Voz
dissonante
A ativista iraniana Shirin Ebadi
recebe o Nobel da Paz
com críticas aos radicais islâmicos e ao Ocidente |
Kátia Mello
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“Alguns
Estados violaram
os direitos humanos ao
usar como pretexto o
11 de Setembro” |
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A voz e os gestos suaves não diluem a força e a determinação
da ativista de direitos humanos Shirin Ebadi. Com roupas clássicas
e sem o chador – véu usado pelas muçulmanas
–, num claro recado ao clero iraniano, com quem há
anos vem se confrontando, essa incansável juíza recebeu
na quarta-feira 10 o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, na Noruega.
“A decisão do comitê do Nobel da Paz em me contemplar
com o prêmio de 2003, como o primeiro cidadão iraniano
e a primeira mulher de um país islâmico a recebê-lo,
inspira milhões de iranianos e cidadãos de Estados
islâmicos na esperança de que nossos esforços,
empenho e luta para a realização dos direitos humanos
e o estabelecimento da democracia tenham o apoio e a solidariedade
da sociedade civil internacional”, disse ela na cerimônia
de entrega.
Formada pela Universidade de Teerã, Shirin Ebadi, 56 anos,
foi a
primeira juíza a ser indicada para a presidência do
Tribunal de Teerã, cargo que exerceu de 1975 a 1979, ano
em que perdeu o posto com o advento da revolução islâmica.
Sua premiação veio coroada de polêmicas, uma
vez que o regime de linha dura iraniano não aplaudiu a consagração
de uma dissidente do regime. Apesar de o moderado presidente Mohammed
Khatami estar no poder há seis anos, quem ainda dá
as cartas no Irã é o clero xiita ortodoxo, que continua
a encher as prisões de ativistas do porte de Shirin. A juíza
chegou a ficar detida durante 23 dias em junho de 2000, quando foi
acusada de distribuir um vídeo no qual um expoente da linha
dura admitia que líderes conservadores incitavam a violência
contra reformistas. A advogada, antes desconhecida do resto do mundo,
sempre foi para os reformistas iranianos uma respeitada defensora
dos direitos das mulheres e das crianças, principalmente
em casos de divórcio e herança.
Mas, apesar das idéias liberais, Shirin é uma convicta
devota do Islã e durante o período que esteve na cadeia
lia o Corão. Ao premiar a ativista, o comitê
do Nobel espera que outras mulheres em países islâmicos
venham a seguir seu caminho. Sem papas na língua, Shirin
também é feroz crítica da maneira como alguns
países ocidentais lidam com as questões dos direitos
humanos. Em seu discurso em Oslo, ela mandou uma mensagem à
Casa Branca. “Nos últimos dois anos, alguns Estados
violaram os princípios e leis de direitos humanos universais
ao usar os eventos do 11 de Setembro e a guerra contra o terrorismo
internacional como pretexto”, afirmou. A ganhadora do Prêmio
Nobel referiu-se às violações da Convenção
de Genebra na base militar americana de Guantánamo, Cuba,
onde o governo americano retém cerca de 600 supostos terroristas
e ex-integrantes do Talebã.
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