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  BRASIL 24/03/2004
EXCLUSIVO
 

A ordem é matar

Os matadores
Como morreu Baumgarten
Memórias do medo
 

Amaury Ribeiro Jr.

 
Em meados de 1973, o presidente Emílio Garrastazu Médici convocou uma reunião secreta com o ministro do Exército, general Orlando Geisel, e seu futuro sucessor na Presidência, Ernesto Geisel, no Palácio do Planalto, para discutir o combate aos opositores do regime. Concluíram que a abertura política do País só poderia ser feita após a eliminação das organizações que insistiam em duelar com a ditadura. Para evitar uma reação dos militares radicais à nova estratégia, decidiram que era “necessária a utilização de todos os meios para eliminar, sem deixar vestígios, as guerrilhas rurais e urbanas, de qualquer jeito, a qualquer preço”, como explicita um dos 17 itens de um documento datilografado que relata a reunião. Para o encontro, Orlando Geisel levou o general Antônio Bandeira, ex-comandante das tropas que enfrentaram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na primeira (1972) e na segunda (1973) campanha contra a Guerrilha do Araguaia, no Pará. Os combatentes só seriam derrotados em 1975, mas Bandeira explicou que o trabalho de infiltração, a “Operação Sucuri”, facilitaria o desempenho dos militares.

A cópia da ata da reunião foi encontrada em 1998, entre as roupas da viúva do general, Lea, junto com o relatório Hugo Abreu, mais importante dossiê sobre a Guerrilha do Araguaia e ainda inédito. Os documentos não estavam no baú do general, que sua filha, Márcia Bandeira, divulgara um mês antes. Perseguida por militares, ela decidiu que só depois da morte do pai – em junho de 2003 – revelaria o conteúdo da ata, à qual ISTOÉ teve acesso.

  Prensa Três

A reunião, confirmada pelo coronel Sebastião “Curió” Rodrigues, do Centro de Informações do Exército (CIE), mudou a postura do governo. A partir do final de 1973, não restariam mais sobreviventes nas guerrilhas. Transferido para a direção da Polícia Federal, Bandeira foi substituído no Araguaia pelo general Hugo Abreu, da Brigada de Pára-quedistas. O general Milton Tavares, chefe do CIE, comandava as ações de extermínio. A missão ficou dividida entre os três ministros militares e a orientação era não deixar rastros. O CIE encarregou-se do Araguaia e dos militantes caçados pelos órgãos de repressão do Cone Sul. Com Geisel no poder (1974-1979), um grupo do DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo deveria exterminar os sobreviventes do PCdoB e o Comitê Central do PCB.

Mesmo sendo contra a luta armada, o Partidão tornou-se o principal inimigo da ditadura, que via nele um entrave para a abertura por estar infiltrado no MDB: “Devido à falta de perspectiva de sucesso através das guerrilhas, que iniciadas prematuramente foram neutralizadas pelo governo, o esforço da Revolução Comunista voltou-se, novamente, exclusiva, mas ativamente, para o trabalho de massa, segundo a tática sempre advogada e empregada pelo PCB”, diz o informe 047 de 1975 do Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica), obtido por ISTOÉ.

Surgiram dois grupos ultra-secretos - um no CIE de Brasília e outro no DOI-Codi de São Paulo -, formados por menos de dez pessoas. Estavam autorizados a assassinar e sumir com os corpos e foram responsáveis pelo desaparecimento de cerca de 80 presos políticos entre 1973 e 1975. “Em 1973 concluímos que ou a gente matava todo mundo ou essas guerrilhas nunca mais teriam fim”, disse a ISTOÉ um general ligado ao presidente Geisel que atuou na área de informações.

Ag. O Globo  

Num esforço de reportagem, durante cinco meses, ISTOÉ obteve documentos e depoimentos que levam aos nomes desses militares. Suas trajetórias são descritas principalmente por um ex-agente do DOI-Codi e do CIE, o sargento Marival Dias Chaves, de 58 anos. Em 1992, sete anos após pedir demissão, ele foi encorajado pelo cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, a esclarecer episódios obscuros da ditadura. Mas guardou um segredo: os nomes dos escolhidos para matar.

 
 
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