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  COMPORTAMENTO 21/01/2004
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Cheios de raça
Com maior visibilidade na mídia, os negros comemoram resultados importantes na luta contra o preconceito

O negro na tevê

Camilo Vannuchi, Liana Melo e Sara Duarte
Colaboraram: Chico Silva (SP), Eduardo Hollanda (DF), e Celina Côrtes
e Ricardo Miranda (RJ)

  Renato Velasco
  Taís Araújo comemora: “Já estava mais do que na hora de sermos reconhecidos como parte significativa da cultura brasileira”

Na primeira vez que uma emissora brasileira ousou transmitir uma novela com um protagonista
negro, o ator branco Sérgio
Cardoso foi escalado para o papel. Hoje, 35 anos após a estréia de A cabana do Pai Tomás, a escolha despertaria tamanho rebuliço que, provavelmente, a produção seria abortada antes mesmo do primeiro capítulo. Se o Brasil ainda amarga uma situação de extrema desigualdade racial – e a televisão é infinitas vezes mais branca do que a população –, não faltam indícios de que mudanças importantes começam a acontecer. Pela primeira vez, o Brasil conta com quatro ministros e um juiz do Supremo Tribunal Federal negros, possui uma secretaria especial dedicada à promoção da igualdade racial e, vencendo um preconceito que perpassa toda a história da mídia no País, uma atriz negra assumirá pela primeira vez o papel de protagonista em uma novela da Rede Globo. Para Taís Araújo, Da cor do pecado – que estréia na segunda-feira 26 – tem sabor de realização. Em 1996, a atriz conquistou o público com Xica da Silva na produção homônima da extinta TV Manchete. A diferença, comemoram os ativistas, é que, desta vez, não se trata de um personagem histórico, inserido no contexto da escravidão.

Aos 25 anos, Taís viverá a feirante maranhense Preta, que desperta a paixão do botânico carioca Paco (Reynaldo Gianecchini), herdeiro de uma grande fortuna. Para viver sua história de amor, o casal terá de superar as investidas dos personagens de Giovanna Antonelli, que faz a noiva do galã, e de Jonathan Haagensen, na pele do ex-namorado de Preta. Com um currículo de sete novelas, três filmes e cinco peças de teatro, essa carioca de sorriso largo aproveita para dar seu grito de liberdade. “Chega de interpretar papéis secundários. Já estava mais do que na hora de sermos reconhecidos como parte significativa da cultura brasileira. Espero que não demore 20 anos para outro ator negro ter novamente um papel principal”, alerta a atriz.

A atual lua-de-mel de Taís Araújo com a tevê é apenas a ponta do iceberg. O movimento de afirmação da população negra na teledramaturgia brasileira existe há quase 40 anos. No livro A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira, o cineasta Joel Zito Araújo, doutor em ciências da comunicação, mostra que foi preciso muita luta para que, aos poucos, o negro ganhasse espaço na telinha. “Da cor do pecado ainda é exceção. Quando um negro aparece em uma novela, o público encara como uma medida politicamente correta, e não como natural”, diz ele. Sueli Carneiro, diretora do movimento de mulheres negras Geledés, lembra que Taís Araújo foi para a Globo depois do sucesso de Xica da Silva e teve de esperar anos para ter um papel de destaque. “A emissora tem uma dívida para com 50% da população, que raramente se vê retratada de forma justa. A escolha da atriz é uma conquista”, diz ela. A própria Globo comemorou nas páginas dos jornais a escalação do primeiro apresentador negro do Jornal Nacional, o jornalista Heraldo Pereira. E ele só cobria férias.

Da mesma forma, é saboreado o sucesso de atores como Jonathan Haagensen, 20 anos, e Sérgio Menezes, 31. O primeiro despontou no papel de Cabeleira no filme Cidade de Deus e conseguiu trocar os papéis marginais por um personagem central. Na nova trama global, ele vai disputar com Paco o amor de Preta. “O fato de eu ser negro não deveria ser motivo de tanta especulação. Quero ser visto como um bom ator, e não como um bom ator negro, o que é diferente”, diz Haagensen. Sérgio Menezes, que vive o fotógrafo Bruno Carvalho em Celebridade, tem consciência de que seu papel contribui para a luta contra o racismo. “Quando saímos do quarto de empregada e ganhamos destaque, melhoramos a auto-estima da população. Para uma criança negra e pobre, é positivo ver um negro bem-sucedido”, diz o ator. O personagem de Menezes teve um caso com a vilã Laura, interpretada pela loira Cláudia Abreu. As transas do casal não causaram polêmica, mas quebraram um tabu de duas décadas. O ator talvez não se lembre, mas, em 1985, Zezé Motta foi vítima de uma chuva de protestos por interpretar a namorada de um personagem branco (Marcos Paulo) em Corpo a corpo. “Diziam que Marcos Paulo deveria estar precisando muito de dinheiro para aceitar me beijar na boca”, comenta Zezé.

Leandro Pimentel / André Dusek / Divulgação
Afirmação: para Sérgio, papéis de destaque melhoram a auto-estima dos negros. Christiane lembra que ninguém nasce racista e Haagensen (à dir.) quer ser reconhecido por seu trabalho, independentemente de sua cor
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