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REVISTA: ARTES & ESPETÁCULOS
Renato Velasco  
Conheça a inédita letra da canção Diferentemente
Curiosidades sobre o cantor 
Leia crítica sobre o novo álbum
 

Música
Malúcido
Mistura de maluco e lúcido, nas suas
palavras, Caetano Veloso continua o
mesmo provocador nas opiniões e no
trabalho, como prova seu recente álbum
A foreign sound, uma primorosa viagem
por clássicos americanos

Apoenan Rodrigues
Colaborou: Luiz Chagas

Durante os verões quentes da sua infância na cidade baiana de Santo Amaro da Purificação, onde nasceu, Caetano Veloso lembra que ouvia tocar no rádio, nas festas, nos bailes, uma música em inglês cheia de ginga latina, hoje entendida como a idéia que os americanos fazem do que seja uma música latina. “Assim meio cubana, meio querendo ser brasileira, sem saber o que é isso”, intui o cantor e compositor. A canção chama-se Carioca (The carioca) e é parte da trilha sonora do filme Voando para o Rio (1933), protagonizado pela lendária dupla de atores-dançarinos Ginger Rogers e Fred Astaire. Excessiva como todas as fitas de Hollywood daquele tempo, os dois rodopiam à frente de uma réplica do mítico hotel Copacabana Palace fazendo da cena um acontecimento alegre e extremamente brega que até hoje fascina Caetano. Tanto que é o carro abre-alas do aguardado disco A foreign sound, todo composto de canções americanas que estão no imaginário de qualquer pessoa. Com lançamento simultâneo no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e no Japão previsto para a quinta-feira 8, o CD aporta rebocando mais uma vez a destreza de Caetano Veloso para tirar o pó de clássicos sonoros, destampando belezas encobertas e criando novas leituras com interpretações cada vez mais lapidadas que já o transformaram num dos melhores cantores nacionais.

Fotos: Renato Velasco
Jaques Morelenbaum, maestro e co-diretor musical do CD: "É um projeto de universo gigantesco, que durante nove meses causou nele enorme sofrimento"

É também um trabalho que marca ineditismos na sua carreira. Pela primeira vez ele terá um lançamento com plano de marketing, incluindo prioridade no Exterior, como afirma o diretor-geral da gravadora Universal
Music, Jose Éboli. Neste esquema de divulgação, da segunda-feira 5 até a sexta-feira 9, Caetano recebe
em Londres jornalistas enviados de 13 países interessados em entrevistá-lo sobre o novo álbum.
E nos dias 16 e 17 estará no Carneggie Hall de Nova York. “Caetano é um dos ícones da música brasileira e para a Universal é o maior artista brasileiro de todos os tempos”, derrama-se Éboli. “Independentemente da importância histórica, ele é um artista que sempre surpreende, que continua provocando.”

Parte desta provocação está contida no disco que, na definição de Caetano, mistura o refinamento da bossa nova com a ironia do tropicalismo. São 23 faixas de puro deleite, apresentando um repertório eclético, porém coeso, que inclui de Cole Porter a Nirvana, de Bob Dylan a Irving Berlin. Na Europa, além do CD corriqueiro, será lançado um Superaudio CD de tecnologia de ponta com 24 faixas. No Brasil, chega às lojas um DVD Audio – aquele com menu interativo para quem tem home theater –, também de 24 faixas. É o segundo na carreira do artista. O primeiro faz parte da caixa Todo Caetano, de janeiro de 2003. Em maio, acompanhado de orquestra, ele ainda grava um DVD de imagens na luxuosa Sala São Paulo, arrematando o pacote A foreign sound, cujo show deverá sair em excursão pelo País.

A idéia de gravar um álbum só com canções em inglês é acalantada há muitos anos. Bem antes do incensado Fina estampa, de 1994, no qual ele canta 15 clássicos em língua espanhola. Com paixão e modéstia, Caetano Veloso, hoje com 61 anos, falou a ISTOÉ sobre o novo disco, amenidades e vida cultural em meio a uma maratona de ensaios. Foram dois encontros, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, ambos à noite. Quando não está de férias, ele costuma dormir pelo menos até às cinco da tarde. “Gosto muito de conversar à noite, das luzes da noite”, diz. “Adoro a boêmia, adoro cerveja, embora não beba. Só no Carnaval, bebi durante uma noite inteira e não fiquei de porre.” Cerveja talvez seja uma das poucas bebidas alcoólicas para a qual Caetano faz concessão. Vinho, para ele, é a pior que existe. “Champanhe, então, acho horrível. Vodca, já bebi com muito prazer, mas vivia de ressaca.” Verdadeiramente, a bebida que nunca saiu da sua carta é Coca-Cola.