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| Clemência: o pai
e a irmã Isabel rezam pela vida do engenheiro João José Vasconcellos |
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| Iraque |
| Comoção nacional |
Familiares, personalidades, a
Odebrecht, Lula e o Itamaraty se
unem para pedir a libertação do
brasileiro sequestrado no Iraque |
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| Kátia Mello e Fernando F. Kadaoka |
O drama que atingiu em cheio o coração da família
de João José Vasconcellos Jr., sequestrado no Iraque
no dia 19 de janeiro pelo grupo extremista Brigadas al-Mujahadin,
em cooperação com o Ansar al-Sunna, ultrapassou a
esfera política do Itamaraty. Causou comoção
e o envolvimento de vários setores da sociedade brasileira.
Na quarta-feira 26, Ronaldo, jogador da Seleção Brasileira
e do Real Madrid, colocou todo o seu carisma junto ao povo iraquiano
em favor da libertação de Vasconcellos. “Em
uma situação como essa, muito delicada, e vendo muita
gente falar que sou querido no Iraque, eu peço que haja pelo
menos um contato que possa iniciar a negociação para
libertar o brasileiro João José Vasconcellos, que
é mineiro como a minha noiva (Daniela Cicarelli). Espero
que essa mensagem chegue ao coração dos que o sequestraram
e que tenham um pouco de piedade para que ele possa voltar ”,
apelou o Fenômeno em uma gravação a ser veiculada
nas principais emissoras árabes. A diplomacia do futebol
(talvez uma das mais prestigiosas faces da Nação)
já havia entrado em campo no ano passado, quando a seleção
canarinho fez um amistoso no devastado Haiti. Pelé e Ronaldinho
Gaúcho, que também foram convocados pela família
Vasconcellos, preferiram não se manifestar. O irmão
do sequestrado, Luiz Henrique de Vasconcellos, contou em entrevista
a ISTOÉ que a solidariedade chega de várias partes
do País. “São apoios voluntários, espontâneos,
de entidades. Todos demostram sua indignação e solidariedade”,
disse ele.
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| Fenômeno:“Espero que essa
mensagem chegue ao coração dessas pessoas que o sequestraram
e que tenham um pouco de piedade e libertem o brasileiro” |
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Diariamente no Iraque reféns são sequestrados por dinheiro
ou razões políticas. Mas nunca se imaginaria que um
cidadão brasileiro seria refém de rebeldes iraquianos.
“O Brasil sempre foi uma país pacífico, não
apoiou a guerra no Iraque nem mandou tropas. Portanto, no pensamento
do brasileiro essa violência se torna ainda mais injustificável.
Aliás, qualquer sequestro é injustificável”,
afirmou o irmão Luiz Henrique Vasconcellos. Mas ele supõe
que a ação contra seu irmão João José
tenha acontecido pela vertente política, porque faz parte de
uma série de ações terroristas para desestabilizar
o Iraque em vésperas de eleições e também
porque a termelétrica para a qual João José trabalha
iria trazer grande benefício à região. O engenheiro
é funcionário da construtora Norberto Odebrecht, única
empresa brasileira com contratos na reconstrução do
Iraque. Mas ainda pode haver uma razão financeira. Os sequestradores
sabem que as empresas internacionais no Iraque possuem um seguro para
seus trabalhadores e, eventualmente, podem utilizá-lo em casos
de resgates.
Última viagem – Como a obra em que
João José Vasconcellos trabalhava estava quase no
final, essa seria sua última viagem ao país em guerra.
Ele passou o Natal no Brasil com a família e embarcou para
Bagdá no dia 25 de dezembro. No dia do sequestro, Vasconcellos
deveria deixar o Iraque. Ele saiu de Beiji, no Norte do Iraque,
em direção ao aeroporto de Bagdá. Seguranças
da empresa britânica Janusian
Security Risk Management, contratada pela construtura Odebrecht,
acompanhavam-no. O engenheiro estava no penúltimo carro,
uma BMW preta, entre um segurança britânico e outro
iraquiano. O comboio caiu em uma emboscada e a BMW foi metralhada,
matando os dois seguranças. Vasconcellos foi levado como
refém,
em uma operação altamente planejada. As primeiras
informações que chegaram
ao Brasil diziam que, além do sequestro de Vasconcellos,
um outro brasileiro teria sido morto. No entanto, tanto a Odebrecht
quanto o Itamaraty negaram a morte de qualquer cidadão. João
José Vasconcellos é o segundo brasileiro a sofrer
as consequências da violência iraquiana. O diplomata
brasileiro Sérgio Vieira de
Mello, representante das Nações Unidas no Iraque,
foi morto em um atentado
em agosto de 2003, quando um caminhão-bomba destruiu a sede
das Nações Unidas em Bagdá.
Além dos canais extra-oficiais, o governo brasileiro enviou
o embaixador do Oriente Médio, Affonso Celso Ouro Preto,
a Amã, capital da Jordânia. Ouro Preto viaja à
Síria para encontrar-se com o presidente Bashar al-Assad
– acusado de permitir a presença de grupos terroristas
na Síria –, para que intervenha pela libertação
de Vasconcellos. A idéia é fazer algum contato com
as Brigadas al-Mujahadin. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva está acompanhando passo a passo o caso. Outra possibilidade
cogitada seria o contato com sunitas iraquianos, como o xeque Abdul
Salam al-Kobeissi ou ainda a Associação dos Clérigos
Muçulmanos do Iraque, que já concordou em interceder
a favor do brasileiro. O Itamaraty também entrou em contato
com lideranças palestinas e países como o Reino Unido,
a França e a Espanha, que tiveram cidadãos sequestrados,
em busca de caminhos que levem à soltura do engenheiro.
Em alguns casos, como aconteceu com os jornalistas franceses,
os apelos para libertação são ouvidos. Em outros,
nem com a dinheirama envolvida os rebeldes cederam e acabaram degolando
seus reféns. Alguns sequestradores alcançaram seus
objetivos políticos. Em julho passado, a mensagem de um refém
filipino obrigou Manila a retirar seus 51 soldados do Iraque. É
raro ver situações em que os governos negociem diretamente
com os rebeldes, como deve ter sido o caso da Itália, que
nega ter pago o resgate pela libertação das italianas
de mesmo nome, Simona. Mas o fato é que os reféns
estrangeiros são como ouro puro nas mãos dos extremistas.
Do Nepal aos EUA, cerca de 33 países já viram seus
cidadãos se tornarem reféns desde abril de 2004. Segundo
o International Corporate Protection Group (ICT), 132 sequestrados
foram libertados, 39 assassinados e 27 continuam presos ou desaparecidos.
Apesar da dor, do intenso sofrimento, a família Vasconcellos
não perde a esperança e organiza para o sábado
29 uma grande manifestação em Juiz de Fora pela libertação
de João José. Eles acreditam que ainda vão
ver o dia em que ele regresse para casa. São e salvo. “Esse
afeto que sempre houve entre o povo brasileiro e os iraquianos pode
pesar a favor de João José. A nossa esperança
é que realmente isso ocorra”, disse o irmão
Luiz Henrique. |