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Disposta a adotar softwares não proprietários,
a Prefeitura de
Joinville está treinando servidores
até em ônibus, transformados em sala de aula |
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Sem pirataria – No mundo livre da informática,
experiências curiosas, elogiáveis e até mesmo
comoventes começam a surgir. Encravada no sertão central
do Ceará, a pequena Solonópole (www.solonopole.ce.gov.br)
está na vanguarda desse movimento capitaneado pela União.
Essa posição privilegiada de Solonópole parece
tão improvável quanto o transbordamento de água
de seus açudes – o que está acontecendo neste
verão, por causa das fortes chuvas. Historicamente acostumada
a sofrer com a seca, a cidade nunca teve nenhuma indústria
ou grande empresa. A maioria de seus 17 mil habitantes vive da lavoura
e da pecuária de subsistência. Lá não tem
nem sinal de celular, mas os moradores contam com uma rede de comunicação
eficiente e gratuita, sem fio, operada com software livre e transmitida
por ondas de rádio. Ela conecta a administração
a pontos distantes como a comunidade do açude Boqueirão,
de cerca de 100 pescadores. Um deles, Francisco Orismar da Silva,
34 anos, conta que, antes da internet, ninguém tinha documento
ou plano para o futuro. E muito menos e-mail. “A gente vivia
tudo esquecido”, diz. “Agora estamos usando isso até
na hora de correr atrás de um salário (seguro-desemprego)
para compensar a piracema”, completa, referindo-se ao período
de desova, no qual a pesca de rede é proibida. O responsável
por essa metamorfose é o prefeito Odorino Filho (PSDB), empresário
da área de informática que fez carreira em São
Paulo e Fortaleza (CE). “É tudo muito simples, barato
e sem pirataria”, resume. “Nesse sistema, até computador
obsoleto tem grande utilidade”, completa, esclarecendo que a
máquina ultrapassada, sem grandes poderes de processamento,
serve-se dos recursos de um computador central, através do
sistema Linux. Entusiasta da rede de comunicação, o
agricultor Joaquim Rocildo da Silva, 60 anos, lembra que, no início,
poucos entendiam o projeto do prefeito. “Hoje, só não
usa quem não quer”, diz. “A gente não precisa
mais ir a Senador Pompeu (cidade a 54 quilômetros de distância)
para resolver os problemas.”
O incentivo maior para transformações como as provocadas
pelo prefeito Odorino vem do Planalto, que, inclusive, lançou
um site de apoio ao movimento (www.softwarelivre.gov.br),
vinculado à Casa Civil. De acordo com o Ministério
da Ciência e Tecnologia, o Brasil gastou no ano passado US$
1,1 bilhão, ou cerca de R$ 3,1 bilhões no pagamento
de licenças e royalties ao Exterior pelo uso de programas.
A União, os Estados e os municípios pagaram cerca
de 40% dessa fatura. Empresas privadas e clientes particulares,
os outros 60%. Tendo em conta que a metade dos programas usados
fora do setor público é pirata, pode-se concluir com
facilidade que o mercado ainda tem muito o que evoluir. “O
Brasil vê o software livre como emblemático da sociedade
da informação e de uma nova cultura de solidariedade
e de compartilhamento, um instrumento para garantir o acesso e domínio,
por todos, dessa linguagem universal”, declarou o embaixador
brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães Neto, na condição
de ministro interino das Relações Exteriores, na Cúpula
Mundial sobre a Sociedade da Informação, organizada
em dezembro último, na Suíça. Foi o primeiro
pronunciamento oficial de um país a favor do software livre
em uma reunião de cúpula internacional.
Depois disso, a Casa Civil enviou uma circular a todos os ministérios
e órgãos públicos sugerindo que se avaliasse
“a conveniência de utilização preferencial
do software livre” nas novas compras de computadores. “Usar
o software livre é como comprar um bolo e receber junto a
receita. Além de poder fazer outro bolo igual, o consumidor
pode alterar a receita de acordo com sua conveniência”,
explica o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, presidente
do Instituto Nacional de Tecnologia (ITI), criado pelo governo Luiz
Inácio Lula da Silva para incentivar a implantação
desses sistemas. “O software livre possibilita ampliar a inteligência
coletiva e a capacidade tecnológica locais. Estamos certos
das vantagens e queremos convencer a sociedade”, completa.
Os executivos da Microsoft, líder de vendas de software
proprietário para governos, empresas e pessoas físicas
no País e no mundo, pensam diferente. Pelos dados da empresa,
suas vendas para todo o setor público brasileiro representam
apenas 6% de seu faturamento anual de R$ 945 milhões por
aqui. Não é muito, mas o que preocupa são os
ecos das ações e do discurso do governo no outro lado
do campo, onde fica o mercado privado. “A concorrência
não é novidade. Nós a enfrentamos há
mais de dez anos com bons resultados”, afirma o gerente de
estratégia da Microsoft Brasil, Eduardo Campos de Oliveira.
“Nossas pesquisas mostram que os custos de migração
e de manutenção de plataformas livres acabam sendo
mais altos. Queremos disputas livres, e não as marcadas por
leis e medidas de direcionamento, como as que começamos a
ver”, completa o diretor de governo da multinacional, Lorenzo
Madrid. Amadeu da Silveira discorda. “Não são
leis de preferência, mas de incentivo nos casos em que o livre
resolve o problema. A maioria dos estudos de custo independentes
nos dá respaldo”, diz. Semanas atrás, ele visitou
Solonópole e sugeriu a incorporação de um sistema
de voz à rede que permitirá atrair empresas de telemarketing
para a região, usando mão-de-obra local. O prefeito
Odorino adorou a idéia. “Aqui, quem ganha um salário
mínimo é rei”, entusiasma-se.
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