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Fotos: Renato Velasco  
"Os miseráveis e a elite querem o mesmo: ser irresponsáveis diante da vida. Ironizam todo tipo de preocupação com o outro "  

ISTOÉ – O que a cultura do bem-estar, do culto ao corpo, tem a ver com essa situação?
Jurandir –
Para o grupo formador de opinião,
mudou o ideal de felicidade, que hoje é o bem-estar corporal, o prazer físico. Além desse ideal de felicidade sensorial, há uma idéia da vida como entretenimento. Ou seja, a pessoa deixa de pensar nas consequências morais do que faz. Quem compra droga simplesmente desliga o botão que avisa qual será a consequência disso. Parece que tudo é uma brincadeira. Multidões de pessoas que deveriam ter responsabilidade agem dessa forma. Na moral do espetáculo, o outro é sempre o responsável pelas mazelas e não eu. Eu estou corrompendo, sou venal, sou leviano, mas o que eu faço não tem nenhuma consequência. O que o vizinho faz com certeza terá. É uma posição típica dessa falta de compromisso.

ISTOÉ – A busca do prazer não é um direito inalienável?
Jurandir –
Prazer não é incompatível com compromisso social. Ninguém aceita a visão moralista de condenação do prazer. Com razão. Mas o prazer da droga, que as pessoas estão se matando para ter, é pífio. O prazer físico torna a pessoa dependente do aqui e do agora porque o corpo só é estimulado por algo presente. Cria-se uma servidão diante do objeto que contrasta com o desejo de autonomia. É um prazer ilusório. Quem diz que é bom é a moral do espetáculo. O viciado em cocaína, por exemplo, passa a não sentir prazer com mais nada. Vive da angústia da próxima dose. Já o usuário social, ao colaborar com o comércio ilegal de drogas e com a marginalidade urbana, paga um preço muito caro: está se restringindo. Não pode andar com liberdade. Nem seu filho. Tem de gastar mais com mecanismos que segurem sua vida ou sua propriedade. Passa a viver numa sociedade sitiada, situação que o dinheiro dele financia.

ISTOÉ – A descriminalização das drogas resolveria esse problema?
Jurandir –
Ela pode acarretar dois tipos de consequências. Primeiro, as pessoas começariam a usar socialmente e só alguns se tornariam adictos, como
acontece com o álcool. Na segunda possibilidade, devemos levar em conta que a sociedade em que vivemos tende a consumir tudo de forma compulsiva. Nesse caso, correríamos o risco de uma catástrofe, como aconteceu com o consumo de ópio na China. É uma grande discussão e deve ser levada à frente.

ISTOÉ – Como a mídia colabora para a crise moral?
Jurandir –
Um dos mecanismos é o tom de isenção com que tudo isso é apresentado. De um lado faz a campanha antidrogas e de outro apresenta um artista que faz propaganda de drogas. Tudo é igual. Há também o mecanismo de informação, que é servida às enxurradas. Isso prejudica o tempo de formação de convicção que a cultura do livro permitia. A mídia vive de moda e é importante que você não tenha convicção para que seja possível mudar a moda de hoje para amanhã. Sobretudo na cabeça das crianças e dos adolescentes. É desalentador. Se troco todos os dias de valor, não posso ter responsabilidade.

ISTOÉ – A psicanálise, principalmente nos anos 70, teve também responsabilidade nisso, ao incentivar uma certa irresponsabilidade? Costumava-se dizer: não se culpe. A religião já lhe culpou tanto...
Jurandir –
Com certeza. Foi um componente a mais a maneira como ela foi apresentada culturalmente, como foi apropriada. Parecia que era somente incentivar a pessoa a encontrar o próprio desejo e o próprio prazer. Um pouco de “irresponsabilização”, a pretexto de que as pessoas já tinham sido muito culpadas. Isso é tudo uma tolice. Não tem nada a ver com o que Freud pensava. Ele nunca imaginou a vida como uma Disneylândia. As noções fundamentais dele são as que dizem que nada existe de mais importante do que a responsabilidade do sujeito para consigo e para com o outro.

  Fotos: Renato Velasco

 

"Se antes as pessoas almejavam ser solidárias como os pais, hoje isso não tem valor. Agora se faz qualquer coisa para subir
na vida"

ISTOÉ – Qual seria a conduta desejável
das instituições e das pessoas que
detêm a autoridade?
Jurandir –
Primeiro, deve haver respeito ao sofrimento e à vida do outro. Isso é básico. Segundo, com os preceitos do iluminismo, que são justiça e decência. E, depois, o direito à felicidade de cada um. Além disso, é preciso retomar a discussão da educação no nível da família e das escolas. A quantidade de pessoas apresentadas como tendo sucesso é mínima. Não vai caber todo mundo. Então, a vida dela sempre aparecerá como algo miserável, sem glamour. Se antes as pessoas almejavam ser íntegras, solidárias, honestas como foram seus pais, hoje isso parece não ter mais valor. Dizia-se que não se pode fazer qualquer coisa para subir na vida. Hoje, as pessoas fazem qualquer coisa para subir na vida e ainda são apontadas como exemplo.

ISTOÉ – O sr. detecta a “juvenilização” dos pais, que passam a disputar o mesmo espaço dos filhos.
Jurandir –
Os pais se converteram a essa idéia de felicidade sensorial. Acham
que viverão bem com a receita de juvenilidade, boa forma e puerilidade mental.
Os próprios filhos se sentem constrangidos. Não digo que o pai deva dar a sua
vida pelo filho, só que tem de integrar o filho à sua vida. Ou então não seja pai
ou mãe. Se as pessoas não puderem se responsabilizar pelas novas gerações, a gente vai jogar esse mundo na lata de lixo. Se a pessoa não se dispõe a cuidar, então não tenha filhos. Isso acontece porque o pai tem vergonha de ser velho, não quer ser um ancestral.

ISTOÉ – Há esperança para quem continua a cultivar valores como
solidariedade e honestidade?
Jurandir –
Esses têm um valor fundamental. São a bússola. O navio pode se desgovernar aqui e ali, mas enquanto você tem isso há esperança de seguir o bom caminho. Essas pessoas não podem ser silenciadas nem podemos desacreditar da importância delas. Quando elas são silenciadas, sabemos o horror que é. Quando elas desacreditam, decretam o fim da cultura. No espaço cultural houve isso. Roma acabou em um dia. Há figuras públicas que mantêm esses valores. Há também o pai que batalha e tem coragem de se impor ao filho, para que depois o filho agradeça. Essa resistência cotidiana me agrada muito mais. É preciso que essas pessoas saibam que fazem diferença quando realizam bem o seu trabalho, que a sua honestidade é um valor, que essa crença constrói um país. Não podemos deixar que se desesperem e digam que nada adianta. Do outro lado há o deboche, o cinismo. Mas no final o resultado dessa resistência vale a pena. Basta pensar que japoneses, alemães, italianos e outros europeus carregaram pedra depois da Segunda Guerra Mundial e estão aí de novo. Se eles fizeram aquilo, a gente também pode fazer. Por que não?