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REVISTA: BRASIL
Pedro Agilson  
Documento prova que militares temiam comunistas infiltrados no MDB
Quem foi Hércules, o comunista que apurou as infiltrações no Partidão
Deputado quer ouvir militares que mataram e torturaram
 

Exclusivo
Traição e extermínio
Relatório secreto mostra que a ditadura
militar e a CIA conseguiram cooptar
dirigentes comunistas: a intenção era
matar os líderes do PCB
Amaury Ribeiro Jr., Eugênio Viola
e Tales Faria

Numa casa perto da represa Billings, em São Paulo, os 31 membros do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, encontraram-se, clandestinos, em novembro de 1973. A reunião era para discutir a implacável perseguição da ditadura ao partido. “As elites, quando usam a repressão para impor o caminho que escolheram, usam-na cercando e aniquilando os inimigos portadores de idéias que podem somar forças suficientes para derrotá-las”, discursou o dirigente Dinarco Reis. “Você quer dizer que nossa situação é de cerco e de aniquilamento?”, perguntou o dirigente Hércules Corrêa. Ouviu um “sim”. Hércules aproveitou a deixa e retomou outro assunto: a hipótese de infiltração de espiões da Forças Armadas e da CIA (o serviço de espionagem dos EUA) no Comitê Central. Nove meses antes, ele havia recebido de Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do partido, a missão de investigar o tema.

As suspeitas se basearam na bombástica entrevista concedida por outro dirigente, Adauto Freire, o agente “Carlos”, ao Jornal do Brasil, em 3 de dezembro de 1972. Pernambucano franzino, com seu inconfundível bigodinho, Freire era funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) e militante do PCB desde os anos 50. Mais tarde, passou a cuidar, ao lado de Prestes, das relações exteriores do partido.

Mas ao JB, cerca de uma década depois, revelou que trabalhava para a CIA infiltrado no PCB. E relatou com minúcias a hierarquia do Partidão e suas atividades. “Acho que ele se entregou para proteger os outros infiltrados, até mais importantes”, disse Hércules. Mas seu argumento não convenceu os demais. Eles mal podiam imaginar que a estratégia do regime militar até então, de liquidar guerrilheiros rurais e urbanos – definida numa reunião entre os generais Ernesto Geisel e Emilio Garrastazu Médici em maio de 1973, como revelou ISTOÉ na edição passada –, àquela altura já se ampliara para atingir também o PCB, mesmo o partido sendo contra a luta armada. A avaliação de Geisel e de seu grupo era de que o PCB – então a organização de esquerda mais bem estruturada no País e infiltrado no MDB – estava pronto para se tornar uma legenda de massa no caso de uma abertura política. Era preciso, portanto, exterminá-lo antes da volta ao regime democrático. Documentos e depoimentos obtidos por ISTOÉ mostram que a repressão tinha um plano especial para o Partidão.

José Vasco/Ag. O Globo / Renato Velasco

Givaldo Siqueira, que foi do Comitê Central, é acusado no relatório secreto de Hércules Corrêa (à esq.)

Comandado pelo chefe do DOI (Destacamento de Operações Internas) de São Paulo, coronel Aldir dos Santos Maciel, o “doutor Silva”, um grupo ultra-secreto recebeu a missão de prender e executar os membros do Comitê Central do PCB, sem deixar pistas. Os assassinatos ocorreram em chácaras clandestinas, para facilitar a ocultação dos cadáveres. Os demais sobreviventes eram encaminhados pelo comando do II Exército aos delegados do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) José Francisco Setta e Alcides Singillo. Após serem torturados, nas dependências do órgão na rua Tutóia, em São Paulo, os militantes eram obrigados a prestar declarações de próprio punho sobre suas atividades. Dentro dessa estratégia se enquadram os casos do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho. Mas, brutalmente torturados, eles acabaram morrendo. Apelidada de “Operação Radar”, a caça resultou na morte
de 11 membros do Comitê Central. Além de destruir as gráficas clandestinas do partido, a repressão desmantelou seus diretórios nos Estados, em operações que prenderam 679 pessoas.

Filme – Obrigado a abandonar o País em 1975, Hércules aproveitou o exílio na
então União Soviética para concluir suas investigações, em 1977. De volta ao
Brasil, finalizou o texto do relatório sob o título Que merda é essa?, em 1998. Ele explica: “Foi essa a frase que pronunciei naquela reunião diante da atitude do Adauto Freire. E foi essa também a frase que o presidente dos EUA, Richard Nixon, pronunciou ao saber do sequestro do embaixador americano no Brasil Charles Elbrick.” As 82 páginas compõem um verdadeiro roteiro de filme de espionagem. Nem mesmo os mortos escapam da suspeita de serem agentes infiltrados da CIA e da repressão. Muitos dos dirigentes em situações duvidosas ainda atuam na política brasileira. No final do ano passado, Hércules entregou cópia do documento a ISTOÉ, trazendo a público a discussão sobre as circunstâncias em que o Partidão foi praticamente aniquilado.