| MEDICINA
& BEM ESTAR
|
24/03/2004
|
 |
| Mente |
| |
Doente
de verdade
A hipocondria pode ser um transtorno
mental
e já tem até tratamento |
Cilene
Pereira e Lena Castellón
 |
Para muita gente, a hipocondria é tema de piada. Afinal,
quem nunca cismou ou conhece alguém que teima estar doente,
mesmo sem apresentar sinais claros de enfermidade? O problema é
que para algumas pessoas a crença de que há algo errado
com elas interfere no dia-a-dia, causa angústia e até
depressão. Nesses casos, a moléstia irreal provoca
um sofrimento verdadeiro. E há situações em
que o quadro perdura por anos devido à falta de interesse
dos profissionais de saúde pelas
queixas do hipocondríaco. Ele anda de um consultório
para outro sem encontrar um médico disposto a lhe apontar
uma saída. Hoje, porém, a situação começa
a mudar. A preocupação excessiva com a saúde
já é levada a sério. Ela é considerada
um transtorno mental se o indivíduo tem medo de padecer de
uma moléstia grave, persiste nesse tormento mesmo após
avaliação médica, sofre por causa disso e tem
a vida social prejudicada em virtude de seu estado. “Ele tem
a convicção de que a doença que imagina acabará
com sua vida”, diz o psiquiatra Miguel Roberto Jorge, da Universidade
Federal de São Paulo. A doença tem até tratamento,
que consiste em psicoterapia e, às vezes, medicação
(antidepressivos e ansiolíticos).
A hipocondria é um problema tão antigo que os primeiros
relatos a seu respeito foram feitos por Hipócrates, o pai
da medicina. A origem de seu nome está associada a queixas
de dor na região do hipocôndrio, palavra grega que
se refere à uma área abdominal abaixo das costelas.
Estima-se que 3% da população tenha alguma manifestação
do problema. Na galeria de famosos hipocondríacos, estão
o evolucionista Charles Darwin, o filósofo Immanuel Kant,
o compositor Ludwig Van Beethoven e o escritor Samuel Johnson. Existem
graus leves ou simples traços de hipocondria. São
estes, normalmente, que alimentam as brincadeiras. O cantor Toquinho
é um dos alvos dos amigos. Preocupado com a saúde,
ele carrega seus remédios para todos os lugares por onde
viaja. “É por precaução”, diz ele.
“Sou um hipocondríaco saudável”, completa,
bem-humorado. Para o psicanalista Rubens Volich, professor do Instituto
Sedes Sapientiae, de São Paulo, as queixas dessas pessoas
também devem ser levadas a sério. “Qualquer
sintoma exige respeito, mesmo que seja bizarro”, garante.
Mas é comum que os médicos se irritem ao deparar
com um paciente cheio de lamentações, porém
sem sintomas reais. E muitos profissionais cedem às queixas.
“Já vi o caso de uma pessoa que sofreu seis cirurgias
porque conseguiu convencer o médico de que estava com algo
muito sério”, conta Miguel Jorge. Este é um
sério problema. Como diagnosticar a hipocondria e evitar
a ocorrência de casos assim? Ainda não há uma
receita. Cabe ao médico usar toda a sua sensibilidade. “Em
geral, o hipocondríaco chega no consultório com uma
pasta enorme onde guarda seus exames. Ele não sabe o que
procura. Busca uma doença”, conta o neurocirurgião
Alexandre do Amaral, coordenador do Centro Multidiscplinar da Dor,
no Rio de Janeiro.
 |
|
| O
cantor Toquinho confessa: “Levo remédios por precaução.
Sou um hipocondríaco saudável” |
|
Volich, autor do livro Hipocondria: impasses da alma, desafio
do corpo (Ed. Casa do Psicólogo), acredita que a maioria
dos profissionais de saúde ainda ignora o hipocondríaco.
Para ele, parte dessa negligência se deve às atuais
condições de atendimento. Por ter pouco tempo para
a consulta, o médico mal ouve o paciente, optando por fazer
uma bateria de exames para diagnosticar a “doença”.
Sem encontrar nada de errado, ele prefere encaminhar o caso para
outro especialista. E assim o hipocondríaco inicia a peregrinação
por consultórios. Felizmente, há esperança
de que isso mude. “Bem devagarinho, os médicos estão
prestando atenção ao sofrimento de dimensão
psíquica”, afirma. Segundo o psicanalista, a hipocondria
vai além do transtorno. “Cada vez mais o corpo se presta
a uma forma de representação, um modo de comunicação.
Muitas dificuldades na vida se manifestam pela via corporal”,
explica. Quando a pessoa passa a se sentir doente sem motivo é
possível entender o problema como um pedido de atenção.
“O ideal seria que o médico perguntasse a história
de vida desse paciente, o que ocorreria numa consulta clássica”,
afirma. Desse modo, o profissional pode descobrir que as queixas
nasceram de uma experiência marcante e mal resolvida. Ou seja,
se a pessoa evita lidar com o problema, talvez o corpo seja obrigado
a se expressar. E na forma de dor.
|