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| As exportações do Brasil para a Índia alcançam
US$ 553 milhões |
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| Comércio exterior |
| Passagem para Ìndia |
Empresários brasileiros redescobrem
o caminho da rota da seda |
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| Kátia Mello – Nova Délhi (Índia) |
A sensação é de vertigem diante de um imenso
caleidoscópio. A cada passo, os olhos aceleram ansiosos por
mais e logo se perdem na profusão de cores, formas, sabores
e odores. Para o visitante de primeira viagem, a Índia é
terra de beleza e raridade. É preciso ter fôlego, tempo
e paciência oriental para mergulhar neste universo antagônico,
que congrega uma cultura milenar e duas décadas do que há
de mais moderno no Ocidente. Monumentos históricos se contrapõem
aos poucos edifícios modernos da periferia da capital Nova
Délhi. As reformas econômicas, iniciadas em 1991, vieram
como uma avalanche que não pára mais. Elas fizeram
com que a Índia atingisse o segundo maior crescimento econômico
mundial, com um aumento de 8% no PIB em 2003. As reservas em moeda
estrangeira chegaram ao recorde de US$ 120 bilhões em julho
deste ano. Mas a Índia moderna, suntuosa, conhecida mundialmente
por sua produção de ponta em softwares, se funde a
uma Índia caótica, mística. É ainda
a mesma Índia cobiçada desde os tempos da rota da
seda.
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| Contradição: o empresário
brasileiro, José Cançado (à dir.) descobre o país que tem alta
tecnologia, mas cuja maior parte da população ainda vive no
campo |
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A busca pela primorosa tecelagem tem hoje outras razões.
Os tecidos luxuosos dos tempos dos marajás passam por uma
modernização com alta tecnologia, fazendo com que
a indústria têxtil indiana se torne a segunda no ranking
mundial. Duas vezes ao ano, cerca de seis mil compradores de mais
de 20 nações percorrem a Feira de Artesanatos e Presentes
da Índia, que rende US$ 2,3 bilhões anuais aos cofres
do país. Os ávidos compradores andam de lá
para cá com um caderninho na mão, explorando os 18
pavilhões espalhados em 75 mil metros quadrados. Móveis
de madeira talhada, mesas de mármore delicadamente esculpidas,
escarpins, bolsas e roupas com miçangas e os desejados objetos
de consumo das mulheres: os belos xales de pashmina. É de
encher os olhos dos compradores, que são em maioria oriundos
da Europa e dos Estados Unidos. Mas, com o aumento do intercâmbio
entre Brasil e Índia (em 1999, o Brasil importava US$ 170
milhões e exportava US$ 313 milhões. Em 2003 passou
a importar US$ 486 milhões e exportar US$ 553 milhões),
cresceu o interesse de empresários brasileiros pelos produtos
indianos, porque eles têm bom preço em relação
à qualidade. “Brasil e Índia passam juntos por
um processo de abertura comercial. E isso vai além dos interesses
governamentais, porque tanto os empresários indianos como
os brasileiros estão começando a descobrir isso. Eu
tenho interesse tanto em importar produtos indianos como em exportar
mercadorias brasileiras para a Índia”, afirmou a ISTOÉ
José Cançado Ramos, diretor de uma trade do Grupo
Sada, em Minas Gerais.
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| Campeã: nas últimas duas
décadas, a Índia tornou-se o país que mais exporta softwares
no mundo |
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Redescobrimento – A maior parte dos indianos
conhece o Brasil apenas pelo craque Ronaldinho. Já os brasileiros
se afunilam na imagem mítica da Índia dos homens de
turbantes – os sikhs, que são apenas 15% da população.
A maioria dos indianos é hindu e o país fala 18 idiomas
oficiais. É bem verdade que por onde se ande lá está
a vaca sagrada estacionada nas caóticas ruas da capital,
concorrendo com camelos, bicicletas, os famosos toc-toc (típicos
triciclos), as riquixás (carroças puxadas com as mãos)
e as Mercedes-Benz dos afortunados indianos. Os empresários
brasileiros que aportam no país pela primeira vez logo aprendem
que no trânsito, por exemplo, a ordem é regida pela
buzina. E também ficam rapidamente cientes de que o inglês
dos indianos é muito difícil de ser decifrado.
Nesse turbilhão humano de um bilhão de pessoas,
a mão-de-obra ainda é muito barata. Cerca de 70% da
população está nas áreas rurais, onde
a biotecnologia de ponta convive lado a lado com os camelos que
aram a terra. É dessas pequenas vilas que sai o artesanato
de alta qualidade, fabricado por famílias ou comunidades
que se reúnem em associações. Na feira, por
exemplo, encontra-se uma cadeira de madeira para exportação
a US$ 25. Deste valor, US$ 23 destinam-se ao empresário,
enquanto o marceneiro leva apenas US$ 2. As tradições,
como as religiões e a deliciosa culinária, passam
de pai para filho. O mesmo acontece com o artesanato. Nas pequenas
comunidades, diferentemente dos grandes centros, onde se vêem
jovens com calça jeans, as vestimentas ainda remontam a séculos
atrás. As belas indianas se enrolam em seus saris –
pano de cores vivas com cerca de seis metros.
Na maior democracia do planeta, com instituições
fortes e respeitadas, ainda vigora o sistema de castas. São
inúmeras as famílias que vivem nas ruas e se apinham
nos carros pedindo dinheiro com o seguinte método: batem
a mão na barriga e depois na boca, em um gesto que pede um
trocado. O turista é visto como uma fonte de renda fácil
e rápida. Mas, ao contrário do Brasil, em que o motorista
corre para fechar a janela no semáforo com medo de ser assaltado,
na Índia é quase inexistente o perigo de ser roubado
à mão armada. O país é bélico,
assumiu seu arsenal atômico perante o inimigo Paquistão,
mas armas não estão nas mãos dos cidadãos.
E as diferentes religiões contribuem para a não-violência.
Para o comerciante brasileiro, tudo isso pode parecer um tanto confuso.
Negociar com os empresários indianos também é
um capítulo à parte. Nem sempre eles dizem tudo o
que querem de forma direta, como esperam os ocidentais. É
preciso ter paciência. Mas vale a pena. O mercado consumidor
na Índia é promissor. Só a classe média
soma 200 milhões de pessoas (quase a população
inteira do Brasil). E até a infra-estrutura, que à
primeira vista pode parecer precária, é uma boa porta
de entrada para os investidores que desejam apostar em um novo caminho
para a Índia. |