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| "Decidi não
morrer" |
Ibsen Pinheiro faz um desabafo emocionado
sobre o processo de que foi vítima e garante:
"Eu não guardo ódio" |
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| Weiller Diniz |
Aos 69 anos, o ex-presidente da Câmara
dos Deputados conserva hábitos simples,
como caminhar nas ruas de Porto Alegre.
Mora no mesmo apartamento de um bairro
de classe média, na capital gaúcha. Mas abandonou
o gel para assentar os cabelos.
O homem que “não quis ser cúmplice da
própria destruição” concedeu esta entrevista
a ISTOÉ na quarta-feira 11.
ISTOÉ – A notícia sobre a movimentação
de
US$ 1 milhão foi decisiva para a sua cassação?
Ibsen Pinheiro – Antes de tudo, foi uma surpresa
como esta suposta informação alcançou tal repercussão
em veículos de grande circulação. Sempre soube
que não havia esses recursos – nem em dólares,
nem em cruzados, nem em cruzeiros. Naquele momento, não havia
o necessário e indispensável espaço para a
prudência, para a avaliação criteriosa, e, consequentemente,
a irresponsabilidade tinha espaço para crescer. É
só o que pode explicar como prosperou algo sem o menor apoio
na verdade. Nenhuma acusação formal me foi feita,
eu não tinha uma emenda fraudada no Orçamento, qualquer
conduta desabonadora. A única coisa que me foi atribuída
era ter uma movimentação bancária superior
às minhas posses.
ISTOÉ – E os US$ 881 mil, de onde surgiram?
Ibsen – Na ocasião, não soube a que
atribuir. Só quando o jornalista
Luís Costa Pinto me deu o seu depoimento, antes de um almoço
em
Curitiba, é que eu tive a causa concreta. Antes, eu não
podia atinar como
surgira esse tipo de suposta informação.
ISTOÉ – E as demais acusações
da época (US$ 35 mil recebidos de Genebaldo Correia e fotos
com anões em uma ilha grega) ajudaram?
Ibsen – Voltaire tem uma definição
muito interessante. Diz que a primeira infâmia contra alguém
é rejeitada. A segunda arranha e a terceira destrói.
No quadro que se criou, as imputações sem provas,
sem nenhum conteúdo, produziam este efeito. Mas aquele quadro
se criou. Uma foto junto com uma acusação de movimentação
financeira desproporcional passava para o imaginário das
pessoas que o ex-presidente da Câmara devia ser responsável
por tudo de errado que acontecesse. Isso no imaginário das
pessoas dispensava a necessidade de provas. Bastava a afirmação.
Chegou a um ponto que não precisava nem afirmação,
bastava a insinuação. Eu disse naquela ocasião
algo que eu posso repetir hoje: nunca tive a graça de uma
acusação. O próprio relatório da CPI
dizia: “A denúncia inicial não restou provada.”
Nos processos políticos, o ônus da prova se inverte.
É o acusado que precisa provar uma, duas, três, quatro
vezes. Passei por processo marcado pela ligeireza, característico
dos processos políticos.
ISTOÉ – O sr. levou à CPI documentação
de uma auditoria referente ao erro
do tal US$ 1 milhão?
Ibsen – Levei e me foi informado que ela seria desconsiderada,
porque não tinha
tido o acompanhamento da CPI. Uma auditoria de uma qualidade inquestionável,
feita pela empresa Trevisan, uma das mais acreditadas do País.
Me perguntaram depois: “Por que você não deu
esclarecimentos?” Eu dei, o que não havia era
espaço para sua repercussão.
ISTOÉ – Quem desconsiderou a auditoria?
Ibsen – Não sei especificamente e não
acho que isso tenha importância. Não tenho o espírito
de cobrar contas. Passados dez anos, lanço para trás
um olhar que não disfarça a amargura que senti, mas
é um olhar também de quem soube vencer aquele quadro
e atravessá-lo sem ódio. Aprendi que o ódio
faz mal ao hospedeiro, nunca ao seu alvo. O ódio é
um veneno que faz mal a quem o agasalha. Depois destes dez anos
eu tive, primeiro, de me impor silêncio; segundo, retomar
minha vida. Naquela manhã dramática do dia seguinte
à cassação, quando me dava
conta de que quem sente vergonha não é quem faz coisas
vergonhosas. Sente vergonha quem tem vergonha. Aprendi também
que a consciência que dói é a limpa. Consciência
suja seguramente não dói. A limpa dói. Se você
atravessa um episódio desse e consegue proteger-se da amargura,
do ressentimento e do ódio, tem chance de sair dele melhor
do que entrou.
ISTOÉ – O sr. conversou com o relator
(Roberto Magalhães) sobre o erro?
Ibsen – Não, salvo para exibir a ele e ao
presidente da CPI (Jarbas Passarinho) o passaporte que me foi exigido.
Eu tomei duas decisões que alguns até hoje me dizem
que foram fatais. Primeiro, não pedi o voto de nenhum deputado
a meu
favor. Não há um parlamentar que possa dizer que eu
fui ao seu gabinete fazer um apelo pessoal. Eu tinha a seguinte
convicção: eu posso ser cassado, posso ser destruído,
mas não serei cúmplice da minha destruição.
Então, não vou cometer a humilhação
de pedir que violem suas convicções para votar por
coleguismo ou por companheirismo. A segunda decisão que tomei:
eu não vou renunciar. Eu achava que poderia ser destruído
de fora para dentro, como fui destruído politicamente, mas
eu não seria cúmplice da minha própria destruição.
Não fui a nenhum gabinete pedir ‘me tirem dessa’.
O que eu pedi foi da tribuna. Expus a verdade, mas os juízes
eram meus pares e eu deveria acatar o resultado, guardar a amargura
comigo e confiar que o tempo e os fatos subsequentes me reparariam.
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