 |
|
| Eclético: em seus
shows Wisnik dá palestras e vice-versa |
|
 |
 |
| Música |
| Na dose certa |
Cortejado por Djavan,
Caetano Veloso, Gal Costa,
Chico Buarque e Ná Ozzetti,
José Miguel Wisnik
desfruta de
uma “discreta celebridade” |
 |
| Luiz Chagas |
O artista é calmo como sua música. Quando toca com elegância as teclas do piano, José Miguel Wisnik lembra o músico erudito que realmente é. Quando fala sobre suas músicas e as dos outros, o faz com a malícia característica do professor que também é. Sentado no palco, contempla extasiado Ná Ozzetti ou Jussara Silveira cantando suas músicas. E é contemplado pelo público como o astro pop que está correndo o risco de se tornar.
Fãs ilustres não lhe faltam. Do topo da cadeia alimentar
do prestígio, Caetano Veloso dedicou-lhe Verdade tropical.
Wisnik atribui isso ao fato de ter lido o texto do livro do baiano
no momento em que estava sendo escrito, funcionando como um interlocutor
favorável. Agora, poucos meses após lançar
seu terceiro disco, Pérola aos poucos (Maiango),
que desde que saiu tornou-se o disco de cabeceira de Djavan, o professor
de literatura de 56 anos, nascido em São Vicente, São
Paulo, torna-se ainda mais acessível ao grande público.
Acaba de chegar às livrarias o songbook José Miguel
Wisnik – livro de partituras (Gryphus, 152 págs.,
R$ 54),
com 33 canções transcritas pelo violonista mineiro
Kristoff Silva, e Sem receita – ensaios e canções
(Publifolha, 556 págs., R$ 69), título tirado de uma
parceria
com a poeta Alice Ruiz, organizado por Arthur Nestrovsky, a primeira
reunião de suas idéias desde O som e o sentido
– uma outra história da música (Companhia
das Letras, 1989). O segundo livro traz textos já publicados
separadamente, com ênfase em literatura e música, letras
dos seus três discos – os outros são José
Miguel Wisnik, de 1993, e São Paulo Rio, de 2000 –,
o poema O fim de uma hera e uma longa entrevista concedida
a Nestrovsky, Luiz Tatit, também professor e músico,
fundador do Grupo Rumo, e João Camillo Penna, professor de
literatura da UFRJ. A edição traz ainda um CD com
as sete músicas de Nazareth, trilha sonora para
o balé do grupo Corpo, de 1993.
 |
| Cestão: o livro
Sem receita com ensaios, letras e entrevista (à
esq.), o disco mais recente (ao centro) e o songbook
com 33 canções cifradas |
Para Tatit, “Wisnik é a mais completa tradução
do cancionista-pensador, esse personagem que só se encontra
na cultura brasileira”, responsável por “melodias
sensíveis que antecipam a força emocional da letra”.
No que concorda Ná Ozzetti, também do Rumo, para quem
as canções de “Zé” possuem “uma
beleza diferente, vinda de caminhos singulares, lindas, profundas,
transcendentais, o sonho e o prazer de qualquer intérprete,
e dos ouvintes, é claro, pelas possibilidades de sobra que
oferecem”. Seus ensaios trazem, ainda segundo Tatit, “as
teses mais interessantes e originais sobre a identidade e a vocação
do nosso povo”. Como em Machado maxixe: o caso
Pestana, que abre Sem receita, em que analisa a música
brasileira a partir dos personagens dos contos de Machado de Assis,
O machete, publicado em 1878, e Um homem célebre,
de 1896. O primeiro narra a desventura do violoncelista Inácio
Araújo que perde a mulher para um tocador de cavaquinho.
O outro, a amargura de Pestana, um famoso compositor de polcas com
ambições eruditas. São caminhos percorridos
tanto por Heitor Villa-Lobos como por Antonio Carlos Jobim, Ernesto
Nazareth, o próprio Wisnik e Chico Buarque, bamba na música,
na literatura e no teatro.
 |
|
| "Seu piano é como o meu violão,
existe em função da composição" |
|
 |
 |
Chico Buarque, por sinal, pela primeira vez em sua carreira, cedeu
uma melodia para ser letrada por alguém. A parceria com Wisnik
tem endereço certo, Gal Costa, que já havia gravado
Assum branco do paulista. Caetano Veloso criou ao lado
do auto-intitulado “uspianista” a trilha para o próximo
balé do Grupo
Corpo, seguindo o exemplo de Tom Zé, que dividiu
com Wisnik Parabelo, de 1997. Djavan está na fila.
Para o ídolo alagoano, Wisnik é um “artista
raro,
com a sutileza envolvente, lírico, inspirador”.
Além de incluir na turnê de seu disco Vaidade a
música Pérola aos poucos Djavan, não
esconde o desejo de uma parceria. Segundo ele, “o que me chamou
a atenção é como Wisnik usa o instrumento especificamente
para cada música. E explica: “Seu piano é como
o meu violão, que existe em função da composição
e só poderia ser tocado por mim.” Segundo Paulo Neves,
poeta, tradutor, parceiro de Wisnik e autor do prefácio de
Sem receita, o artista por enquanto goza de uma “celebridade
discreta”. Por enquanto. |