A
vez dos incrédulos
Governo britânico estuda colocar
ateísmo como disciplina escolar |
Kátia Mello
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Em 6 de março de 1927, o filósofo britânico
Bertrand Russell (1872-1970) fez uma conferência na sede da
Sociedade Secular Nacional em Londres para explanar seu livro recém-lançado
Por que não sou cristão. Russell, que anos
depois, em 1950, ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, afirmou,
entre várias declarações polêmicas, que
“toda a concepção de Deus deriva de despotismos
do Oriente. Uma concepção bastante inválida
para homens livres. Quando se vê na igreja pessoas se rebaixando
ao afirmarem que são pecadores miseráveis e tudo o
mais, parece ser uma coisa incompatível e sem o auto-respeito
de seres humanos”. Estudioso da lógica, matemático
e ateu, o filósofo iconoclasta foi um dos que questionaram
as respostas da religião para explicar a existência.
“Estou completamente convencido de que as religiões
não só prejudicam, como são falsas”,
atacou ele. Na conferência, ele confessou que passou a duvidar
da origem do mundo propagada pela religiosidade quando ainda adolescente,
ao questionar a seguinte equação: “Se a humanidade
tinha sido feita por Deus, então quem teria feito Deus?”
Quase 77 anos depois do polêmico discurso de Russell, a Sociedade
Secular Nacional trouxe para o epicentro do ensino público
britânico
o debate sobre os direitos de ensinar em sala de aula os pensamentos
de não-crentes. Afinal, essa fauna incluiu, nos últimos
séculos, um considerável número de pensadores,
cientistas, escritores e reformadores que vão desde os filósofos
iluministas franceses do século XVIII – Voltaire, Diderot,
Montesquieu –, passando pelos pais fundadores
dos Estados Unidos – Benjamin Franklin, John Adams, Thomas
Jefferson
e Tom Paine –, cientistas do porte de Charles Darwin e filósofos
do calibre de Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Sigmund Freud, Martin
Heidegger e Jean-Paul Sartre, para ficar só nos mais conhecidos.
A entidade faz campanha para que seja aprovada uma reforma que permita
incluir na disciplina chamada de educação religiosa
(RE – religious education) as correntes filosóficas
que descartam o fenômeno divino, como o ateísmo, o
ceticismo e o agnosticismo (doutrina que diz ser impossível
provar racionalmente a existência ou inexistência de
Deus). Essa disciplina não é obrigatória e
é dirigida aos alunos de 16 anos das escolas secundárias
da Inglaterra e do País de Gales.
Pela proposta, esses adolescentes irão se debruçar
sobre a vida e as idéias dos chamados livre-pensadores, filósofos,
escritores e cientistas descrentes da ação de Deus
ou deuses. Na história da descrença, muitos receberam
rígidas penas de anos de enclausuramento ou até a
morte por colocar em dúvida a existência de Deus. Em
399 a.C., o filósofo grego Sócrates foi condenado
por um júri de Atenas por desafiar os deuses. Galileo Galileu
(1564-1642), célebre astrônomo, físico e matemático,
considerado o pai da ciência moderna, defendeu a teoria de
Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol, mas teve
que negá-la sob o risco de a Igreja Católica jogá-lo
na fogueira. A Inquisição levou muitos ao fogaréu
por desafiarem os dogmas católicos, como Giordano Bruno.
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“Estou
convencido de que as religiões não só prejudicam, como são
falsas”
Bertrand
Russell,
filósofo britânico
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O argumento dos membros da Sociedade Secular e de outros grupos
para que a reforma seja aprovada é o de que muitos pais de
alunos não são religiosos ou não possuem crença
alguma. Eles afirmam que hoje muitas famílias não
frequentam mais as igrejas e a maior parte das pessoas que o fazem
trata os rituais religiosos como mais um passatempo da vida moderna.
Segundo relatório do Instituto de Pesquisas de Políticas
Públicas do governo britânico, lançado na segunda-feira
16, a idéia é fomentar o debate sobre os dilemas éticos
e morais. “Apenas 7% dos britânicos frequentam semanalmente
serviços religiosos e muitos argumentam que a disciplina
de educação religiosa deveria ser abolida. Nós
discordamos. A educação religiosa tem importância
no currículo escolar, desde que seja atualizada”, afirmou
Ben Rogers, relator do projeto de reforma e pesquisador do Instituto.
Entre os objetivos propostos por essa reformulação
estaria incentivar os pupilos a avaliar as religiões e crenças
por eles mesmos; entender as diferentes variações
dentro dessas religiões e, finalmente, refletir sobre a importância
desses credos em suas vidas. Estaria ainda a cargo dos alunos julgar
a importância de líderes religiosos na vida comunitária.
“É importante que os alunos conheçam vários
tipos de credos para poderem realizar uma avaliação
crítica de suas crenças”, disse Rogers.
As reações à nova proposta escolar vieram,
surpreendentemente, com discursos ímpares. O Conselho Muçulmano
Britânico afirmou que o ateísmo já faz parte
do currículo escolar e, portanto, não faria sentido
haver uma reforma para incluir o tema. Tahir Alam, chefe do Comitê
de Educação do Conselho Muçulmano, disse que
a mudança “é um reflexo de nossa sociedade.
A questão que deve ser levantada é como a religião
está sendo ensinada e quanto tempo está sendo dedicado
ao ateísmo”. Já o cônego John Hall, responsável
pelos assuntos de educação da Igreja Anglicana da
Inglaterra, declarou que “é muito importante que outras
crenças sejam ensinadas, além do cristianismo. Devemos
respeitá-las e levar em consideração outras
visões de mundo”. E Hall foi ainda mais audacioso:
“É totalmente apropriado que a educação
religiosa reconheça que algumas pessoas não acreditam
em Deus.” Mas um porta-voz da Campanha para a Verdadeira Educação,
que faz lobby contrário à reforma, afirmou que “o
ateísmo não é religião. Está
muito errado transformar educação religiosa em educação
espiritual. As lições de RE deveriam se concentrar
nos ensinamentos cristãos e, possivelmente, em outras religiões,
mas não em crenças seculares”. Para a parlamentar
do Partido Conservador Ann Widdecombe, que se converteu ao catolicismo,
a medida é “uma traição às crianças”.
São apenas pontos de vista, mas poderiam ser imposições
se o
Reino Unido não fosse um Estado laico, onde religião
e política
estão separados. A sangrenta história da ilha, com
puritanos,
católicos e anglicanos se alternando em massacres, mostra
que
crenças religiosas não necessariamente levam à
beatitude. Afinal, “religiões que condenam os prazeres
dos sentidos levam os homens
a buscar os prazeres do poder. Através da história,
o poder foi o vício dos ascéticos”, lembrava
o velho Russell.
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