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Alan Rodrigues  
Esperança: apesar dos reveses, a maioria dos clandestinos, como W.S. (acima) e García, insistem  

O horror – “A maioria das pessoas desconhece como é difícil sobreviver no deserto”, explica Amado Marcelo Coelho, da Cruz Vermelha Mexicana, da unidade móvel baseada na cidade de Altar, México. “A temperatura faz com que tudo fique ainda pior entre os meses de abril e agosto, época do verão”, diz o policial Andy Adame. É o pior dos mundos: dias terrivelmente quentes e noites horrivelmente frias. “Vi mães dolorosamente agarradas a seus filhos, ambos mortos pelo frio”, conta Adame. O paramédico Coelho afirma que um dos maiores problemas dos que se aventuram à travessia é a desidratação. “É comum encontrarmos pessoas que perdem o raciocínio por completo por causa da sede. Elas escavam a terra com as mãos à procura de água ou tentam esfriar o cérebro enfiando a cabeça na terra”, diz Adame. “Quando identificamos um grupo fazendo movimentos em círculos, é certo que ele está perto da morte”, garante.

“As condições climáticas da fronteira têm transformado essa extensão de terra no maior cemitério do mundo”, define M.A., 45 anos, mineiro de Ipatinga. Ele viveu isso na própria pele. Em 18 anos, já atravessou oito vezes pelo deserto. “Como eu conhecia os esquemas, trazia uma dúzia de familiares e amigos toda vez que voltava do Brasil”, conta. “Fiquei tão experiente que tentei ser coiote”, confessa. A experiência foi um desastre: na hora da travessia, um dos brasileiros foi picado por uma cobra. “Em pouco tempo, o rapaz começou a espumar pela boca. Não durou uma hora”, conta. “A angústia era terrível. Depois de dois dias no deserto, o grupo tomou a difícil decisão de abandonar o corpo lá”, recorda. “Foi o pior momento da minha vida. Nem consegui receber o dinheiro dos outros. Era impossível receber alguma coisa de quem eu tinha feito sofrer tanto”, lamenta.

“Encontrar ossadas no meio do deserto é corriqueiro”, diz M.A. O governo
calcula que milhares de pessoas já morreram na desesperada tentativa de burlar as fronteiras. E só fazem parte das estatísticas oficiais os corpos encontrados inteiros. “A maioria dos imigrantes mortos espalhados pelo deserto tem seus corpos dilacerados. É crânio para um lado, mãos para outro, pernas e por aí vai”, garante o patrulheiro-chefe. “A dura realidade é que os bichos se alimentam desses corpos”, conta.

Alan Rodrigues
Drama: o policial Andy Adame, da Border Patrol, e os funcionários da Cruz Vermelha Mexicana conhecem bem a tragédia dos imigrantes

O silêncio dos inocentes – Para agravar o drama, um número cada vez maior de crianças está sendo resgatada no deserto. “Talvez isso esteja acontecendo por causa de um boato surgido no Brasil segundo o qual mães, com seus filhos, seriam vistas com maior complacência e tolerância pela patrulha da fronteira”, diz M.A.. Essa falsa percepção tem provocado situações surreais, com crianças presas e até aguardado julgamento em casas de correção infantil nos EUA. O único crime que esses meninos e meninas cometeram foi o de ter sido levados para viver com seus pais na América. Um bom exemplo dessa loucura aconteceu com o menino A.B.M., de seis anos, também mineiro. No final do ano passado, ele amargou 17 dias numa prisão na cidade de Phoenix, Arizona, sem a companhia dos pais ou de qualquer outra pessoa conhecida. Na “Febem” americana – bem mais civilizada que as brasileiras, é verdade –, no meio de tantas outras crianças vítimas dessa ilusão migratória, o pequeno só ouvia a língua pátria na voz de Ana Paula, uma conterrânea de apenas 12 anos, que está detida até hoje. Os pais de A.B.M. acreditavam que atravessariam a fronteira por um novo e infalível esquema. O plano foi traçado, pago e definido no Brasil por coiotes de Inhapim, interior de Minas Gerais. Eles atravessariam por Tijuana, México, a bordo de carros dirigidos por cidadãos americanos.

