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 INTERNACIONAL 19/11/2003
Reino Unido

Uma dúvida real
Inglaterra tenta impedir veiculação de suspeitas de caso
entre o príncipe Charles e seu assessor

Fernando F. Kadaoka

  John Stillwell/EFE
  Charles Philip Arthur George, príncipe de Gales: “Eu só quero deixar claro que (os rumores) são totalmente falsos e não têm um mínimo de evidência”

Com quase 55 anos e esperando há tempos para assumir o trono do Reino Unido, o príncipe Charles enfrenta mais um escândalo. Desta vez, com conotações sexuais e toques de censura. Há tempos, um certo rumor de que “um integrante da família real” fora flagrado em uma “situação comprometedora” reverberava nos ouvidos dos súditos ingleses. Entretanto, graças a medidas judiciais, os meios de comunicação ingleses estavam proibidos de publicar qualquer detalhe sobre essas suposições. Mas, fora do Reino Unido, o caso ganhou as primeiras páginas dos principais jornais europeus. O imbróglio atingiu seu ápice na segunda-feira 10, quando 16 jornais europeus deixaram de circular na Inglaterra e no País de Gales por conterem informações sobre o caso. Entre os jornais censurados estavam os principais do continente europeu, como os franceses Le Monde e Le Figaro, o italiano Corriere della Sera e o espanhol El País. Foram os próprios distribuidores locais que decidiram não vender os jornais estrangeiros, com medo de possíveis represálias.

Há cerca de duas semanas, o tablóide inglês Mail on Sunday anunciou uma bombástica entrevista com George Smith, 43 anos, ex-valete do príncipe Charles, em que ele descreveria com detalhes a “situação comprometedora envolvendo um integrante da família real” da qual ele tinha sido supostamente testemunha. Só que essa entrevista nunca chegou às bancas por conta de uma ação judicial da Suprema Corte inglesa, baseada na severa lei de difamação de 1996, que impediu a publicação do relato de Smith. Dias depois, o diário britânico The Guardian ganhou na Justiça o direito de revelar o nome de quem estava impedindo a entrevista de ser publicada: Michael Fawcett, 40 anos, ex-empregado do príncipe Charles. Nada foi dito pelo Guardian, mas ficou a insinuação de que Michael Fawcett teria motivos pessoais para não querer que o relato de Smith viesse a público.

Na obviedade de que os personagens envolvidos eram o príncipe de Gales e o ex-empregado Fawcett, a assessoria do príncipe adiantou-se em uma decisão arriscada. Negou o episódio sem ele ter sido, de fato, noticiado. Michael Peat, secretário particular de Charles veio a público, na quinta-feira 6, para ler a nota: “Eu concordo que não é usual fazer uma declaração sobre suposições não especificadas, mas os rumores estavam se tornando objeto de muita especulação. Eu só quero deixar claro, embora não possa me referir aos detalhes da alegação, que elas são totalmente falsas e sem um mínimo de evidência.”

Nem mesmo o mais infame dos súditos acredita na versão do
ex-valete do Palácio de Kensington, que sofre de alcoolismo e tem distúrbios psicológicos. Smith já havia sido capa dos tablóides quando acusou o mesmo Michael Fawcett de tê-lo violentado, mas suas acusações são consideradas da profundidade de um pires. Desde a trágica morte da princesa Diana, em agosto de 1997, as autoridades inglesas decidiram refrear a fúria sensacionalista. Mas essas medidas judiciais penduram-se na corda bamba entre a censura e a liberdade de imprensa e nem sempre conseguem o devido equilíbrio. Mesmo impedidos de divulgar detalhes sobre o “caso Charles”, os tablóides londrinos insinuaram um escândalo sexual que, somado à negação prévia do príncipe, só trouxe mais publicidade e curiosidade a respeito da sexualidade do herdeiro britânico. Em vez de fazer o “caso Charles” silenciar, a censura só o deixou em maior evidência.

 
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