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Feminista, eu? Tati acha
que se
os fãs assim a classificam então ela deve ser |
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| Música |
| Musa do pancadão |
Com letras primárias e o bordão “sou feia,
mas tô na moda”, Tati Quebra Barraco
embala as noites do eixo Rio–São Paulo |
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| Francisco Alves Filho |
Moradora da favela Cidade de Deus, a carioca Tatiana dos Santos
Lourenço, 25 anos, tem gasto boa parte de seu tempo na tarefa
de fazer balançar as bundinhas bem nascidas do eixo Rio–São
Paulo. Com voz ora esganiçada, ora grave, ela grita o seu
funk de pancadão irresistível e letras primárias
sob o codinome Tati Quebra Barraco. São composições
com títulos de grossura explícita, como Fama de
putona, ou disfarçada, como Dako é bom,
trazendo versos como “tô podendo pagar o motel pros
homens”, “me chamaram pra orgia” e a tristemente
clássica “me chama de cachorra que eu faço au
au”. Sua música é assim desde que começou
a trajetória de funkeira, há 11 anos. A novidade é
que nunca teve tão boa acolhida da classe média como
agora. Tati deu o ar de sua graça na última São
Paulo Fashion Week, suas músicas bombaram na inauguração
da loja carioca de Ocimar Versolato e vai aparecer como modelo na
revista Vogue, fotografada por Bob Wolfenson. Ela analisa
com frieza. “É assim: se o funk não vai à
classe média, a classe média vai ao funk. O que mais
tem nos bailes dos morros é playboy”, informa. A colunista
Erika Palomino chegou a sugerir que Tati seja a nova musa do verão
e o Ministério da Cultura patrocinou a sua viagem para representar
o Brasil num encontro feminista na Alemanha. “Feminista, eu?...
Sei lá... Se eles dizem, então eu sou...”
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| "No meio da noite, o pessoal tá
chapado e bolado. Quer mais é se divertir", afirma
Narcisa Tamborindeguy, socialite |
“Eles”, aos quais Tati se refere, são os intelectuais,
artistas ou socialites que nos últimos tempos se aventuram
a interpretar suas músicas e atribuir-lhes um valor inusitado.
“Ela é feminista intuitiva, suas letras mostram uma
mulher que toma a iniciativa sexual”, filosofa o DJ Marlboro,
um dos precursores do funk carioca, que na quarta-feira 17 fez o
lançamento do último CD de Tati, Boladona,
na Lov.e, badalada casa noturna paulistana. Difícil entender
o que versos como “69, frango assado, de ladinho a gente gosta”,
tem a ver com a luta pelos “direitos civis e políticos
da mulher”, como o Novo Dicionário Aurélio
define o feminismo. “Tati é um objeto sexual e não
sujeito das mudanças”, corrige a secretária
especial de Políticas para as Mulheres do governo federal,
Rose Marie Muraro, militante do movimento há décadas.
“O comportamento sexual foi pauta na década de 70,
isso é ultrapassado.” Ela se diz perplexa com o patrocínio
do Ministério da Cultura à viagem da funkeira para
representar as feministas brasileiras na Alemanha.
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| "Tati é um objeto sexual, e
não sujeito das mudanças", diz a militante
Rose Marie Muraro |
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O trabalho de Tati é marcado pelo escracho e salpicado de palavrões. Aos que a criticam por isso, ela cita outros personagens que fazem o mesmo. “Dercy Gonçalves fala um monte de palavrões e o pessoal adora ela. Quando a gente vem da favela tudo é criticado...”, rebate. Não é bem assim. Foi justamente a baixaria o ingrediente de seu funk que mais parece ter encantado os estilistas da Cavalera, uma das grifes jovens mais cobiçadas – e caras – do momento. Tati é a inspiradora de várias roupas da coleção Verão 2005, e uma das t-shirts tem na frente o seu rosto e nas costas a frase “Pau no ... do mundo. Só não esqueça do meu”, com que costuma terminar suas apresentações. O músico e compositor Marcelo Yuka – um dos fundadores da banda O Rappa e atualmente integrante da banda F.U.R.T.O – defende as músicas de Tati. “Ela canta o que sente, o que vive. É fruto das dificuldades sociais.” O pesquisador e crítico musical Ricardo Cravo Albin tem opinião diferente. “Várias pérolas da nossa música foram criadas por poetas pobres oriundos do morro, como Cartola e Nelson Cavaquinho”, afirma. Apesar disso, Albin elogia uma certa dose de “atrevimento” no patrocínio do MinC à viagem de Tati, por dar espaço a uma integrante das classes marginalizadas do País.
Mil léguas distante do papo-cabeça de quem superestima
o fenômeno Tati, a socialite carioca Narcisa Tamborindeguy
usa sinceridade desconcertante para explicar o sucesso de músicas
como Bota tudo nas coberturas do Rio e nas mansões
de São Paulo. “As letras dela são engraçadas.
No meio da noite, o pessoal tá chapado e bolado, quer mais
é se divertir.” Em seu momento top,
Tati aproveita o quanto pode a badalação. Viaja, participa
de programas de tevê, frequenta os points da classe média,
bebe licor Amarula e faz lipoaspiração na clínica
paulistana Santé. É a fiel tradução
de sua frase “Sou feia, mas tô na moda”, que virou
bordão dos descolados. O que Tati não pode esquecer
jamais é que toda moda passa. Ainda bem.
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