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  INTERNACIONAL 25/02/2004
Reino Unido

A vez dos incrédulos
Governo britânico estuda colocar ateísmo como disciplina escolar

Kátia Mello

  Ilustração: Brum

Em 6 de março de 1927, o filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) fez uma conferência na sede da Sociedade Secular Nacional em Londres para explanar seu livro recém-lançado Por que não sou cristão. Russell, que anos depois, em 1950, ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, afirmou, entre várias declarações polêmicas, que “toda a concepção de Deus deriva de despotismos do Oriente. Uma concepção bastante inválida para homens livres. Quando se vê na igreja pessoas se rebaixando ao afirmarem que são pecadores miseráveis e tudo o mais, parece ser uma coisa incompatível e sem o auto-respeito de seres humanos”. Estudioso da lógica, matemático e ateu, o filósofo iconoclasta foi um dos que questionaram as respostas da religião para explicar a existência. “Estou completamente convencido de que as religiões não só prejudicam, como são falsas”, atacou ele. Na conferência, ele confessou que passou a duvidar da origem do mundo propagada pela religiosidade quando ainda adolescente, ao questionar a seguinte equação: “Se a humanidade tinha sido feita por Deus, então quem teria feito Deus?”

Quase 77 anos depois do polêmico discurso de Russell, a Sociedade Secular Nacional trouxe para o epicentro do ensino público britânico
o debate sobre os direitos de ensinar em sala de aula os pensamentos
de não-crentes. Afinal, essa fauna incluiu, nos últimos séculos, um considerável número de pensadores, cientistas, escritores e reformadores que vão desde os filósofos iluministas franceses do século XVIII – Voltaire, Diderot, Montesquieu –, passando pelos pais fundadores
dos Estados Unidos – Benjamin Franklin, John Adams, Thomas Jefferson
e Tom Paine –, cientistas do porte de Charles Darwin e filósofos do calibre de Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Sigmund Freud, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, para ficar só nos mais conhecidos. A entidade faz campanha para que seja aprovada uma reforma que permita incluir na disciplina chamada de educação religiosa (RE – religious education) as correntes filosóficas que descartam o fenômeno divino, como o ateísmo, o ceticismo e o agnosticismo (doutrina que diz ser impossível provar racionalmente a existência ou inexistência de Deus). Essa disciplina não é obrigatória e é dirigida aos alunos de 16 anos das escolas secundárias da Inglaterra e do País de Gales.

Pela proposta, esses adolescentes irão se debruçar sobre a vida e as idéias dos chamados livre-pensadores, filósofos, escritores e cientistas descrentes da ação de Deus ou deuses. Na história da descrença, muitos receberam rígidas penas de anos de enclausuramento ou até a morte por colocar em dúvida a existência de Deus. Em 399 a.C., o filósofo grego Sócrates foi condenado por um júri de Atenas por desafiar os deuses. Galileo Galileu (1564-1642), célebre astrônomo, físico e matemático, considerado o pai da ciência moderna, defendeu a teoria de Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol, mas teve que negá-la sob o risco de a Igreja Católica jogá-lo na fogueira. A Inquisição levou muitos ao fogaréu por desafiarem os dogmas católicos, como Giordano Bruno.

 
“Estou convencido de que as religiões não só prejudicam, como são falsas”
Bertrand Russell,
filósofo britânico
 

O argumento dos membros da Sociedade Secular e de outros grupos para que a reforma seja aprovada é o de que muitos pais de alunos não são religiosos ou não possuem crença alguma. Eles afirmam que hoje muitas famílias não frequentam mais as igrejas e a maior parte das pessoas que o fazem trata os rituais religiosos como mais um passatempo da vida moderna. Segundo relatório do Instituto de Pesquisas de Políticas Públicas do governo britânico, lançado na segunda-feira 16, a idéia é fomentar o debate sobre os dilemas éticos e morais. “Apenas 7% dos britânicos frequentam semanalmente serviços religiosos e muitos argumentam que a disciplina de educação religiosa deveria ser abolida. Nós discordamos. A educação religiosa tem importância no currículo escolar, desde que seja atualizada”, afirmou Ben Rogers, relator do projeto de reforma e pesquisador do Instituto. Entre os objetivos propostos por essa reformulação estaria incentivar os pupilos a avaliar as religiões e crenças por eles mesmos; entender as diferentes variações dentro dessas religiões e, finalmente, refletir sobre a importância desses credos em suas vidas. Estaria ainda a cargo dos alunos julgar a importância de líderes religiosos na vida comunitária. “É importante que os alunos conheçam vários tipos de credos para poderem realizar uma avaliação crítica de suas crenças”, disse Rogers.

As reações à nova proposta escolar vieram, surpreendentemente, com discursos ímpares. O Conselho Muçulmano Britânico afirmou que o ateísmo já faz parte do currículo escolar e, portanto, não faria sentido haver uma reforma para incluir o tema. Tahir Alam, chefe do Comitê de Educação do Conselho Muçulmano, disse que a mudança “é um reflexo de nossa sociedade. A questão que deve ser levantada é como a religião está sendo ensinada e quanto tempo está sendo dedicado ao ateísmo”. Já o cônego John Hall, responsável pelos assuntos de educação da Igreja Anglicana da Inglaterra, declarou que “é muito importante que outras crenças sejam ensinadas, além do cristianismo. Devemos respeitá-las e levar em consideração outras visões de mundo”. E Hall foi ainda mais audacioso: “É totalmente apropriado que a educação religiosa reconheça que algumas pessoas não acreditam em Deus.” Mas um porta-voz da Campanha para a Verdadeira Educação, que faz lobby contrário à reforma, afirmou que “o ateísmo não é religião. Está muito errado transformar educação religiosa em educação espiritual. As lições de RE deveriam se concentrar nos ensinamentos cristãos e, possivelmente, em outras religiões, mas não em crenças seculares”. Para a parlamentar do Partido Conservador Ann Widdecombe, que se converteu ao catolicismo, a medida é “uma traição às crianças”.

São apenas pontos de vista, mas poderiam ser imposições se o
Reino Unido não fosse um Estado laico, onde religião e política
estão separados. A sangrenta história da ilha, com puritanos,
católicos e anglicanos se alternando em massacres, mostra que
crenças religiosas não necessariamente levam à beatitude. Afinal, “religiões que condenam os prazeres dos sentidos levam os homens
a buscar os prazeres do poder. Através da história, o poder foi o vício dos ascéticos”, lembrava o velho Russell.

 
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