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Fotos: Renato Velasco  

• Pernambucano radicado no Rio de Janeiro há 30 anos
• Formou-se na Faculdade de Medicina do Recife
• Fez residência e mestrado em etnopsiquiatria na Sorbonne, em Paris
• É professor titular do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

Jurandir Freire Costa
A violência é resultado
da desigualdade
Para o psicanalista, a responsabilidade
é dos poderosos
Francisco Alves Filho

É devastadora a análise que o psicanalista Jurandir Freire Costa
faz da elite brasileira em seu décimo livro, O vestígio e a aura, recém-lançado pela editora Garamond. Sobre os ombros dos poderosos pesa, no seu entender, a responsabilidade pelas principais mazelas sociais que atormentam o País, em especial a altíssima criminalidade. Não seria apenas a cruel concentração de renda que gera o crime, como se repete à exaustão, mas também a adoção de um comportamento em que “sociabilidade e moralidade se tornaram adversárias”. Jurandir, 60 anos, não usa meias-palavras. “Destravamos o freio de uma engrenagem alucinada, que tripudia sobre séculos de ideais democráticos e humanitários, só porque alguns decidiram fazer de seus prazeres o umbigo do mundo”, escreve. Essa subordinação à moral do entretenimento levou a elite a descartar valores tradicionais, a cultivar a obsessão com o corpo, a consumir drogas sem limites.

A crise moral fez com que a autoridade fosse substituída pela celebridade. Nas telas de tevê ou nas colunas sociais desfilam personagens que são vistos com inveja, mas não com respeito, já que muitas vezes são considerados venais, levianos e corruptos. Nem a autoridade dos pais se manteve, já que estes se recusam a ser vistos como portadores de tradições. Querem ser juvenis a todo custo e ocupar o mesmo espaço dos filhos, que acabam por perder referências fundamentais.

Um dos principais pensadores brasileiros da atualidade, Jurandir diz que sua crítica não tem nada a ver com as idéias moralistas de quem quer o retorno a um passado repressor. Defende a busca do prazer, desde que isso não represente a ruptura do compromisso social. Mas afirma que a crise moral pode ser superada. “Quando fazemos a boa pergunta acabamos encontrando a solução.”

ISTOÉ – A alta criminalidade é o maior sintoma da crise moral que o sr. trata
em seu livro?
Jurandir Freire Costa –
Sem dúvida, sobretudo nas grandes cidades. A violência é resultado da desigualdade. Mas não existe fator pessoal nem social que tenha
causa única. Desigualdade e concentração de renda sempre existiram neste
país. Só posso entender que está ocorrendo algo de ordem moral que faz com
que as pessoas não se submetam mais, não se organizem politicamente em
torno de utopias, não pensem em encontrar outra saída a não ser a violência.
E quem dá as regras da insubordinação violenta são as próprias elites. Isso
choca. É diferente dos tempos da aristocracia, quando a plebe jogava pedras
contra o poder, e do operariado do século XIX, começo do XX, que tinha as idéias socialistas e ia contra o molde de vida dos privilegiados.

ISTOÉ – É o consumo de drogas que faz a elite ficar “de joelhos” diante dos miseráveis, como o sr. escreve?
Jurandir –
É uma relação que vira a cultura de cabeça para baixo. Antes, quem tinha autoridade e poder não pedia a outro um meio que o tornasse feliz, como acontece agora. É uma ruptura completa. Os líderes políticos, espirituais, científicos eram fontes autônomas de satisfação. Eles detinham a chave do que as pessoas queriam. Não se pode inverter essa relação e achar que a cultura ficará em ordem. Quem sabe que monopoliza sua felicidade dá as cartas e não o respeita. Chega ao ponto de não respeitar a vida. Nos assaltos em que as pessoas são mortas, nota-se que a vida do outro é irrelevante. Que valor aquela pessoa tem para quem está com a arma na mão, a não ser o dinheiro? Nenhum. É vista como integrante de uma elite que não se respeita, que diz o tempo todo que depende daquele miserável. É encarada como alguém que vive da superexploração dos miseráveis. Essa distorção não começou com o miserável que porta a arma, mas sim com a elite que deu a norma da destruição. Não há um grupo para orientar a sociedade, buscar uma trégua. O grupo dos miseráveis e o grupo da elite querem a mesma coisa. Os dois buscam ser irresponsáveis diante da vida, gozar o quanto puderem. Não têm compromisso com os filhos e ironizam todo tipo de preocupação com o outro. Não existe guerra civil, mas acordo de matança mútua.

ISTOÉ – A elite não tem mais autoridade?
Jurandir –
Poder sem autoridade é uma coisa nova na nossa cultura. Quem
está embaixo não respeita mais quem está em cima e não é somente pelo
consumo de drogas. Antes, a autoridade vinha de pessoas ou instituições
com poder político, econômico ou social que se conduziam de forma a merecer o respeito e a admiração. Hoje, quem está no topo do poder não tem mais a admiração moral. Acredita-se que essas pessoas estão lá porque são levianas, venais, em alguns casos corruptas. É a fratura entre a base da ascensão social e a base de valores. Essas figuras inspiram ao mesmo tempo inveja e desprezo. Inveja pelas posses materiais e pelo poder social. Desprezo porque todos sabem que aquelas pessoas não têm mérito. Para chegar até lá, sobem de qualquer jeito. A cultura do espetáculo pede a exposição: aparecer independentemente do talento, do esforço e da disciplina.