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ISTOÉ – Qual o maior atrativo do País?
Wygand – É justamente o potencial que oferece.
O período de modernização criou um mercado,
uma classe consumidora. Criou também uma expressiva classe
gerencial. Um dos segredos da economia moderna é a existência
de executivos que gerenciam o capital sem ser os donos desse capital.
Nesse ponto, o Brasil atingiu a modernidade e é altamente
competitivo. O presidente mundial da General Motors, Richard Wagoner,
comandou a GM do Brasil durante vários anos. O presidente
mundial do Banco de Boston era um brasileiro (Henrique Meirelles,
atual presidente do Banco Central). Por outro lado, não é
um lugar barato para operar. Os impostos são altos. A mão-de-obra,
embora o operário ganhe pouco, é cara, por causa dos
custos sociais. E a classe consumidora é exigente.
ISTOÉ – Como assim?
Wygand – A fama de que o brasileiro compra qualquer
coisa não corresponde à realidade. O brasileiro é
muito conservador nas suas compras, particularmente a mulher brasileira.
Ela não age por impulso. Só compra um produto quando
tem certeza de que vai fazer bem a seus filhos. O que mudou nos
últimos tempos foi a velocidade da entrada de produtos novos.
A ponderação continua a mesma. Como a transformação
foi muito veloz, as decisões são tomadas de forma
mais rápida.
ISTOÉ – Na sua opinião, quais são
os maiores riscos apresentados pelo Brasil?
Wygand – A curto prazo, há incógnitas
sobre a consolidação das mudanças. A reforma
fiscal está sendo disputada. As reformas da Previdência
e do código trabalhista ainda não estão decididas.
Há também a necessidade de se definir o Estado como
separado do governo. Isso ficou um pouco capenga no Brasil. O Estado
é permanente. O governo manipula o Estado para seus fins
políticos enquanto estiver no poder. Mas tem certas coisas
dentro do Estado nas quais não se toca.
ISTOÉ – Por exemplo?
Wygand – A questão de agências reguladoras
das companhias privatizadas. De repente, parecem uma extensão
do Estado. Isso ainda não está bem definido. E o investidor
quer saber as regras do jogo. Com a eleição do Lula,
a taxa de risco Brasil foi para o teto por causa da ameaça
de revisão nos contratos de privatização.
ISTOÉ – Isso não passou de especulação...
Wygand – Mas tumultuou tremendamente o mercado. Uma
das minhas funções foi desbancar essa mitologia. O
erro fundamental das companhias foi anterior – fazer financiamentos
em dólar, com o câmbio a um por um, na crença
de que não mudaria. Não havia nenhuma razão
para se acreditar nisso, pois o Brasil tem uma história de
déficit público que pressiona essa taxa. Com os rumores
sobre a revisão dos contratos de privatização,
houve muito fuzuê por causa de nada.
ISTOÉ – Mas o déficit público
não é um fantasma permanente?
Wygand – É mais que um fantasma, é
um risco real. O Brasil tem gerenciado o problema. Porque, déficit
por déficit, os Estados
Unidos estão muito piores do que o Brasil. Estão com
déficit de
meio trilhão de dólares e ainda nem terminaram de
começar o
processo de reconstrução do Iraque. Projetando para
o futuro, o
déficit americano me preocupa muito mais do que o déficit
brasileiro.
Até porque o Brasil hoje apresenta superávit primário
(receitas menos despesas, descontada a dívida pública).
ISTOÉ – Então o sr. avalia de forma
positiva o governo Lula?
Wygand – Na parte econômica, eu tiro o meu
chapéu. O presidente tem feito um gerenciamento de bom senso.
Não tem dinheiro, não compra. Esse negócio
de gastar o que não tem representa hipotecar o futuro. A
gestão econômica e financeira deste país é
exemplar. É verdade que à custa do crescimento, da
geração de empregos etc. As pessoas se esquecem, mas,
quando ele entrou, a taxa de inflação estava em 23%,
sem correção monetária. Anualmente, perdia-se
um quarto do ativo, do dinheiro, do poder de compra. E a inflação
chegou até 32% em abril. A partir daí, começou
a baixar.
ISTOÉ – E como o sr. está vendo o Brasil
no cenário internacional?
Wygand – Separado do Lula, o Brasil ainda está
um pouco nas sombras. A década de 80 foi perdida, os anos
90 começaram com o impeachment de um presidente e uma série
de desarranjos sociais. Acredito que o Brasil agora está
retornando ao mercado internacional – e só retornando
– de uma forma positiva. Há certas vantagens comparativas
que precisam ser negociadas. O Brasil é um criador de frango
por excelência. Então, não pode deixar que protejam
o frango em nenhum lugar do mundo. Os governos militares defendiam
que deveria haver conteúdo nacional em tudo. Na época,
os americanos argumentavam que não fazia sentido produzir
tudo. Que o Brasil deveria investir naquilo que faz bem. Agora,
uma das descontinuidades da economia internacional é a proteção
da indústria sem condições de competitividade.
O subsídio só tende a piorar a situação.
É preciso negociar uma solução de forma justa.
Não do tipo “eu tenho a força”.
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