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| Talentos: os desenhos da
Tikka estão entre os preferidos da Ellus |
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| Sociedade |
Das ruas para
as galerias |
Grafiteiros são chamados para
fazer campanhas publicitárias e
exposições no exterior |
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| Juliana Vilas |
Grafite é coisa de arruaceiro, de quem não sabe fazer
arte. Essa afirmação, até há pouco tempo
aceita, mudou. A estética do grafite – de rua sim,
de arruaceiro nem sempre – está cada vez mais inserida
nas artes plásticas e na sociedade. Prova disso é
que os grafiteiros não param de ser chamados para aplicar
seu talento em revistas, exposições em galerias e
anúncios publicitários. Recentemente a Ellus contratou
20 artistas para colorir os outdoors de sua campanha de inverno.
E o inusitado é que, em vez de produzir os cartazes no estúdio,
eles criaram ao vivo, nas ruas de várias cidades do País,
exatamente como o grafite é feito. Outra grife que usou a
estética da “arte de rua” foi a Triton. A marca
lançou no começo deste ano a Manifesto, uma campanha
que usa o conceito de contestação, justamente a idéia
que deu origem a esses movimentos artísticos. Além
de invadir anúncios, outdoors, páginas de internet
e revistas, o grafite brasileiro é também produto
de exportação. Entre os artistas destacam-se figuras
conhecidas, como Onesto, Titi, Calma e Gêmeos, que ganharam
espaço em exposições e publicações
internacionais.
Atenta às tendências, a equipe de publicidade da Ellus
percebeu o apelo que o grafite tem entre os jovens. O mote da campanha
de inverno da marca, segundo o presidente da empresa, Nelson Alvarenga,
dá continuidade ao histórico da Ellus. “Para
uma grife se manter arejada, deve se aliar à efervescência
criativa de jovens artistas. São eles que estão em
contato com o novo”, explica. Tikka está entre os 20
artistas contratados para grafitar os outdoors. Com apenas 16 anos,
ela trabalha como recepcionista e grafita há um ano e meio.
No site da marca, os painéis foram expostos para votação.
O dela foi um dos dois escolhidos entre os 20. “Meu desenho
vai estampar algumas peças da coleção”,
comemora.
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Os desenhos de Stephan Doitschinoff, o Calma,
conquistaram o astro
Jimmy Page |
Outro artista que participou da campanha foi Onesto, 31 anos, grafiteiro
há 11. Ele defende que a atual geração de artistas
urbanos, diferente da precursora na década de 80, não
pinta para protestar, mas vê o grafite como arte. “Hoje
a proposta é outra, vai para o lado da arte, do design e
da comunicação. O grafite dos anos 80 era político.
Os artistas tinham que lutar para legalizá-lo”, explica.
Se a alma da arte de rua está no protesto irônico
e na livre expressão, é nesse conceito que se baseou
o publicitário Dráuzio Gragnani, criador da atual
campanha da Triton. “Quisemos uma estética mais democrática
e não dogmática, sem afirmar nada, só para
questionar”, diz ele. A grife contratou dois grafiteiros que
pintaram muros que funcionam como outdoors da marca na Vila Madalena,
bairro frequentado por modernos e descolados de São Paulo.
Mas o grafite brasileiro já ultrapassou os muros do País.
O artista multimídia Rui Amaral, um dos representantes da
geração que pintava muros – e fugia da polícia
– nos anos 80, diz que o Brasil, e principalmente São
Paulo, desponta no mundo como celeiro de bons grafiteiros. Ainda
este ano, ele vai ajudar a montar uma agência para exportar
artistas brasileiros. “O dono de uma galeria em Nova York
vem para organizar uma exposição itinerante que vai
passar por várias cidades americanas”, entusiasma-se.
Marcos Mello, designer e professor da Universidade Anhembi-Morumbi,
pesquisa a arte urbana em São Paulo há seis anos e
acaba de concluir seu trabalho: Grafite – São Paulo
– Brasil, ainda não publicado. Ele concorda com
Amaral e diz que, atualmente, a capital do grafite não é
mais Nova York, mas São Paulo. “Conversei com dois
pesquisadores, um francês e uma canadense, que vieram buscar
elementos para teses sobre grafite.” Um exemplo de artista
que já exportou trabalhos é o paulistano Stephan Doitschinoff,
o Calma. Além de participar da campanha da Ellus, painéis
seus, carregados dessa estética de rua, já passaram
por galerias na Inglaterra e na Alemanha, e estamparam um livro
francês. Mas sua consagração mesmo foi vender
um quadro para o astro Jimmy Page.
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| Sem protestos: Onesto acredita
que o grafite hoje pende para o lado da arte e do design |
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O grafite está essencialmente ligado à cultura hip
hop, composta por três elementos: música, dança
e artes plásticas. O movimento se consolidou no bairro do
Bronx, em Nova York, no final dos anos 60, como expressão
das minorias marginalizadas. Com o passar do tempo, o movimento
saiu dos guetos e invadiu palcos, tevê, moda, boates badaladas
e galerias. O ex-grafiteiro, arquiteto e doutor em comunicação
Arthur Lara, o Tuca, defendeu na Universidade de São Paulo
(USP) duas teses sobre o grafite. Com um certo desânimo, ele
analisa que a moçada de hoje está muito mais ligada
à mídia do que à arte e menos ainda à
política. “A função da propaganda é
vender uma marca. Hoje o grafite é mais comunicação
do que arte. Antes fazia questão de ser sujo, malvado e alternativo”,
diz Tuca, que faz parte da primeira geração de artistas
urbanos do Brasil. Mas, no meio dessa moçada a que Tuca se
refere, há vozes dissonantes. Entre os que sempre fizeram
arte nas ruas por prazer estão alguns mais resistentes, que
condenam o uso da linguagem do grafite na publicidade e acham que
é oportunismo das grifes se apropriarem de uma estética
que está aí há tanto tempo e sempre foi marginalizada.
“Essas marcas aproveitam o que está na moda para atrair
o jovem. Mas eles não vivem isso, não participam do
movimento e só se apropriam da linguagem”, protesta
Flip, que também é cenógrafo e pinta pelas
ruas da capital paulista há dez anos.
Já o artista plástico Carlos Dias, outro veterano
na arte urbana, é mais flexível.
Para ele, o local onde o trabalho está exposto é o
que determina seu preço. “Temos que saber lidar com
isso. O fato de a arte que antes estava só nas ruas ir para
museus, galerias e anúncios só valoriza o artista”,
pondera. E alerta que, se por um lado o casamento entre grafite
e publicidade pode ser bom, por outro, a superexposição
na mídia pode desgastar a linguagem. O que a Ellus, a Triton
e outras marcas estão fazendo é colocar dois universos
diferentes para dialogar. O grafite, que nasceu do protesto, e a
publicidade, que tem função comercial. E a união
parece estar dando certo |