Confira também outros sites:
REVISTA: BRASIL
Ichiro Guerra  
Por que o governo não atendeu pedidos por recuo e perdeu a razão na briga com o jornal americano
Especialistas dos EUA analisam o comportamento do presidente George W. Bush, um ex-alcóolatra
O que levou o jornalista a produzir uma das piores peças do jornalismo
 

Capa
Indignação e
auto-estima
Presidente recebe ISTOÉ no Planalto
e diz que jornal americano ofendeu
a honra da Nação

Hélio Campos Mello

O jornal The New York Times, em
sua edição de domingo 9, publicou reportagem de seu correspondente
no Brasil, Larry Rohter, que causou profunda indignação no País. Sob o
título “Hábito de beber de líder brasileiro vira preocupação nacional”, a matéria
foi elaborada usando informações inconsistentes e traçou um perfil humilhante do presidente da República. As manifestações de repúdio foram imediatas e vieram de todos os lados. Até o senador Artur Virgílio, líder do PSDB e ferrenho opositor do governo, ocupou a
tribuna e considerou a reportagem uma “grosseria” e “ofensiva à dignidade do
País”. O vice-presidente José de Alencar considerou-a uma “infâmia” e o ministro José Dirceu disse que respeita a liberdade de imprensa, mas considera a
matéria ofensiva ao País.

A indignação foi irrestrita, e o governo num primeiro momento considerou a
hipótese de entrar na Justiça e exigir retratação. Antes o tivesse feito. Os ânimos
se acirraram e o presidente acabou tomando a drástica e desastrada decisão de
não renovar o visto do jornalista. O último caso similar aconteceu em 1970, em
plena ditadura, quando François Pelou, da Agência France Press, foi expatriado
por ter divulgado uma relação de presos políticos pedidos em troca da libertação
de um embaixador sequestrado. A decisão de Lula causou mais barulho e revolta
do que a reportagem do The New York Times e acabou redirecionando a
enxurrada de críticas contra o governo.

Na quinta-feira 13, dois dias depois de tomar a malfadada decisão, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva recebeu pela manhã, no Palácio do Planalto, os líderes da base do governo no Congresso. Articulado pelo senador petista Aloizio Mercadante,
o grupo de parlamentares tinha a difícil missão de convencer Lula a recuar depois
da repercussão negativa no Brasil e no Exterior. Segundo um dos presentes, o
líder do PSB, senador João Capiberibe (AP), o que eles conseguiram foi que o presidente admitisse recuar da decisão só se o jornal se retratasse. Capiberibe também disse que saiu convencido de que a atitude tinha sido certa. “A matéria
se refere até ao pai do presidente, diz que ele era alcoólatra”, afirmou o senador. Nesse mesmo dia, o presidente recebeu ISTOÉ e falou sobre as dificuldades da economia, a eleição em São Paulo e desabafou sobre o caso do The New York Times. Leia a seguir a entrevista do presidente.

ISTOÉ – A expulsão do jornalista americano pôs querosene numa fogueira
que já estava em extinção, além de fazer lembrar dos tempos em que o senhor
era perseguido pela ditadura. O sr. não piorou as coisas? Não abriu um
precedente preocupante?
Luiz Inácio Lula da Silva –
Primeiro que não tem precedente nem tem nada que atinja a liberdade de imprensa. O jornal pode tirar este cidadão e mandar 350 jornalistas pra cá para fazerem 350 matérias criticando o governo que não tem problema. Não estamos expulsando do Brasil este cidadão, que eu nem conheço.
É um direito do Estado conceder ou não o visto. É engraçado: os EUA não concedem visto ao deputado Fernando Gabeira, que sequestrou o embaixador em 1968. O embaixador já morreu de velho e ainda hoje o Gabeira não consegue entrar lá. Primeiro, eu não tomei nenhuma atitude precipitada. Fiquei sabendo da matéria
no sábado. Li, reli, reli mais uma vez e fiquei tentando saber o fundamento. Por
que um cidadão faria uma matéria daquela? Ele poderia dizer que o governo é incompetente, que o governo não está conseguindo fazer nada. Poderia dizer
que eu bebo. Que gosto de tomar uísque, de tomar uma cerveja, de fumar um charuto. É a pura verdade.

ISTOÉ – Então onde é que pegou?
Lula –
Primeiro, eu não sou o Lula, sou o presidente da República. Que é uma instituição. Segundo, esse cidadão nunca esteve comigo, nunca viu o meu cotidiano. Não poderia passar para fora que o Brasil é governado por um alcoólatra. Eu duvido que qualquer companheiro tenha me visto bêbado alguma vez. Faço este desafio para a imprensa nacional. Ele poderia ter dito tudo o que quisesse: o presidente Lula vai nos coquetéis e bebe, vai nos almoços e toma um uísque. Poderia até me acompanhar marcando a quantidade que eu tomo. Tomou dois, tomou um, tomou um copo de vinho. Poderia até fazer um cálculo para o IBGE. Mas não. Baseado em notícias de um tal de Mainardi, que eu não sei aonde fica, baseado numa figura como o Cláudio Humberto e baseado no Brizola – que deve ter muita experiência de alcoolismo mesmo –, ele afirma que o Brasil corre risco porque o presidente Lula é um bêbado e o povo está preocupado com isso. Esse é o problema. Nenhum político neste país já bebeu com o povo como eu bebi. E você lembra. Eu tomava meu aperitivo, e às vezes era na porta de fábrica. Nunca escondi de ninguém, nunca fingi, nunca impedi que tirassem uma fotografia minha. Agora, veja a situação. Quando eu chegar na África do Sul, em Angola, quando eu for falar com o sheik da Arábia Saudita, ele vai dizer: “Pô, será que esse cara está bêbado? Ele é um alcoólatra.” Fiquei indefeso. O Brasil não é governado por um alcoólatra. Qual era o único instrumento que eu tinha? Bom, esse cidadão não tem direito de estar aqui, é uma concessão do Estado brasileiro permitir que ele fique aqui. Essa pessoa é uma persona non grata no Brasil. Está vencendo o contrato dele e não vamos renovar. O NYT que mande outro para cá. Fiz isto com a maior consciência, sabendo, inclusive, dos antecedentes deste cara.