Em tese, o esquema não tinha falha (o repórter de ISTOÉ passou duas vezes pela fronteira a bordo de um carro americano sem ser revistado). Os pais do garoto seguiram num carro que não foi parado. Num segundo carro, mais tarde, viria o pequeno com uma mulher americana e seus filhos. O menino brasileiro tinha a pele tão branquinha quanto a do motorista e seus dois filhos. Combinaram que ele deveria se fingir de surdo-mudo. Parados na barreira, os policiais acordaram os meninos que dormiam no banco traseiro do veículo. Quando o policial se dirigiu ao pequeno A.B.M., ouviu um resmungo em português. Começaram a interrogar a criança, que resistia a tudo e permanecia calada. A insistência dos policiais e a pressão surtiram efeito. Diante do portunhol dos homens da lei, o menino acabou desabafando: “Eu não sou americano, eu sou brasileiro.” Essa foi a senha que os policiais precisavam para deter a criança de seis anos. Seus pais só vieram a saber que o plano tinha falhado no final do dia. A.B.M. foi libertado da prisão mediante fiança e graças aos esforços da missionária Michele Bryan. A criança vive hoje com seus pais numa cidade do Estado de Connecticut.

Alan Rodrigues  
Imigração ilegal envolve até a prisão de menores, como o brasileiro A.B.M., de seis anos (documento abaixo)  

Paramilitares – A partir deste ano, o cenário pode se tornar ainda mais dramático para quem se aventurar a entrar nos EUA clandestinamente. Os fazendeiros antiimigrantes dos Estados da Califórnia e do Arizona resolveram enfrentar os indocumentados à bala. Um grupo paramilitar denominado “Minuteman Project”, nome baseado numa milícia civil que existia no século XVIII, no início da guerra da independência dos EUA, vai organizar uma grande ofensiva contra as pessoas que ousarem atravessar o deserto. Voluntários estão se inscrevendo pela internet para formar a milícia. Os treinamentos começam dia 1º de abril. Eles acamparão durante um mês em partes estratégicas das montanhas e pelas reservas. Até agora, cerca de 1.500 pessoas, vários ex-militares, já se inscreveram para a “guerra” que se anuncia. Entre eles, os proprietários de 16 pequenas aeronaves prontas para atacar. O exército antiimigrante é capitaneado por James Gilchrist, 55 anos, um ex-marine veterano do Vietnã. Ele diz que o povo americano não pode mais arcar com os custos de saúde e educação dos imigrantes ilegais. “Eles não pagam impostos. E o que ganham aqui é enviado para seus países. Não investem nada. Por isso, temos que expulsá-los”, diz em sua página na web (www.minutemanproject.com). “Estamos muito preocupados com essa organização”, diz o policial Adame. “Essa iniciativa é muito perigosa. Os dois lados, coiotes e fazendeiros, possuem armas. Esse conflito pode resultar em muito mais mortes na região”, conclui.

Contra esse pano de fundo de ódio, o trabalho da missionária Michele viceja como um oásis no deserto. E sua preocupação humanitária estende-se aos mortos. É dela a iniciativa de viabilizar uma ala para os imigrantes desconhecidos no Terrace Cemetery. Michele preocupa-se com detalhes. Para cada morto “identificado” é realizada uma cerimônia simples, na qual são proferidos um culto evangélico e uma oração católica. “Não sabemos qual era a religião daquela pessoa. Então, optamos por fazer a homenagem desta forma”, conta a religiosa. Mesmo podendo enterrar os corpos dos clandestinos com um pouco mais de dignidade em território americano, quem participou dessas sessões é unânime em afirmar que o momento é terrível. “Não dá para imaginar aquelas pessoas ali veladas por duas pessoas desconhecidas, e longe de todos os seus entes queridos”, lamenta M.A.