| Memória |
| Piano nas estrelas |
Nos dez anos de sua morte,
Tom Jobim é lembrado
com um
precioso e inédito disco ao vivo
e um livro com
ensaios sobre três
de suas melhores composições |
 |
Luiz Chagas
|
Há dez anos morria Antonio Carlos Brasileiro de Almeida
Jobim, o Tom.
No mesmo dia 8 de dezembro e na mesma cidade, Nova York, onde John
Lennon fora morto a tiros 14 anos antes. À semelhança
do ex-Beatle, Tom tinha uma música entre as mais gravadas
de todos os tempos – Garota de Ipanema, só
batida por Yesterday, do quarteto de Liverpool. Ao comentar
o fato, ele usava o humor matreiro. “Isso não vale.
Além de eles serem quatro, já compõem em inglês!”
Reza a lenda que a delícia de sua conversa só rivalizava
com sua música, o que pode ser comprovado em Antonio
Carlos Jobim em Minas ao vivo – piano e voz, primeiro
disco do selo que une a gravadora Biscoito Fino à Jobim Music,
de Ana e Paulo, viúva e filho do artista.
 |
| Parcerias: No CD inédito,
Tom lembra os trabalhos com Vinicius (à esq.) e Chico
Buarque, co-autor de Sabiá, analisada em livro
(no alto) |
Quando subiu ao palco do Palácio das Artes em Belo Horizonte,
em março de 1981, ainda abalado com a morte do parceiro e
amigo Vinicius de Moraes, no ano anterior, Jobim estava inspirado.
Só, diante de uma multidão emocionada, e contando
apenas com o piano, cantou e lembrou histórias de parceiros
como Vinicius, Chico Buarque, Dolores Duran e Aloysio de Oliveira.
Abre a noite com Newton Mendonça, ao lado de quem fez “umas
músicas que ninguém quis gravar, nem os editores,
nem João Gilberto”. Na interpretação
de Desafinado, surpreende com a lendária introdução,
praticamente desconhecida, música seguida por Samba de
uma nota só. De Dolores Duran toca Por causa de
você e uma versão instrumental de Estrada
do sol. Na sequência, se espalha em Eu sei que vou
te amar, Dindi, Modinha, Corcovado, Lígia, Retrato
em branco e preto e até mesmo em Garota de Ipanema.
O músico dedicado, que mesclava raiz, erudição
e criatividade, é esmiuçado no livro Três
canções de Tom Jobim (Cosacnaify, 96 págs.,
R$ 36). Enquanto Lorenzo Mammì se dedica a Sabiá,
com letra de Chico Buarque, que julga influenciada por Gonçalves
Dias, Arthur Nestrovsky garimpa Olavo Bilac em Águas
de março e Luiz Tatit
analisa os ecos de Dorival Caymmi em Gabriela. O volume vem acompanhado
por um CD em que Ná Ozzetti canta os três temas acompanhada
ao piano por André Mehmari. Os lançamentos não
devem parar por aí. A fita com o precioso show de Minas,
por exemplo, foi encontrada intacta, necessitando de ajustes mínimos,
na estante do compositor. No final dela, ao anunciar músicas
que compôs sozinho, brinca: “Agora um rapaz aqui um
tanto dispersivo. Meu parceiro também, um tal de Tom Jobim.”
Fino humor de Tom. Outro exemplo foi testemunhado pelo repórter
que assina estas linhas. Instado por um editor, perguntou-lhe quanto
iria “levar” para se apresentar em Campos de Jordão,
no lançamento da Universidade Livre de Música. De
bate-pronto Tom Jobim tascou: “Vou levar muitos cobertores,
meu filho, porque lá é frio para o diabo!”
|