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André Dusek  
Verdade tardia: Ibsen Pinheiro descobre que perdeu cargo por erro jornalístico
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Exclusivo: papéis do MTB Bank envolvem outro inte-grante do governo e ex-dono de companhia áerea
 

Exclusivo
"Decidi não morrer"
Ibsen Pinheiro faz um desabafo emocionado
sobre o processo de que foi vítima e garante:
"Eu não guardo ódio"
Weiller Diniz

Aos 69 anos, o ex-presidente da Câmara
dos Deputados conserva hábitos simples,
como caminhar nas ruas de Porto Alegre.
Mora no mesmo apartamento de um bairro
de classe média, na capital gaúcha. Mas abandonou o gel para assentar os cabelos.
O homem que “não quis ser cúmplice da
própria destruição” concedeu esta entrevista a ISTOÉ na quarta-feira 11.

ISTOÉ – A notícia sobre a movimentação de
US$ 1 milhão foi decisiva para a sua cassação?
Ibsen Pinheiro
– Antes de tudo, foi uma surpresa como esta suposta informação alcançou tal repercussão em veículos de grande circulação. Sempre soube que não havia esses recursos – nem em dólares, nem em cruzados, nem em cruzeiros. Naquele momento, não havia o necessário e indispensável espaço para a prudência, para a avaliação criteriosa, e, consequentemente, a irresponsabilidade tinha espaço para crescer. É só o que pode explicar como prosperou algo sem o menor apoio na verdade. Nenhuma acusação formal me foi feita, eu não tinha uma emenda fraudada no Orçamento, qualquer conduta desabonadora. A única coisa que me foi atribuída era ter uma movimentação bancária superior às minhas posses.

ISTOÉ – E os US$ 881 mil, de onde surgiram?
Ibsen
– Na ocasião, não soube a que atribuir. Só quando o jornalista
Luís Costa Pinto me deu o seu depoimento, antes de um almoço em
Curitiba, é que eu tive a causa concreta. Antes, eu não podia atinar como
surgira esse tipo de suposta informação.

ISTOÉ – E as demais acusações da época (US$ 35 mil recebidos de Genebaldo Correia e fotos com anões em uma ilha grega) ajudaram?
Ibsen
– Voltaire tem uma definição muito interessante. Diz que a primeira infâmia contra alguém é rejeitada. A segunda arranha e a terceira destrói. No quadro que se criou, as imputações sem provas, sem nenhum conteúdo, produziam este efeito. Mas aquele quadro se criou. Uma foto junto com uma acusação de movimentação financeira desproporcional passava para o imaginário das pessoas que o ex-presidente da Câmara devia ser responsável por tudo de errado que acontecesse. Isso no imaginário das pessoas dispensava a necessidade de provas. Bastava a afirmação. Chegou a um ponto que não precisava nem afirmação, bastava a insinuação. Eu disse naquela ocasião algo que eu posso repetir hoje: nunca tive a graça de uma acusação. O próprio relatório da CPI dizia: “A denúncia inicial não restou provada.” Nos processos políticos, o ônus da prova se inverte. É o acusado que precisa provar uma, duas, três, quatro vezes. Passei por processo marcado pela ligeireza, característico dos processos políticos.

ISTOÉ – O sr. levou à CPI documentação de uma auditoria referente ao erro
do tal US$ 1 milhão?

Ibsen – Levei e me foi informado que ela seria desconsiderada, porque não tinha
tido o acompanhamento da CPI. Uma auditoria de uma qualidade inquestionável, feita pela empresa Trevisan, uma das mais acreditadas do País. Me perguntaram depois: “Por que você não deu esclarecimentos?” Eu dei, o que não havia era
espaço para sua repercussão.

ISTOÉ – Quem desconsiderou a auditoria?
Ibsen
– Não sei especificamente e não acho que isso tenha importância. Não tenho o espírito de cobrar contas. Passados dez anos, lanço para trás um olhar que não disfarça a amargura que senti, mas é um olhar também de quem soube vencer aquele quadro e atravessá-lo sem ódio. Aprendi que o ódio faz mal ao hospedeiro, nunca ao seu alvo. O ódio é um veneno que faz mal a quem o agasalha. Depois destes dez anos eu tive, primeiro, de me impor silêncio; segundo, retomar minha vida. Naquela manhã dramática do dia seguinte à cassação, quando me dava
conta de que quem sente vergonha não é quem faz coisas vergonhosas. Sente vergonha quem tem vergonha. Aprendi também que a consciência que dói é a limpa. Consciência suja seguramente não dói. A limpa dói. Se você atravessa um episódio desse e consegue proteger-se da amargura, do ressentimento e do ódio, tem chance de sair dele melhor do que entrou.

ISTOÉ – O sr. conversou com o relator (Roberto Magalhães) sobre o erro?
Ibsen
– Não, salvo para exibir a ele e ao presidente da CPI (Jarbas Passarinho) o passaporte que me foi exigido. Eu tomei duas decisões que alguns até hoje me dizem que foram fatais. Primeiro, não pedi o voto de nenhum deputado a meu
favor. Não há um parlamentar que possa dizer que eu fui ao seu gabinete fazer um apelo pessoal. Eu tinha a seguinte convicção: eu posso ser cassado, posso ser destruído, mas não serei cúmplice da minha destruição. Então, não vou cometer a humilhação de pedir que violem suas convicções para votar por coleguismo ou por companheirismo. A segunda decisão que tomei: eu não vou renunciar. Eu achava que poderia ser destruído de fora para dentro, como fui destruído politicamente, mas eu não seria cúmplice da minha própria destruição. Não fui a nenhum gabinete pedir ‘me tirem dessa’. O que eu pedi foi da tribuna. Expus a verdade, mas os juízes eram meus pares e eu deveria acatar o resultado, guardar a amargura comigo e confiar que o tempo e os fatos subsequentes me reparariam.