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| Em campo: Rafael Reis,
da Unicamp, se surpreendeu com a falta de médicos |
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| ISTOÉ Online |
| Caindo na real |
Isolamento e miséria na
Amazônia
impressionam
participantes
do Projeto Rondon |
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| Rita Moraes |
Em suas andanças pelo Brasil, o então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva conheceu o Projeto Rondon, que teve seu apogeu durante a ditadura militar, foi extinto oficialmente em 1989, mas permaneceu vivo pelo empenho de alguns voluntários. Certamente, a lembrança do que a presença de universitários da “cidade grande” significava para lugarejos esquecidos do Brasil ajudou a convencê-lo a aceitar, no ano passado, a proposta da União dos Estudantes do Brasil (UNE) de ressuscitar o projeto. Na última quinzena de janeiro, munidos de caneta, bloco de anotações, máquina fotográfica e potes e potes de repelente, 160 estudantes e 40 professores de várias partes do Brasil participaram da nova edição do projeto. Espalharam-se por 11 municípios da Amazônia para fazer um diagnóstico socioeconômico de 13 localidades e apresentar ao governo federal uma proposta de desenvolvimento sustentável. A operação, que envolveu Exército, Marinha e Aeronáutica custou R$ 2 milhões, subsidiados principalmente pela Petrobras. “Foram necessárias muitas horas de vôo para facilitar a atuação dos jovens. O acesso na região é complicado. Também houve grande preocupação com a segurança e a saúde dos rondonistas”, explica o general José Luiz Halley, da comunicação do Ministério da Defesa.
Aventura – Apesar do sabor de aventura,
o choque de realidade foi grande.
Por 15 dias, os estudantes se deliciaram com a natureza exuberante
da floresta, tiveram treinamento de guerra na selva, voaram em aviões
da Força Aérea,
dormiram em quartéis, dividiram o “rancho” com
os militares, mas também enfrentaram os mosquitos, o calor
e a umidade extrema da região. E, o principal, depararam
com o isolamento e o abandono das comunidades ribeirinhas, que brotam
na mata a horas e até dias do centro urbano mais próximo.
“Não há fome, o rio e a mata oferecem alimentação,
mas a miséria é grande e não há saneamento
básico. Dejetos humanos, lixo, animais domésticos,
crianças brincando, tudo se mistura próximo às
palafitas”, conta Felippe Serigati, 22 anos. Ele e três
colegas, orientados por Antônio Buainain, professor de economia
da Universidade de Campinas (Unicamp), de São Paulo, estiveram
em Eirunepé, município de 28 mil habitantes –
na maioria, migrantes nordestinos. Na cidade, que fica às
margens do rio Juruá, na divisa dos Estados do Amazonas e
do Acre, a economia é de subsistência. “Qualquer
projeto de intervenção tem que levar em conta a dificuldade
de comunicação e de escoamento de mercadorias, o que
só se dá pelo rio. A capital Manaus está a
3.400 quilômetros de barco, o que significa uma viagem de
até 15 dias”, descreve Serigati.
Rafael Reis, que também fazia parte do grupo, aponta uma curiosa contabilidade. “Há na cidade cinco clínicos gerais e um ginecologista. Se alguém quebra uma perna fica sem atendimento especializado ou é levado para Manaus, a R$ 1 mil por pessoa em avião comercial. Só em janeiro, a prefeitura gastou R$ 20 mil com esta assistência. Um médico lá chega a ganhar R$ 12 mil por mês, mas não há quem fique por muito tempo. É uma situação incrível”, diz o estudante.
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| A professora Sônia, da Uerj, registrou
a falta de saneamento básico e o grupo da Poli clicou
a feitura da farinha de mandioca, base alimentar dos ribeirinhos
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Descoberta – Fazer com que a juventude universitária
deixe a comodidade de seus laboratórios e salas para ver
o que está por
trás das estatísticas dos livros é exatamente
o objetivo do Rondon, cuja primeira versão nasceu na antiga
Universidade da Guanabara, hoje Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj). Para a equipe da universidade carioca que participou
do Rondon 2005 foi uma real descoberta. “A moçada não
conhecia nada da edição anterior. Eles temeram um
pouco o inóspito, mas ficaram entusiasmados”, conta
a professora Sônia Vidal, da geografia da Uerj. Sônia
e quatro alunos deixaram o agito carioca para seguir para Manaus
e depois para Tabatinga (AM) em um barulhento avião Hércules,
em 1h40 de vôo, e mais 45 minutos para Santo Antônio
do Içá, uma viagem que, se fosse por via fluvial,
levaria sete dias.
A cidade tem 33 mil habitantes e fica isolada no Alto Solimões.
“É uma região de tríplice fronteira entre
Brasil, Colômbia e Peru e faz parte da rota de tráfico
de drogas, armas e combustível. Também ouvimos que
há roubo de ovas de peixes nobres por estrangeiros”,
conta a professora. Uma prática parece ser comum na região.
Os prefeitos no término da gestão levam tudo consigo.
Programas, registros e até equipamentos. Levantar dados foi
uma dificuldade, mas o grupo descobriu que a maioria da população
vive de fundos federais de auxílio. Quase não há
geração de renda. “Os mais velhos pescam, plantam,
fazem farinha e poucos jovens trabalham no comércio incipiente.
As mulheres são mães na adolescência e têm
seis, sete filhos. A expectativa de vida lá é de 35
anos, metade da média nacional”, espanta-se a estudante
Cynthia Vallim, que completou 21 anos em plena floresta. Uma cena
intrigou especialmente o grupo. “Havia lá uns sete
mil índios, a maioria ticunas. Vimos um deles na rede lendo
um dicionário Aurélio. No centro urbano,
vimos outro rapaz numa varanda fazendo o mesmo. Estranhamos e descobrimos
que a única biblioteca da cidade, além de uns poucos
livros infantis, só tinha dicionários”, lembra
ela.
Valores perdidos – A educação indígena é um ponto de grande carência. Foi o que detectou o grupo da Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que seguiu para a Amazônia com o professor de engenharia Edilson Hiroshi Tamai. Ficaram em São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com Colômbia e Venezuela, há uma hora de vôo de Manaus ou quatro dias de barco subindo o rio Negro. Lá, 95% da população de 30 mil habitantes é indígena, mas muito pouco se preservou de seus costumes e valores. “São mais de 110 mil quilômetros quadrados de área, com 22 etnias diferentes em comunidades distantes umas das outras. As crianças não falam sua língua. Seu conhecimento terapêutico natural se perdeu”, conta o aluno Ricardo Shirota Filho, 21 anos. Também surpreendeu a pobreza da dieta alimentar. “Achamos que a diversidade da floresta traria uma alimentação rica, mas eles só comem farinha de mandioca, caça e frutas. O rio Negro tem água ácida, não fornece peixes. Não há comércio, vivem de escambo”, diz Shirota.
A impressão dos estudantes é que a Amazônia
é um paraíso de vida extremamente precária,
onde o desenvolvimento do mundo moderno não aporta pela margem
dos rios como era de se esperar. Ele vem apenas pela tela da tevê
– pelo
menos uma em cada comunidade –, trazido pelas antenas parabólicas,
e
como ficção permanece.
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