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Brasileiro do Ano
José Dirceu
Do combate à ditadura à chefia
da Casa Civil de Lula, o ministro
José Dirceu sempre foi coerente
com seu amor pela política
Eduardo Hollanda, Florência Costa
e Weiller Diniz

O ministro José Dirceu é um brasileiro típico com suas múltiplas e intensas paixões. Todas elas, Zé, como é chamado pelos amigos, procura realizar no limite. A paixão pelo País o levou a pegar em armas contra a ditadura militar, resultando num degredo político de seis anos que o condenou a viver longe das pessoas mais queridas. Hoje, se diz um homem realizado. pode se dedicar com mais afinco à paixão familiar: a atual mulher, Maria Rita, e três filhos de outros casamentos – Joana, Camila e José Carlos. Este último herdou o DNA político do pai e acabou de ser eleito prefeito de Cruzeiro do Oeste (PR) com o nome de Zeca Dirceu. “Ele é bom, vocês vão vê-lo como prefeito”, gaba-se. Dirceu também tem verdadeira paixão por filmes e livros, especialmente as biografias de grandes estadistas. As filhas são parceiras em seguidas sessões de cinema em casa, em DVD. “Não tenho mais vida social, não dá tempo”, queixa-se. Ele também adora Passa Quatro, a cidade natal no interior de Minas Gerais, que visita quando pode, mas divide esse amor com São Paulo, a terra de adoção. “Primeiro a prisão, depois o exílio e agora a política não me deixaram curtir a cidade. Nasci em Minas, mas no fundo sou um paulistano puro”, confessa, puxando aquele indefectível ‘erre’ tão característico do interior paulista.

Álbum de Família / Roberto Jayme
Militante estudantil no final dos anos 60 (foto à dir.), José Dirceu acabou preso num congresso da UNE em Ibiúna e depois viveu exilado em Cuba (à esq., abaixo): sem paixão pela luta armada

Este advogado fez da política e do amor pelo País suas grandes causas. Nascido no dia 16 de março de 1946, Dirceu cultiva da origem matuta uma introspecção mesclada com a serenidade das serras mineiras. A vivência na italianíssima São Paulo, reforçada pela militância política, desde os tempos em que a barra começou a pesar – em 1961 –, semeou nele uma eloquência respeitada até pelos adversários mais duros. Essa mistura, aqui e acolá, subverte a reservada alma mineira e estoura em retóricas agudas que, por vezes, provoca desdobramentos explosivos. E não é o ‘erre’ puxadinho, que incomoda os adversários. Sua sinceridade desconcerta. “O Brasil é minha grande e verdadeira paixão. Dediquei minha vida nesses últimos 43 anos ao Brasil. Agora me sinto realizado porque o País melhorou. Temos perspectivas e esperança. Acho que minha geração chegou ao poder na hora certa. Estamos amadurecidos e temos experiência política e administrativa para enfrentar os desafios e entender também os limites do poder.” O otimismo de Dirceu projeta-se para 2005: “Hoje não existe mais crise no País, nem inflação, nem risco-Brasil. O que se discute é manter o crescimento. Um governo não pode ter só política econômica, monetária e fiscal. Tem que ter projeto de desenvolvimento”, sugere, correndo o risco de um olhar enciumado da área econômica.

Sabedoria – Diz um provérbio oriental que o bambu enverga, mas não
quebra. A trajetória de vida do atual chefe da Casa Civil pode ser considerada a encarnação dessa metáfora que agrega flexibilidade e tenacidade, tolerância e resistência. “Saber o momento e a hora de resolver cada questão; saber
a hora de enfrentar cada desafio; escolher o campo de luta, as armas e
o momento fazem parte da sabedoria”, ensina Dirceu. Nos últimos 24 meses, desde que o PT e o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva tomaram posse, Dirceu foi obrigado a desempenhar várias funções – do ataque à defesa – como um verdadeiro capitão do time, segundo classificação do próprio Lula. Enfrentou borrascas políticas, críticas sobre seus métodos e reparos sobre suas estratégias, mas manteve-se firme como titular absoluto no meio de campo da organização gerencial, administrativa e política do governo.

Divulgação / Álbum de Família / Roberto Jayme / Divulgação
Em família: na estação da cidade natal Passa Quatro (MG), com a filha Joana (acima, à dir.), a mãe Olga e a mulher Maria Rita (abaixo, dir.)

Ele já foi chamado de “superministro” e “homem forte” do governo.
Rejeita repetidamente as bajulações e reitera sempre que trabalha para
servir ao Brasil, ao PT, ao presidente Lula, seja como advogado, como deputado, como ministro ou como cidadão. “Meu projeto é trabalhar o máximo possível, fazer com que o governo Lula dê certo, que retome o desenvolvimento, que cumpra tudo aquilo que prometemos.” É um articulador por excelência, elogiado até pelos inimigos, com uma visão única e completa do governo, do conjunto da sociedade e da classe política com quem lida diariamente. “O Congresso é a coisa mais complicada do Brasil. Do ponto de vista do governo, evidentemente, não está resolvido”, diagnostica. Foi diante deste tripé – sociedade, Congresso e governo – que ele viveu seu dia de bambu.