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| Emoção: Raineri,
Negrete e Soares (a partir da esq.) enfrentaram tempestades
de neve e ondas gigantes de areia e pedregulhos |
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| Limites |
| Tigre domado |
Grupo brasileiro de alpinistas dribla o frio para
escalar a maior montanha das Américas |
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| Cláudia Pinho |
Temperaturas de 30ºC negativos, nevascas, ventos tão
fortes que chegaram a derrubar um homem com mochila e equipamento
de escalada nas costas, num total de quase 80 quilos. Ingredientes
perfeitos para qualquer ser humano em sã consciência
ficar dentro de casa. E justamente o que sonhavam os alpinistas
paulistas Vitor Negrete, 36 anos, e Rodrigo Raineri, 35, quando
decidiram escalar durante o inverno o Monte Aconcágua, na
Argentina, a maior montanha das Américas, com quase sete
mil metros de altura.
No sábado 7 de agosto, eles se tornaram os primeiros brasileiros
a alcançar o cume da montanha nesse período do ano.
Não há registros oficiais, mas calcula-se que apenas
duas dezenas de pessoas no mundo tenham realizado tal proeza. O
número pequeno de tentativas se explica pelas condições
de tempo. A subida é feita pela face noroeste da montanha,
a mais usual e que possui pouca dificuldade técnica. Difícil
foi vencer o frio. À noite, o termômetro ficava abaixo
dos 25ºC negativos e as rajadas de vento provocam a sensação
térmica de pelo menos dez graus a menos.
Vencer o sentinela de pedra branca, como é chamada a montanha
localizada na província de Mendoza, é uma dupla aventura.
Primeiro porque ele está entre os destinos preferidos dos
alpinistas em razão de seu relevo. Depois, porque o Aconcágua
é um dos Sete Picos do Mundo, o conjunto de montanhas formado
pelos pontos geográficos mais altos em cada um dos continentes,
segundo classificação do americano Dick Bass, no livro
Sete Picos.
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| Conquista: aada integrante
da equipe carregou nas costas 15 quilos, entre equipamentos,
comida e roupas de pena de ganso para enfrentar o gelo |
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Além das nevascas, que atrapa-
lham a visão e dificultam o desloca-mento do grupo, a montanha
fica praticamente coberta de uma espessa camada de gelo. Por isso,
os cuidados para caminhar por ela são redobrados. Um vacilo
e uma escorregada podem
ser fatais. Não há como brecar no gelo. Além
disso, em caso de acidente, o resgate se torna praticamente impos-sível,
pois não há helicópteros que resistam à
força dos ventos.
Para o engenheiro de computação Rodrigo Raineri,
proprietário de uma agência de turismo de aventura,
a conquista teve sabor duplo de vitória. “Já
subi ao cume do Aconcágua quatro vezes e nunca consegui enxergá-lo
por causa do mau tempo. Dessa vez, o céu estava claro e com
sol. Foi uma bênção, chorei uma hora sem parar”,
confessa. A façanha foi repetida no dia seguinte pelos outros
três integrantes da equipe que chegaram ao final da expedição:
Antonio Carlos Soares, 30 anos, Roman Romancini, 29, e o argentino
Horacio Cunietti, 38. Para o segundo grupo, a experiência
foi mais tensa porque o tempo voltou a ficar instável. Com
o aumento dos ventos, eles foram obrigados a caminhar quase agachados
em alguns trechos da subida. “Se o clima melhorasse seria
lucro, porque tempo ruim era o cenário esperado”, diz
Soares.
Durante a expedição, que durou 17 dias, a equipe
enfrentou muitas dificuldades. Alguns momentos foram marcantes,
como caminhar por duas horas sobre um rio congelado dentro de um
vale, ou enfrentar ventos de mais de 80 km/h de velocidade, que
faziam surgir ondas de areia e pedras com quatro metros de altura.
“Parecia cena de filme. Quando a onda chegava perto, éramos
obrigados a virar de costas, agachar e esperar ela passar”,
diz Soares.
A aventura faz parte da Try On Expedition, série de expedições
pilotada por
Negrete e Raineri, dois dos mais importantes alpinistas do País.
Experiência
não lhes falta. Entre outras conquistas, o engenheiro de
alimentos Negrete, que é sócio de uma farmácia
de manipulação, escalou o pico Condoriri, na Bolívia,
e o Monte Rincón, na Argentina. Já Raineri escalou
o vulcão Ojos del Salado, no Chile, e o Mont Blanc, na Europa.
Os dois foram os primeiros brasileiros a escalar o Aconcágua
pela face sul, em 2002, uma das três rotas mais perigosas
e difíceis do planeta, com precipícios de mais de
três mil metros de profundidade. O lugar foi cenário
de um dos mais trágicos acidentes envolvendo aventureiros
brasileiros. Em 1998, os alpinistas Mozart Catão, Othon Leonardos
e Alexandre Oliveira morreram depois de ser atingidos por uma avalanche.
Catão, o líder da expedição, estava
sem cordas no momento e foi carregado pela neve. Os outros dois
ficaram pendurados por seus equipamentos a 4.500 metros de altura
e não resistiram ao frio. Seus corpos permanecem na montanha
até hoje.
Tigre – Escalar o Aconcágua no inverno
serviu de laboratório para a próxima empreitada da
dupla de aventureiros. Negrete e Raineri agora planejam vencer o
Everest, a montanha mais alta do mundo. Sem usar oxigênio
extra. Nenhum brasileiro conseguiu tal feito. “Os equipamentos
necessários e as baixas temperaturas são semelhantes
à expedição do Aconcágua. O que muda
é o
tempo, a comida e o dinheiro que se leva”, diz Raineri.
Apesar de não haver montanhas geladas no Brasil, o País
se orgulha dos feitos de alguns de seus melhores esportistas. O
alpinista paranaense Waldemar Niclevicz foi o primeiro a conquistar
o Everest com oxigênio, em 1996, e o primeiro brasileiro a
fazer a rota dos sete picos, entre 1996 e 1997. Mesmo com os riscos
de acidentes graves, o alpinismo faz parte do segmento de esportes
de aventura que cresce com muito fôlego no Brasil. Segundo
a Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada,
há quase dez mil alpinistas no País.
Quem quer se aventurar nas alturas deve levar em conta alguns
detalhes básicos para evitar riscos. Além do entrosamento
da equipe, paciência e rapidez de decisão são
essenciais. “Não dá para agir no impulso e é
preciso estar preparado a qualquer hora do dia ou da noite”,
diz Raineri. É fundamental ainda não ultrapassar os
próprios limites. A primeira dica é notar os sinais
do corpo, como dores de cabeça e cansaço. Uma noite
mal dormida pode ser decisiva na hora da escalada. “A montanha
é como uma fonte de água guardada por tigres. Para
beber a água e voltar inteiro para casa, temos de esperar
a hora em que eles dormem. Às vezes eles rosnam, mas, se
aproveitamos os momentos de distração, saímos
sãos e salvos”, compara Negrete. |