| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
14/01/2004
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Jóias
da floresta
Ribeirinhos de Roraima redescobrem
o artesanato como forma de renda e criam peças com material
retirado da mata |
Lino Rodrigues e Dárcio de Jesus (Fotos) – Baixo Rio Branco
(RR)
Anéis,
brincos, colares, pulseiras... A nova coleção que
começa a deixar as pequenas oficinas localizadas às
margens da região do Baixo Rio Branco, no sul do Estado de
Roraima, promete mudar a vida de adultos e crianças. É
nesse pedaço pobre da selva amazônica de pouco mais
de 40 mil quilômetros quadrados que os chamados ribeirinhos
estão redescobrindo o artesanato como forma de ganhar algum
dinheiro e ajudar no sustento da família. Por enquanto, eles
estão montando suas jóias com a ajuda do Sebrae de
Roraima, que em dois anos já investiu cerca de R$ 600 mil
em um projeto de inclusão social das comunidades ribeirinhas
através do artesanato, do turismo, da pesca esportiva e do
extrativismo sustentável.
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Novata:
Maria da Conceição, de Cachoerinha, criou sua própria coleção
de jóias |
Na última visita que fez às comunidades de Panacarica,
Caicubi, Cachoeirinha, Sacaí, Terra Preta e Lago Grande,
em meados do mês de dezembro, o Sebrae levou o designer mexicano
Lars Diederichsen para orientar artesãs e artesões
na criação de uma linha exclusiva do que está
sendo batizado de Jóias da Floresta. Produzidas com sementes
de tucum, tucumã, inajá, caroço de açaí,
madeiras, cipós e fibras – todos retirados da floresta
–, as peças são de uma delicadeza impressionante
e fascinam pelo colorido conseguido graças à mistura
de raspas de troncos e cascas de árvores, cipós e
resinas apuradas no fogo depois de colhidas. A consultora Rozani
Elizabet Menezes, uma das idealizadoras do projeto e artesã
por ofício e paixão, não se cansa de procurar
na mata novos materiais para melhorar a qualidade das peças
produzidas pelos ribeirinhos. A cada mergulho na floresta ela descobre
e ensina aos artesãos novas tonalidades de cores que embelezam
ainda mais as jóias. É dela, por exemplo, a descoberta
da resina do crumati que serve de fixador para corantes naturais
como o urucum, uma semente que fornece uma substância vermelha,
usada pelos índios como tintura.
As
19 famílias de Panacarica, uma pequena comunidade próxima
ao encontro dos rios Branco e Negro e a mais de quatro dias de barco
de Boa Vista, capital de Roraima, estão sentindo a diferença
desde que passaram a trabalhar com artesanato, em 2001. Alberta
Marques Gomes, 33 anos, se divide entre o trabalho na roça
de mandioca, os afazeres de casa e o artesanato. Apesar do tempo
escasso, chega a faturar R$ 200 por mês com a venda dos anéis
que produz na oficina montada na vila. O marido, seu Nenê,
e o filho José, 13 anos, também contribuem fazendo
miniaturas de barcos que, junto com os anéis, são
vendidas aos turistas que vêm à região para
a pesca esportiva. “É um capitalzinho que não
tínhamos. O dinheiro serve para comprar material escolar
e roupas para as crianças”, diz Alberta. Com uma população
de 110 pessoas e uma economia de subsistência baseada na pesca
e nas roças de melancia e mandioca, a maioria das casas do
vilarejo de Panacarica já possui televisão, graças
às antenas parabólicas compradas com a ajuda do artesanato
e ao motor a óleo diesel que é ligado às 14
horas e desligado às 23 horas e fornece luz ao pequeno povoado.
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Designer:
o mexicano Lars Diederichsen dá forma e estilo às peças
criadas pelos ribeirinhos |
Em Cachoeirinha,
às margens do rio Amajaú, afluente do Branco, um dos
maiores vilarejos da região com mais de 100 famílias
(cerca de 360 pessoas), a comunidade está entusiasmada com
o trabalho dos 25 artesãos que produzem anéis, colares
e brincos e estão transformando as sementes maiores de uma
espécie de palmeira em embalagem para suas peças. Próxima
a Caracaraí, município-sede da região, o artesanato
começou com o casal Genival Dias de Castro, 27 anos, e Noédia
Gomes, 22 anos, que fazia anéis e, convocado pelo Sebrae, passou
a ensinar os vizinhos. Hoje, além dos anéis, os 25 trabalhadores
criam colares, pulseiras, tornozeleiras e brincos, todos confeccionados
com materiais retirados da floresta. A dona-de-casa Maria da Conceição
Cerdeira, 31 anos, pegou gosto pelo ofício. Uma das mais novas
da turma, criou um conjunto de colares e brincos e já pensa
em encontrar compradores para as suas peças. “Vamos batalhar
para conseguir um cliente que compre nossos produtos”, diz ela.
A beleza das novas peças chamou a atenção do
designer mexicano, que aprovou o trabalho e tratou de orientar os
artesãos sobre a melhor forma de comercializar os produtos
e estipular o preço de cada peça.
As jóias da floresta são a parte mais visível
de um longo trabalho que está sendo desenvolvido pelo Sebrae
em conjunto com uma série de patrocinadores entre empresas
e prefeituras da região, como a de Caracaraí. A idéia
é que as comunidades possam, além das jóias,
produzir outras coisas de forma sustentável, como a criação
de peixes em gaiolas e a extração de castanha de maneira
racional. “Queremos transformar essas pessoas em pequenos
empresários da floresta”, diz Armando Freire Ladeira,
diretor do Sebrae/RR. Um sonho possível, se depender do entusiasmo
dos ribeirinhos que começam agora a colher os resultados
de um trabalho iniciado em 2001.
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