| Saúde |
| Em nome da vida |
Apesar de ainda existirem dificuldades, cresce
o número de transplantes realizados no Brasil |
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| Francisco Alves Filho |
Difícil pensar em generosidade maior do que o ser humano tirar um pedaço de si ou de um ente querido para dar a outra pessoa e salvar-lhe a vida. No Brasil, este gesto solidário é cada vez mais frequente. Em 2004, deverão ser realizados 13,5 mil transplantes, contra 12 mil concretizados no ano passado. As explicações para esse fenômeno positivo são várias. “Faltava informação, hoje as pessoas conversam mais sobre o assunto”, avalia a nefrologista Maria Cristina de Castro, vice-presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). “Além disso, o sistema de notificação e captação de órgãos foi aperfeiçoado”, diz. Um passo importante foi a lei aprovada há dois anos que obrigou as UTIs de nível II – aptas a manter pacientes com morte cerebral – a formar comissões de transplantes.
A modalidade de doação que mais aumenta é a de doadores mortos, em que a única exigência é a concordância da família. A quantidade de doadores vivos se mantém estável. “Normalmente isso acontece entre parentes”, explica Maria Cristina. O aumento de transplantes deve ser comemorado, mas ainda falta muito. Existem cerca de 60 mil brasileiros na fila à espera de um rim, fígado, coração e outros órgãos que podem fazer a diferença entre a vida e a morte.
Para quem vive à espera de um doador, o tempo passa mais
rápido.
Foi o que descobriu o professor universitário Francisco Neto
de Assis,
58 anos, de Pelotas (RS), cujo filho Eduardo sofria de miocardiopatia
dilatada, principal causa de indicação para transplantes
cardíacos no mundo. Em 1997, quando o jovem tinha 14 anos,
surgiu a possibilidade de doação na própria
família, quando uma sobrinha de 16 anos morreu em acidente
de carro. “Meu irmão disse ao médico que queria
doar o coração da filha para Eduardo”, lembra.
Os médicos não conheciam os procedimentos de captação
do órgão e a doação acabou inviabilizada.
O rapaz entrou na fila de transplantes e lá ficou por nove
meses. No início de 1998, os transplantes praticamente deixaram
de ser feitos no período da discussão sobre a lei
que tratava do assunto, hoje em vigor. “Ele não resistiu
e morreu”, conta o pai. Assis transformou a dor em disposição
de luta e criou a Aliança Brasileira pela Doação
de Órgãos e Tecidos (Adote), entidade que hoje tem
papel fundamental na divulgação do ato de doar. Ainda
existem alguns pontos a serem aperfeiçoados no sistema de
transplantes – muitas vezes a família tem de esperar
até 12 horas pela retirada dos órgãos. A demora
se deve à reconstituição do corpo feita pelos
médicos e à burocracia do Instituto Médico
Legal. Mesmo com o risco da demora, o gesto vale a pena, e não
só para quem espera na fila. ISTOÉ mostra, no depoimento
de pessoas que doaram ou autorizaram a doação, como
essa decisão é importante para os dois lados. |