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 ENTREVISTA
17/12/2003

ISTOÉ – Qual o maior atrativo do País?
Wygand –
É justamente o potencial que oferece. O período de modernização criou um mercado, uma classe consumidora. Criou também uma expressiva classe gerencial. Um dos segredos da economia moderna é a existência de executivos que gerenciam o capital sem ser os donos desse capital. Nesse ponto, o Brasil atingiu a modernidade e é altamente competitivo. O presidente mundial da General Motors, Richard Wagoner, comandou a GM do Brasil durante vários anos. O presidente mundial do Banco de Boston era um brasileiro (Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central). Por outro lado, não é um lugar barato para operar. Os impostos são altos. A mão-de-obra, embora o operário ganhe pouco, é cara, por causa dos custos sociais. E a classe consumidora é exigente.

ISTOÉ – Como assim?
Wygand –
A fama de que o brasileiro compra qualquer coisa não corresponde à realidade. O brasileiro é muito conservador nas suas compras, particularmente a mulher brasileira. Ela não age por impulso. Só compra um produto quando tem certeza de que vai fazer bem a seus filhos. O que mudou nos últimos tempos foi a velocidade da entrada de produtos novos. A ponderação continua a mesma. Como a transformação foi muito veloz, as decisões são tomadas de forma mais rápida.

ISTOÉ – Na sua opinião, quais são os maiores riscos apresentados pelo Brasil?
Wygand –
A curto prazo, há incógnitas sobre a consolidação das mudanças. A reforma fiscal está sendo disputada. As reformas da Previdência e do código trabalhista ainda não estão decididas. Há também a necessidade de se definir o Estado como separado do governo. Isso ficou um pouco capenga no Brasil. O Estado é permanente. O governo manipula o Estado para seus fins políticos enquanto estiver no poder. Mas tem certas coisas dentro do Estado nas quais não se toca.

ISTOÉ – Por exemplo?
Wygand –
A questão de agências reguladoras das companhias privatizadas. De repente, parecem uma extensão do Estado. Isso ainda não está bem definido. E o investidor quer saber as regras do jogo. Com a eleição do Lula, a taxa de risco Brasil foi para o teto por causa da ameaça de revisão nos contratos de privatização.

ISTOÉ – Isso não passou de especulação...
Wygand –
Mas tumultuou tremendamente o mercado. Uma das minhas funções foi desbancar essa mitologia. O erro fundamental das companhias foi anterior – fazer financiamentos em dólar, com o câmbio a um por um, na crença de que não mudaria. Não havia nenhuma razão para se acreditar nisso, pois o Brasil tem uma história de déficit público que pressiona essa taxa. Com os rumores sobre a revisão dos contratos de privatização, houve muito fuzuê por causa de nada.

ISTOÉ – Mas o déficit público não é um fantasma permanente?
Wygand –
É mais que um fantasma, é um risco real. O Brasil tem gerenciado o problema. Porque, déficit por déficit, os Estados
Unidos estão muito piores do que o Brasil. Estão com déficit de
meio trilhão de dólares e ainda nem terminaram de começar o
processo de reconstrução do Iraque. Projetando para o futuro, o
déficit americano me preocupa muito mais do que o déficit brasileiro.
Até porque o Brasil hoje apresenta superávit primário (receitas menos despesas, descontada a dívida pública).

ISTOÉ – Então o sr. avalia de forma positiva o governo Lula?
Wygand –
Na parte econômica, eu tiro o meu chapéu. O presidente tem feito um gerenciamento de bom senso. Não tem dinheiro, não compra. Esse negócio de gastar o que não tem representa hipotecar o futuro. A gestão econômica e financeira deste país é exemplar. É verdade que à custa do crescimento, da geração de empregos etc. As pessoas se esquecem, mas, quando ele entrou, a taxa de inflação estava em 23%, sem correção monetária. Anualmente, perdia-se um quarto do ativo, do dinheiro, do poder de compra. E a inflação chegou até 32% em abril. A partir daí, começou a baixar.

ISTOÉ – E como o sr. está vendo o Brasil no cenário internacional?
Wygand –
Separado do Lula, o Brasil ainda está um pouco nas sombras. A década de 80 foi perdida, os anos 90 começaram com o impeachment de um presidente e uma série de desarranjos sociais. Acredito que o Brasil agora está retornando ao mercado internacional – e só retornando – de uma forma positiva. Há certas vantagens comparativas que precisam ser negociadas. O Brasil é um criador de frango por excelência. Então, não pode deixar que protejam o frango em nenhum lugar do mundo. Os governos militares defendiam que deveria haver conteúdo nacional em tudo. Na época, os americanos argumentavam que não fazia sentido produzir tudo. Que o Brasil deveria investir naquilo que faz bem. Agora, uma das descontinuidades da economia internacional é a proteção da indústria sem condições de competitividade. O subsídio só tende a piorar a situação. É preciso negociar uma solução de forma justa. Não do tipo “eu tenho a força”.

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