| Lygia da Veiga Pereira |
| Terapeuta do futuro |
Na linha de frente da pesquisa genética,
cientista defende o uso de embriões
humanos como o caminho para
tratar doenças hoje incuráveis |
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| Cláudia Pinho |
A carioca Lygia da Veiga Pereira, 37 anos, quase causou uma revolução
em casa ao escolher a área de exatas na faculdade. Filha
de mãe socióloga, pai filósofo e neta de um
dos maiores editores do Rio de Janeiro, José Olímpio,
parecia natural que ela trilhasse o caminho das ciências humanas.
Física de formação e doutora em genética
no Monte Sinai de Nova York, Lygia é hoje uma das autoridades
em células-tronco e lidera um dos mais importantes grupos
de pesquisas em genética da Universidade de São Paulo
(USP). De certa forma, ela cumpriu o sonho familiar. Escreveu
Sequenciaram o genoma... E agora? e Clonagem, fatos e mitos,
obras que explicam de maneira didática dois assuntos atuais.
“Uso e abuso de analogias. Insisto que o genoma é uma
receita para se fazer um ser humano e que o gene é uma instrução
daquela receita”, diz. Entre seus trabalhos estão o
primeiro camundongo geneticamente modificado do País e os
testes com cobaias paralíticas, que recuperaram o movimento
após tratamento com células-tronco. Enquanto espera
a votação da emenda da Lei de Biossegurança,
que permitiria pesquisas com embriões humanos, Lygia trabalha
com essa células importadas dos EUA. Com uma rotina idêntica
a de milhares de mulheres profissionais, ela divide o tempo entre
o laboratório, a universidade, o marido, dois enteados e
a filha de pouco mais de um ano. A seguir, trechos de sua entrevista:
ISTOÉ – Nem sempre a sociedade reconhece a ciência pela dificuldade dos cientistas em traduzir o que fazem. Como resolver isso?
Lygia da Veiga Pereira – Vir de uma família de não-cientistas facilitou meu gosto pela divulgação científica. Eu chegava em casa e tinha de explicar aos meus pais o que eu fazia no laboratório. Esse exercício ainda ajuda na hora de escrever artigos e foi a base dos meus dois livros. Não podemos ter medo de simplificar. O jargão fica tão incorporado que, quando o cientista fala para a sociedade, ele nem percebe.
ISTOÉ – De que vale abordar temas como DNA e clonagem em novelas?
Lygia – Houve muita crítica a O clone,
da Glória Perez, por apresentar a clonagem de forma equivocada.
A novela, ou qualquer programa de tevê, não tem compromisso
com o rigor científico. Se tivesse, ia ser um saco e a novela
não poderia sequer se chamar O clone, porque não poderia
nascer um clone. A autora precisava de liberdade poética
para criar sua história. Só que ela colocou o debate
na boca do povo. Gerou uma conscientização na população.
Graças a essa novela, quando discutimos o uso do embrião,
se vai fazer clonagem ou não, as pessoas sabem do que se
trata.
ISTOÉ – Um dos temores do avanço da genética é a privacidade. Como impedir o mau uso desses dados?
Lygia – Quando surgem novas tecnologias, é fundamental surgir leis para regulamentar seu uso. Um exemplo é o acesso ao código genético. Ele pode prever doenças, mas será que a seguradora vai recusar uma apólice ou cobrar a mais se souber que a pessoa pode desenvolver uma doença? E o empregador, vai querer contratar o funcionário com risco de ter ataque de coração? A arma contra o mau uso da ciência é uma população bem informada. Daqui a pouco vão descobrir genes relacionados com o QI e a agressividade. Aí, será que as escolas vão querer crianças agressivas? Vão escolher seus alunos de acordo com o potencial de inteligência? São questões importantes, que podem gerar discriminação.
ISTOÉ – Cientistas americanos dizem ter encontrado
o gene do mau humor.
O que a ciência sabe sobre a relação entre genética
e comportamento?
Lygia – Há indicações de genes
que influenciam certos comportamentos, mas
nada muito conclusivo. Existem vias metabólicas que tornam
um indivíduo mais ou menos resistente ao álcool. Não
podemos achar que o genoma é uma bola de cristal, em que
basta olhar para o código genético de uma pessoa e
dizer se ela vai ser alcoólatra ou obesa. Somos um produto
da nossa genética e do meio ambiente. Pode ser que tendências
genéticas sejam anuladas ou contrabalançadas por um
estilo de vida específico. Nossa história não
está escrita só no genoma.
ISTOÉ – Qual o papel do estilo de vida no
surgimento de doenças?
Lygia – Nosso genoma regula todos os processos fisiológicos
e patológicos,
como hipertensão e asma. Conhecendo os genes que vão
apontar se vou ter maior probabilidade de desenvolver certas doenças,
o que determina se vou desenvolver ou não é a minha
genética e o meu estilo de vida. Se, a partir da análise
do meu genoma, um clínico diz que tenho propensão
a pressão alta, vou passar a me cuidar melhor. A fazer exercícios,
não fumar nem comer gordura. Ao fazer isso, talvez eu nem
desenvolva a doença.
ISTOÉ – Não são exageradas as
promessas em relação aos poderes mágicos
das células-tronco?
Lygia – Realmente há uma onda de sensacionalismo.
Ela é em parte motivada
pelo projeto de biossegurança que tramita no Congresso. Isso
dá uma falsa sensação de que só esperamos
a aprovação da lei e pronto, que podemos tratar todas
as doenças da noite para o dia. Ao aprovarem essa lei, vamos
começar as pesquisas com células de embriões
humanos no Brasil. É um longo caminho que um dia pode nos
levar a novas terapias para doenças para as quais hoje não
temos tratamento eficiente.
ISTOÉ – Em quanto tempo haverá aplicação médica?
Lygia – Minha suposição é em torno de dez anos. Nos testes com animais, temos resultados promissores no tratamento de mal de Parkinson, em traumas de medula e insuficiência cardíaca. Vamos começar em humanos o que já deu certo com animais. O rato com trauma de medula que recebeu células embrionárias não saiu correndo, mas recuperou parcialmente o movimento das patas. A célula embrionária dá origem a um grupo de células que origina todos os tecidos do indivíduo: osso, pele, sangue, músculo, neurônio, tudo. |