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Cheios
de raça
Com maior visibilidade na mídia,
os negros comemoram resultados importantes na luta contra o
preconceito |
Camilo
Vannuchi, Liana Melo e Sara Duarte
Colaboraram: Chico Silva (SP), Eduardo Hollanda (DF),
e Celina Côrtes
e Ricardo Miranda (RJ)
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Taís Araújo comemora: “Já estava mais do que na hora de
sermos reconhecidos como parte significativa da cultura brasileira” |
Na primeira vez que uma emissora brasileira ousou transmitir uma
novela com um protagonista
negro, o ator branco Sérgio
Cardoso foi escalado para o papel. Hoje, 35 anos após a estréia
de A cabana do Pai Tomás, a escolha despertaria tamanho
rebuliço que, provavelmente, a produção seria
abortada antes mesmo do primeiro capítulo. Se o Brasil ainda
amarga uma situação de extrema desigualdade racial
– e a televisão é infinitas vezes mais branca
do que a população –, não faltam indícios
de que mudanças importantes começam a acontecer. Pela
primeira vez, o Brasil conta com quatro ministros e um juiz do Supremo
Tribunal Federal negros, possui uma secretaria especial dedicada
à promoção da igualdade racial e, vencendo
um preconceito que perpassa toda a história da mídia
no País, uma atriz negra assumirá pela primeira vez
o papel de protagonista em uma novela da Rede Globo. Para Taís
Araújo, Da cor do pecado – que estréia
na segunda-feira 26 – tem sabor de realização.
Em 1996, a atriz conquistou o público com Xica da Silva na
produção homônima da extinta TV Manchete. A
diferença, comemoram os ativistas, é que, desta vez,
não se trata de um personagem histórico, inserido
no contexto da escravidão.
Aos 25 anos, Taís viverá a feirante maranhense Preta,
que desperta a paixão do botânico carioca Paco (Reynaldo
Gianecchini), herdeiro de uma grande fortuna. Para viver sua história
de amor, o casal terá de superar as investidas dos personagens
de Giovanna Antonelli, que faz a noiva do galã, e de Jonathan
Haagensen, na pele do ex-namorado de Preta. Com um currículo
de sete novelas, três filmes e cinco peças de teatro,
essa carioca de sorriso largo aproveita para dar seu grito de liberdade.
“Chega de interpretar papéis secundários. Já
estava mais do que na hora de sermos reconhecidos como parte significativa
da cultura brasileira. Espero que não demore 20 anos para
outro ator negro ter novamente um papel principal”, alerta
a atriz.
A atual lua-de-mel de Taís Araújo com a tevê
é apenas a ponta do iceberg. O movimento de afirmação
da população negra na teledramaturgia brasileira existe
há quase 40 anos. No livro A negação do
Brasil: o negro na telenovela brasileira, o cineasta Joel Zito
Araújo, doutor em ciências da comunicação,
mostra que foi preciso muita luta para que, aos poucos, o negro
ganhasse espaço na telinha. “Da cor do pecado
ainda é exceção. Quando um negro aparece em
uma novela, o público encara como uma medida politicamente
correta, e não como natural”, diz ele. Sueli Carneiro,
diretora do movimento de mulheres negras Geledés, lembra
que Taís Araújo foi para a Globo depois do sucesso
de Xica da Silva e teve de esperar anos para ter um papel de destaque.
“A emissora tem uma dívida para com 50% da população,
que raramente se vê retratada de forma justa. A escolha da
atriz é uma conquista”, diz ela. A própria Globo
comemorou nas páginas dos jornais a escalação
do primeiro apresentador negro do Jornal Nacional, o jornalista
Heraldo Pereira. E ele só cobria férias.
Da mesma forma, é saboreado o sucesso de atores como Jonathan
Haagensen, 20 anos, e Sérgio Menezes, 31. O primeiro despontou
no papel de Cabeleira no filme Cidade de Deus e conseguiu
trocar os papéis marginais por um personagem central. Na
nova trama global, ele vai disputar com Paco o amor de Preta. “O
fato de eu ser negro não deveria ser motivo de tanta especulação.
Quero ser visto como um bom ator, e não como um bom ator
negro, o que é diferente”, diz Haagensen. Sérgio
Menezes, que vive o fotógrafo Bruno Carvalho em Celebridade,
tem consciência de que seu papel contribui para a luta contra
o racismo. “Quando saímos do quarto de empregada e
ganhamos destaque, melhoramos a auto-estima da população.
Para uma criança negra e pobre, é positivo ver um
negro bem-sucedido”, diz o ator. O personagem de Menezes teve
um caso com a vilã Laura, interpretada pela loira Cláudia
Abreu. As transas do casal não causaram polêmica, mas
quebraram um tabu de duas décadas. O ator talvez não
se lembre, mas, em 1985, Zezé Motta foi vítima de
uma chuva de protestos por interpretar a namorada de um personagem
branco (Marcos Paulo) em Corpo a corpo. “Diziam que
Marcos Paulo deveria estar precisando muito de dinheiro para aceitar
me beijar na boca”, comenta Zezé.
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| Afirmação:
para Sérgio, papéis de destaque melhoram a auto-estima dos negros.
Christiane lembra que ninguém nasce racista e Haagensen (à
dir.) quer ser reconhecido por seu trabalho, independentemente
de sua cor |
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