelos
personagens. E o atrativo mais importante, a marca de Paulo Coelho:
provérbios, lendas, mitos, espíritos, vozes do além,
ensinamentos, maktub.
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| Viagem: Coelho visita o Cazaquistão,
cenário do desfecho do romance |
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No prumo – Na vida real, Coelho, 59 anos, diz que seu Zahir é a própria mulher, a artista plástica Christina Oiticica – seu quarto casamento, que dura 25 anos. O escritor afirma que as leis que regem sua relação com a mulher são diferentes das que prega seu alter ego da ficção. Segundo o autor, os casos extraconjugais ficaram restritos aos primeiros anos de casamento, mas no livro dá a entender que não é bem assim. “Não, não. Eu não sou nenhum santo, mas não”, rechaça. Um dos supostos romances, segundo a mídia, foi com a ex-Miss Universo Cecília Bolocco, mulher do ex-presidente argentino Carlos Menem. “Vê se pode!”, exclama. Christina esclarece: “No nosso casamento não tem espaço para casos.” A preocupação de ambos é “evitar a tentação de virar móveis e utensílios na relação”, como ele diz. E Coelho derrama seu amor: “Se algum dia ela me deixar, tenho a impressão de que perderia o prumo por completo.” Para Christina, “importante é ter um marido que me ame e que eu ame. O resto é ficção.” Exposição por exposição, ela prefere a de seus quadros, que costuma enterrar em várias partes do mundo para sofrer a intervenção da natureza.
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O Zahir
“Em Buenos Aires o Zahir é uma moeda comum de vinte
centavos; marcas de canivete ou de corta-papel riscam as letras
NT e o número dois; 1929 é a data gravada no verso.
(em Guzerat, no final do século XVIII, um tigre foi Zahir;
em Java, um cego da mesquita de Surakarta, apedrejado pelos
fiéis; na Pérsia, um astrolábio que Nadir
Shah mandou jogar no fundo do mar; nas prisões de Mahdi,
em 1892, uma pequena bússola que Rudolf Carl von Slatin
tocou...”
Início do conto de Jorge Luis Borges |
Crítica – Não é a primeira
vez que Coelho fala de sua vida íntima publicamente. Na biografia
Confissões de um peregrino, escrita pelo jornalista
espanhol Juan Arias, ele admite ter tido experiências homossexuais.
“Mas isso foi com 18 anos, por curiosidade sexual”,
explica. Já a relação com a imprensa não
é tão facilmente digerida. “Sou amado pelos
leitores, odiado pela crítica”, diz o protagonista
de O Zahir, um escritor bem-sucedido, repetindo frase de
Coelho. “Não acontece só comigo, acontece
com qualquer pessoa que faz sucesso na sua terra”, acredita.
“Se você não está absolutamente convencido
do que
está fazendo e leva um pau da crítica, corre o risco
de mudar para agradar
e trair a si próprio. Não há nada de
errado em agradar aos outros, mas
não se pode abrir mão da integridade
do trabalho”, completa.
No ranking da rejeição, a França, ou melhor,
a intelectualidade francesa, tem aparecido no topo. “Os editores
já insinuaram que pode vir uma reação até
agressiva. Eu poderia ter feito pequenas mudanças para agradar,
mas não
quis e agora vou me preparar para a porrada”, afirma. Coelho
conta que algumas
editoras, como a espanhola Planeta, mantêm um “comitê
de crise” para gerenciar eventuais rejeições.
“Achavam que eu estava me arriscando muito ao falar de prostituição
em Onze minutos. Berta Noll gerenciava esse comitê
da Planeta.
” Nem de longe o escritor admite mudar o conteúdo de
seus livros: “Eu sou eu, não posso deixar de ser. O
que tem mantido minha sanidade mental e espiritual é continuar
a ser eu mesmo.”
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