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| Desilusão: no exílio,
mesmo ao lado de Maria Thereza e dos filhos, Jango não era sombra
do presidente das reformas |
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| 40 anos de golpe militar |
| Jango, o desconhecido |
Quarenta anos depois de
derrubado, João Goulart –
o presidente que morreu no exílio –
continua sendo um personagem
esquecido pelos brasileiros |
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| Aziz filho |
Ele dobrou o salário mínimo, recebeu o legado do
mito Getúlio Vargas, aproximou o Brasil da China, governou
no parlamentarismo e no presidencialismo, impôs à agenda
nacional a reforma agrária e o limite de remessa de lucro
das multinacionais e, derrubado pela última das ditaduras,
foi o único presidente a morrer no exílio. Só
os detalhes explosivos da biografia do gaúcho João
Belchior Marques Goulart já seriam suficientes para alçá-lo
à galeria das grandes figuras do País, batizar praças
e ocupar espaços nobres nos livros de história. Em
4 de abril de 1964, no entanto, Jango partiu para o esquecimento.
Deixou como última herança para o imaginário
popular as fotografias ao lado da bela Maria Thereza, no comício
da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, quando elevou a temperatura
política ao grau máximo ao reforçar a promessa
das reformas de base. Em 1976, na Argentina, morreria nos braços
da primeira-dama desterrada, que o povo comparava a Jacqueline Kennedy
e a revista People incluiu entre as dez mais bonitas do
mundo. Vinte e oito anos depois de sua morte e quatro décadas
após o golpe que apeou o fazendeiro-sindicalista do poder,
observadores da política ainda se debruçam sobre um
dos enigmas da República: por que a figura de João
Goulart é tão esmaecida? Por que Jango foi esquecido?
“Não há ruas com o nome dele e as aulas de
história nem citam meu pai. É a minha mágoa”,
desabafa a filha, Denise Goulart, na sala do apartamento onde as
fotos de Jango e Maria Thereza disputam as atenções
com a vista da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Denise
tinha cinco anos quando deixou a Granja do Torto com a mãe
e o irmão João Vicente, seis anos, num bimotor rumo
ao Sul e ao exílio que mudaria para sempre a vida da família.
A pesquisadora Maria Celina D’Araújo, do Centro de
Pesquisa e Documentação (CPDoc) da Fundação
Getúlio Vargas, diz que o nome de Jango caiu em desuso por
encabeçar a lista dos “malditos” de um regime
que censurava tudo. “Alguns nomes foram resgatados, mas o
dele, não. O cunhado (Leonel Brizola) bem que tentou resgatá-lo,
mas também é meio maldito na história oficial”,
compara. O diretor do Instituto Universitário de Pesquisas
do Rio de Janeiro (Iuperj), Fabiano dos Santos, é incisivo:
“Poucos teriam essa capacidade naqueles tempos, mas o fato
é que ele não produziu resultados administrativos
nem políticos tangíveis para ser lembrado.”
Não são raros os casos de presidentes depostos e
execrados por suas nações. Geralmente são mandatários
que envergonham os compatriotas pela corrupção ou
atrocidades. Decididamente, não foi o caso de Jango. Uma
das frases mais conhecidas no eterno debate sobre seus vícios
e virtudes é de seu ministro da Casa Civil, Darcy Ribeiro:
“Caiu pelas virtudes, não pelos defeitos.” Jango
teria perdido o cargo por não recuar do ideal de distribuir
renda, fortalecer a economia nacional e reformar a educação.
“Se fosse fraco, não teria caído. Teria aceito
a exigência dos golpistas para dissolver a CGT e a UNE, prender
os dirigentes sindicais, romper relações com Cuba”,
reforça o doutor em ciências políticas Luiz
Alberto Moniz Bandeira, autor de O governo João Goulart
– as lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (Ed. Revan).
O fato é que Jango não conseguiu impedir o golpe de
1º de abril de 1964, que condenou as gerações
seguintes ao que o controlador-geral da República do governo
Lula, Waldir Pires, classifica como “lavagem cerebral”.
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| Jango trocava cartas com o filho João Vicente
e não escondia a tristeza por estar longe do Brasil: “Um clima
cada vez mais tenso” |
“O Brasil vai reverter essa lavagem cerebral e Jango será
lembrado como o primeiro que tentou democratizar o poder, a renda
e a terra”, vislumbra Waldir, consultor-geral de Jango e autor
da última mensagem ao Congresso, na noite de 1º de abril.
Ele a redigiu e Darcy Ribeiro a assinou, desmentindo a informação
de que o presidente abandonara o País – quando, na
verdade, estava no Sul, analisando com Brizola a hipótese
de resistir. Às 2h do dia 2, o presidente do Congresso, Auro
de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência, desligou os
microfones e saiu do plenário, não sem antes ser agarrado
e esbofeteado por outro parlamentar.
Waldir Pires, que se exilou no Uruguai e na França, era
mais do que um assessor. Nas diversas cartas que escrevia a Jango,
convidava o amigo a passear pela Europa, exortava-o a cuidar da
saúde e tratava de política. Numa delas, elogia Jango
pela recusa em integrar a Frente Ampla com Carlos Lacerda e Juscelino
Kubitschek. “A fisionomia que o senhor tem no processo brasileiro
o impede, sem dúvida, de atitudes semelhantes, seja às
do Lacerda, seja às do Juscelino”, escreveu Waldir
em dezembro de 1966. Mas Jango acabaria aderindo à frente,
agravando o atrito com Brizola. A Frente Ampla não resistiu
à tenebrosa repressão de 1968 nem à ausência
de líderes como Miguel Arraes, exilado na Argélia,
e Brizola. Mesmo confinado no Uruguai, Brizola articulava uma insurreição
de setores militares com o apoio de contingentes civis e o uso dos
meios de comunicação.
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