| CIÊNCIA,
TECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE |
17/03/2004
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Ecológico:
num eventual derramamento, os nanoímãs poderiam sugar o óleo
e preservar a água limpa |
Quem plantou a
primeira semente da nanotecnologia foi o americano Richard Feynman,
Nobel de Física de 1965. Ele deixou a comunidade científica
perplexa ao propor a manipulação de átomo por
átomo. Decifrador de hieróglifos maias, dançarino
e tocador de bongô, o físico que esteve duas vezes no
Brasil foi taxado de louco. O assunto ficou adormecido até
que, em 1992, o físico Eric Drexler chocou o Senado americano
ao difundir a idéia de construir nanorrobôs que manipulam
moléculas, como se fossem peças de Lego, só que
com dimensões atômicas.
Formigas – “A idéia da nanotecnologia
é imitar o comportamento da natureza”, explica o engenheiro
Edval J. P. Santos. Coordenador do laboratório de dispositivos
e nanoestruturas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Santos
explica: “Uma formiga sozinha não faz nada, mas um
grupo delas pode construir estruturas gigantescas.” O Brasil
tem quatro redes de pesquisa em nanotecnologia. São 300 cientistas
de Norte a Sul trabalhando em projetos voltados para agropecuária,
comunicações, petroquímica, informática,
saúde, indústria e aeronáutica. Se comparada
às grandes potências, a verba brasileira é irrisória.
O plano original era grande, mas os cortes da equipe econômica
reduziram o repasse. Agora, o governo promete investir módicos
R$ 9 milhões em 2004. “Isso pode custar ao Brasil a
chance de se igualar aos países mais avançados”,
reclama Rogério Cerqueira Leite, da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), onde está o Laboratório de
Luz Síncrotron, único da América Latina com
aparelhos para trabalhar com estruturas invisíveis a olho
nu.
Os críticos alegam que o País derrapa em definir
prioridades e nichos
nos quais poderia competir com outras nações. Antes
de investir
em pesquisa, o Brasil precisa renovar seus laboratórios.
Por envolver partículas tão minúsculas, essa
nova divisão exige equipamentos
como os microscópios atômicos. Um deles será
inaugurado durante
o 1º Congresso Internacional de Nanotecnologia, que acontece
em São Paulo, no próximo dia 23. Promovido pela Universidade
de São Paulo (USP) e pelo Instituto Tecnológico Brasil-Alemanha
(ITBA), o congresso terá a participação de
uma das maiores autoridades no assunto, Harald Fuchs, diretor do
Centro de Nanotecnologia da Universidade de Münster, na Alemanha,
que doou um microscópio atômico aos engenheiros da
USP. “O Brasil não tem tempo a perder.
A nanotecnologia vai revolucionar as pequenas e médias empresas”,
explica Werner Schwarz, presidente do ITBA.
Apesar das dificuldades, o Brasil criou um produto que ganhou reconhecimento
mundial. A língua eletrônica desenvolvida pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) imita o paladar
humano. Reconhece sabores salgados, doces, amargos e azedos e consegue
diferenciar vários tipos de café, vinho e água
mineral. Entre vinhos da mesma marca, ela determina qual a safra
de procedência e distingue entre um tinto Cabernet Sauvignon
ou um Chardonnay. Sua sensibilidade é até dez mil
vezes maior do que as papilas gustativas. Tanto que, a partir deste
ano, a indústria do café vai usá-la na degustação.
“A língua não substituirá os especialistas
de carne e osso”, diz Luiz Henrique Capparelli Mattoso, coordenador
do projeto que estará disponível para uso industrial
em três anos. Agora, os pesquisadores criam sensores para
a língua artificial analisar leite e sucos de uva e de laranja.
Outra idéia que parece tornar realidade o sonho dos ecologistas
são os nanoímãs que absorvem o petróleo
e as substâncias tóxicas despejadas na água
por acidente. Envoltos numa microcápsula vazada, feita de
um tipo de plástico chamado polímero, eles podem ser
modificados quimicamente para repelir a água. No caso de
derramamento de óleo, essas minúsculas cápsulas,
com um ímã em seu interior, seriam espalhadas na mancha.
O ímã atrai o óleo, que é sugado por
filtros, que purificam a água. Na indústria farmacêutica,
os brasileiros trabalham na criação de cápsulas
que carregariam moléculas de um princípio ativo até
o órgão doente, reduzindo os efeitos colaterais. Os
mesmos nanotubos feitos de moléculas de carbono que filtram
o rim dos pacientes na hemodiálise ajudariam a substituir
estruturas metálicas na engenharia. É na eletrônica,
porém, que a revolução será avassaladora.
Em vez de computadores que cabem na palma da mão, a tendência
são os chips um milhão de vezes menores que o menor
chip de hoje. Isso multiplicaria por mil a capacidade de processamento
das máquinas atuais. Os chips se espalhariam por todos os
cantos, em particular pelos carros, onde controlariam quase tudo,
do sistema de frenagem até os air-bags. Os Audi A4, A6 e
A8 já trazem algumas dessas novidades. A mais banal delas
é a cobertura do vidro nos carros conversíveis, que
impede o reflexo dos raios solares no cockpit. Ao regular a luminosidade
interna, a película ultrafina reduz a temperatura do carro,
o que diminui o consumo de ar condicionado e de combustível.
As possibilidades são muitas para a indústria automobilística
e parecem ficção. O melhor exemplo é a tinta
inteligente, coberta de sensores capazes de se recuperar sozinhos
em caso de arranhões na pintura e que mudariam de tonalidade
dependendo do humor do motorista.
Tradicional adepta das novas tecnologias, a indústria bélica
esbanja criatividade. Um dos produtos mais inovadores é o
uniforme à prova de balas com sensores eletrônicos
capazes de detectar explosivos ou gases tóxicos. A roupa
monitora o contato do soldado com agentes biológicos e possui
um sistema de primeiros socorros para estancar hemorragias e iniciar
a cicatrização de ferimentos. Um dos protótipos
transforma o tecido numa espécie de tala para engessar o
soldado que sofrer uma fratura. O pitoresco é que o uniforme
se recobre de miniespelhos que refletem o seu redor, dando a ilusão
ótica de invisibilidade.
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