Amaury Ribeiro Jr.
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Em meados de 1973,
o presidente Emílio Garrastazu Médici convocou uma reunião
secreta com o ministro do Exército, general Orlando Geisel,
e seu futuro sucessor na Presidência, Ernesto Geisel, no Palácio
do Planalto, para discutir o combate aos opositores do regime. Concluíram
que a abertura política do País só poderia ser
feita após a eliminação das organizações
que insistiam em duelar com a ditadura. Para evitar uma reação
dos militares radicais à nova estratégia, decidiram
que era “necessária a utilização de todos
os meios para eliminar, sem deixar vestígios, as guerrilhas
rurais e urbanas, de qualquer jeito, a qualquer preço”,
como explicita um dos 17 itens de um documento datilografado que relata
a reunião. Para o encontro, Orlando Geisel levou o general
Antônio Bandeira, ex-comandante das tropas que enfrentaram militantes
do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na primeira (1972) e na segunda
(1973) campanha contra a Guerrilha do Araguaia, no Pará. Os
combatentes só seriam derrotados em 1975, mas Bandeira explicou
que o trabalho de infiltração, a “Operação
Sucuri”, facilitaria o desempenho dos militares.
A cópia da ata da reunião foi encontrada em 1998,
entre as roupas da viúva do general, Lea, junto com o relatório
Hugo Abreu, mais importante dossiê sobre a Guerrilha do Araguaia
e ainda inédito. Os documentos não estavam no baú
do general, que sua filha, Márcia Bandeira, divulgara um
mês antes. Perseguida por militares, ela decidiu que só
depois da morte do pai – em junho de 2003 – revelaria
o conteúdo da ata, à qual ISTOÉ teve acesso.
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A reunião, confirmada pelo coronel Sebastião “Curió”
Rodrigues, do Centro de Informações do Exército
(CIE), mudou a postura do governo. A partir do final de 1973, não
restariam mais sobreviventes nas guerrilhas. Transferido para a
direção da Polícia Federal, Bandeira foi substituído
no Araguaia pelo general Hugo Abreu, da Brigada de Pára-quedistas.
O general Milton Tavares, chefe do CIE, comandava as ações
de extermínio. A missão ficou dividida entre os três
ministros militares e a orientação era não
deixar rastros. O CIE encarregou-se do Araguaia e dos militantes
caçados pelos órgãos de repressão do
Cone Sul. Com Geisel no poder (1974-1979), um grupo do DOI-Codi
(Destacamento de Operações e Informações
- Centro de Operações de Defesa Interna) de São
Paulo deveria exterminar os sobreviventes do PCdoB e o Comitê
Central do PCB.
Mesmo sendo contra a luta armada, o Partidão tornou-se o
principal inimigo da ditadura, que via nele um entrave para a abertura
por estar infiltrado no MDB: “Devido à falta de perspectiva
de sucesso através das guerrilhas, que iniciadas prematuramente
foram neutralizadas pelo governo, o esforço da Revolução
Comunista voltou-se, novamente, exclusiva, mas ativamente, para
o trabalho de massa, segundo a tática sempre advogada e empregada
pelo PCB”, diz o informe 047 de 1975 do Cisa (Centro de Informações
da Aeronáutica), obtido por ISTOÉ.
Surgiram dois grupos ultra-secretos - um no CIE de Brasília
e outro no DOI-Codi de São Paulo -, formados por menos de
dez pessoas. Estavam autorizados a assassinar e sumir com os corpos
e foram responsáveis pelo desaparecimento de cerca de 80
presos políticos entre 1973 e 1975. “Em 1973 concluímos
que ou a gente matava todo mundo ou essas guerrilhas nunca mais
teriam fim”, disse a ISTOÉ um general ligado ao presidente
Geisel que atuou na área de informações.
Num esforço de reportagem, durante cinco meses, ISTOÉ
obteve documentos e depoimentos que levam aos nomes desses militares.
Suas trajetórias são descritas principalmente por
um ex-agente do DOI-Codi e do CIE, o sargento Marival Dias Chaves,
de 58 anos. Em 1992, sete anos após pedir demissão,
ele foi encorajado pelo cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo
Arns, a esclarecer episódios obscuros da ditadura. Mas guardou
um segredo: os nomes dos escolhidos para matar.
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