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  INTERNACIONAL 17/12/2003
Direitos Humanos

Voz dissonante
A ativista iraniana Shirin Ebadi recebe o Nobel da Paz
com críticas aos radicais islâmicos e ao Ocidente

Kátia Mello

Richardsen/EFE  
“Alguns Estados violaram
os direitos humanos ao
usar como pretexto o
11 de Setembro”
 
   

A voz e os gestos suaves não diluem a força e a determinação da ativista de direitos humanos Shirin Ebadi. Com roupas clássicas e sem o chador – véu usado pelas muçulmanas –, num claro recado ao clero iraniano, com quem há anos vem se confrontando, essa incansável juíza recebeu na quarta-feira 10 o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, na Noruega. “A decisão do comitê do Nobel da Paz em me contemplar com o prêmio de 2003, como o primeiro cidadão iraniano e a primeira mulher de um país islâmico a recebê-lo, inspira milhões de iranianos e cidadãos de Estados islâmicos na esperança de que nossos esforços, empenho e luta para a realização dos direitos humanos e o estabelecimento da democracia tenham o apoio e a solidariedade da sociedade civil internacional”, disse ela na cerimônia de entrega.


Formada pela Universidade de Teerã, Shirin Ebadi, 56 anos, foi a
primeira juíza a ser indicada para a presidência do Tribunal de Teerã, cargo que exerceu de 1975 a 1979, ano em que perdeu o posto com o advento da revolução islâmica. Sua premiação veio coroada de polêmicas, uma vez que o regime de linha dura iraniano não aplaudiu a consagração de uma dissidente do regime. Apesar de o moderado presidente Mohammed Khatami estar no poder há seis anos, quem ainda dá as cartas no Irã é o clero xiita ortodoxo, que continua a encher as prisões de ativistas do porte de Shirin. A juíza chegou a ficar detida durante 23 dias em junho de 2000, quando foi acusada de distribuir um vídeo no qual um expoente da linha dura admitia que líderes conservadores incitavam a violência contra reformistas. A advogada, antes desconhecida do resto do mundo, sempre foi para os reformistas iranianos uma respeitada defensora dos direitos das mulheres e das crianças, principalmente em casos de divórcio e herança.

Mas, apesar das idéias liberais, Shirin é uma convicta devota do Islã e durante o período que esteve na cadeia lia o Corão. Ao premiar a ativista, o comitê do Nobel espera que outras mulheres em países islâmicos venham a seguir seu caminho. Sem papas na língua, Shirin também é feroz crítica da maneira como alguns países ocidentais lidam com as questões dos direitos humanos. Em seu discurso em Oslo, ela mandou uma mensagem à Casa Branca. “Nos últimos dois anos, alguns Estados violaram os princípios e leis de direitos humanos universais ao usar os eventos do 11 de Setembro e a guerra contra o terrorismo internacional como pretexto”, afirmou. A ganhadora do Prêmio Nobel referiu-se às violações da Convenção de Genebra na base militar americana de Guantánamo, Cuba, onde o governo americano retém cerca de 600 supostos terroristas e ex-integrantes do Talebã.

 
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