| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
17/12/2003
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Juros
de um dígito
O embaixador Rubens Ricupero
defende um crescimento
bem maior que 3% para a economia em 2004 e queda
acentuada nos juros |
Hélio
Contreiras
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"Se
a tendência da inflação for mesmo de queda, não vejo razão para
não continuar a diminuir a taxa de juros de forma rápida" |
Há
oito anos no cargo de secretário-geral da Conferência
das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento
(Unctad), o embaixador Rubens Ricupero diz que “o Brasil tem
de adotar juros reais de um dígito e deve crescer muito mais
do que os 3% previstos para 2004”. Eleito pela Assembléia
Geral da ONU, Ricupero é veemente na crítica ao Brasil
no que se relaciona a direitos humanos e meio ambiente: “Não
tenho dúvida de que nestes dois segmentos o Brasil tem uma
nota baixa, eu diria três, pelas violências contra a criança,
inclusive trabalho escravo, violências policiais e exploração
do mogno na Amazônia com a devastação da floresta.”
Ele também ficou chocado com a tortura e a morte do empresário
chinês Chan
Kim Chang, no Rio de Janeiro, que teve repercussão internacional
e mais uma vez situou o Brasil como país periférico.
A ressalva é de que “houve progressos relevantes no combate
à impunidade no setor público, com as prisões
recentes do juiz João Carlos Rocha Mattos e de um delegado
da Polícia Federal, na Operação Anaconda, em
São Paulo, e de fiscais do escândalo do propinoduto,
no Rio de Janeiro”. O diplomata paulista de 66 anos é
um homem de cultura refinada. Não perde os concertos dos compositores
alemães românticos e está lendo as obras completas
da poeta americana Marianne Moore. Acompanhe sua entrevista:
ISTOÉ – Há condições
para o País realmente crescer em 2004?
Rubens Ricupero – Tenho a expectativa de que o Brasil
cresça bem mais que 3% em 2004, o que ainda é muito
pouco para as necessidades nacionais. Mas não se deve criar
um otimismo excessivo, pois será a recuperação
diante de um ano, 2003, em que a economia quase não cresceu.
Mas me pergunto se vamos ter condições de manter o
crescimento durante muito tempo porque a taxa de investimento está
muito baixa no Brasil. Em 2003, pela primeira vez em muitos anos,
ela caiu a menos de 18% do PIB. Para se ter uma idéia, no
último ano do governo Sarney, em 1989, o Brasil investiu
quase 27% do PIB, e este ano está investindo 17%, taxa muito
baixa. A China investe 40%. Os outros asiáticos investem
de 30% a 35%. Um crescimento econômico sustentável
só é possível graças a uma taxa de investimento
alta.
ISTOÉ – A taxa de juros pode cair mais para
estimular a produção?
Ricupero – Tem de continuar a cair. Os juros no Brasil
deveriam cair, se possível, a um só dígito,
em termos reais, descontando a inflação. O ideal é
que ficassem abaixo de 10%. Isso é possível, mas depende
muito do ritmo de queda de inflação. Se a tendência
for mesmo de queda, não vejo razão para não
continuar a diminuir a taxa de juros de forma rápida.
ISTOÉ – A corrupção no setor
público brasileiro pode inibir investimentos estrangeiros?
Ricupero – O investidor estrangeiro prefere sempre
colocar seu dinheiro em um país que tenha mais seriedade
com a coisa pública, mesmo que tenha problemas de violência.
A corrupção afeta a credibilidade. E no Brasil este
problema ainda está em um nível muito grave porque
a impressão que se tem é de que aqui, assim como em
outros países, a corrupção é sistêmica.
Não ocorre apenas no mais alto escalão de órgãos
públicos, mas envolve também outros segmentos da administração,
até o fiscal do quarteirão, a polícia. A corrupção
tem de continuar a ser combatida em todos os segmentos. A sonegação
de Imposto de Renda já foi muito maior no Brasil, mas continua
sendo intolerável. Não quero minimizar o problema.
ISTOÉ – E a violência urbana?
Ricupero – A violência, especialmente da polícia,
compromete muito a imagem do País no Exterior, pelas deformações
que mostram. Mas não chega a afetar grandes investimentos
estrangeiros no Brasil, que são motivados pela dimensão
do mercado interno. A corrupção afeta. As grandes
companhias têm feito investimentos até em países
como Angola, que esteve em guerra civil de 1956 até o ano
passado. Angola, com petróleo e diamantes, sempre esteve
entre os três países africanos que mais atraíram
investimentos. As grandes empresas que investem em países
em desenvolvimento têm sistemas próprios de segurança.
ISTOÉ – Até que ponto a exclusão
social se torna um fator
de insegurança?
Ricupero – Enormemente. A exclusão, a desigualdade
crescente, a falta de emprego, a miséria em vários
países alimentam toda sorte de manifestações
negativas, e uma delas é a tentativa de as pessoas mais pobres
emigrarem clandestinamente para os Estados Unidos ou Europa.
ISTOÉ – Na área ambiental a posição
do Brasil ainda é muito negativa?
Ricupero – Muito. O que se faz no Brasil com a devastação
do mogno, na Floresta Amazônica, é uma vergonha. É
também uma vergonha a violação de direitos
humanos. Há muitas restrições, pelo comportamento
da polícia, pelo estado das penitenciárias, o problema
dos menores, ainda lastimável. É verdade que tem havido
uma certa conscientização, mas os resultados concretos
demoram a aparecer. Nestes dois segmentos a nota do Brasil é
baixa, eu diria 3.
ISTOÉ – O Brasil ainda pode ser classificado
de “país periférico”?
Ricupero – Apesar das relevantes pesquisas sobre
o câncer, de exportar aviões, de ter e até exportar
grandes cientistas, o Brasil ainda tem traços de país
periférico. Estes problemas relacionados aos direitos humanos,
como os massacres da Candelária, do Carandiru, de Vigário
Geral, além de episódios recentes, como o do empresário
chinês Chan Kim Chang, abalam a imagem. A tortura do empresário
chinês e sua morte foi uma vergonha, com ampla repercussão
no Exterior. Estas coisas têm um efeito devastador. E revelam
que se trata de uma prática ainda muito disseminada. O Brasil
ainda tem uma imagem de luzes e de sombras por causa de problemas
de direitos humanos, corrupção, práticas lastimáveis
contra o meio ambiente. Na área de direitos humanos, de espoliação,
trabalho escravo e exploração de crianças o
Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer.
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