Antes
que seja tarde
Resistência armada à ocupação
enfraquece “falcões” e
obriga os EUA a apressar entrega do poder em Badgá |
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Encruzilhada:
ataques já atingem italianos, ameaçam Berlusconi
(à dir.) e fazem Paul Bremer (à esq.) mudar
planos
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Osmar Freitas Jr. – Nova York (EUA)
Nem mesmo o Conselho Nacional Iraquiano – uma colcha de retalhos
de políticos escolhidos a dedo pelo Pentágono –
aguenta mais a administração americana no Iraque.
Querem a passagem rápida do
poder exercido pelos Estados Unidos no país para mãos
nativas. A desenfreada carreira que levou o administrador americano,
Paul Bremer III, de Bagdá a Washington, na semana passada,
dá mostras dessa urgência. Em sua bagagem, ele levou
esboços de planos para eleições antecipadas
– possivelmente em meados de 2004 – e a entrega dos
negócios de governo aos futuros escolhidos via voto.
A pressa de agora já vem tarde. Não há mais
dúvidas de que se enfrenta no Iraque uma guerra de insurgência,
e não apenas atos terroristas, como vinha proclamando com
insistência o governo George W. Bush.
Atos terroristas, na definição militar deste país,
envolvem basicamente baixas civis. O que se tem no Iraque é
uma guerra de atrito, organizada e com algum apoio da população”,
diz o senador republicano John McCain, que apoiou a invasão
do país, mas tem sido um crítico cada vez mais estridente
da política americana no local. Das mãos de Bremer,
o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca também
recebeu um relatório do escritório da CIA em Bagdá
dando conta de que aumenta o apoio da população em
geral às operações dos rebeldes. Segundo o
comandante das tropas americanas que ocupam o Iraque, John Abizaid,
os inimigos dos Estados Unidos não passam de cinco mil pessoas,
mas fazem muito estrago. “Esse número pode parecer
pouco, mas são
inimigos muito perigosos, bem armados e financiados”, afirmou
o
general. São mais de 30 atentados diários sofridos
pelas tropas da coalizão. Na quarta-feira 12, por exemplo,
em um destes atentados,
na cidade de Nassíria, 26 pessoas morreram. Um caminhão-bomba
demoliu o quartel-general das tropas italianas, ferindo 105 pessoas
e matando nove iraquianos e 17 soldados da Itália, o maior
número de baixas de membros não-americanos das forças
de ocupação. Os estilhaços desta bomba chegaram
até o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Ele,
que já enfrentava oposição à participação
de seus compatriotas no imbróglio iraquiano, corre agora
o risco de colher o voto de desconfiança do Parlamento italiano.
Berlusconi não é o único que está
correndo o risco de perder o emprego. Toda a cúpula neoconservadora
do Pentágono, composta de liderança civil encabeçada
pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, vem sofrendo
bombardeio. Os petardos vêm desde a oposição
democrata, passando por membros do Partido Republicano, e desembocam
na própria Casa Branca. Há três semanas, a conselheira
de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, já havia
ocupado muito espaço de Rumsfeld no planejamento do pós-guerra
no Iraque. O plano de Bremer, aprovado agora pelo Conselho de Segurança
Nacional, pretende entregar o governo iraquiano para um conselho
provisório de políticos locais. Em meados de 2004
seriam realizadas eleições para a escolha de lideranças
definitivas. Ainda não se bateu o martelo sobre a retirada
de tropas de ocupação. Caso isso não aconteça,
os atentados deverão continuar e a segurança do país
permanecerá insustentável. “Bush sabe que não
pode retirar as tropas em curto espaço de tempo. Primeiro,
porque isso seria equivalente ao reconhecimento de derrota. Segundo:
não se sabe quem será eleito. Corremos o risco de
que a maioria xiita ocupe o governo e tente instalar um regime teocrático
islâmico no local. A situação não seria
aceita pelos sunitas, curdos e outras etnias nacionais. Quem ganhar
as eleições terá nas mãos caneta, tinta
e papel para escrever a Constituição que quiser para
o país”, diz o senador McCain. Ou seja: se correr o
bicho pega, se ficar o bicho come.
Imaginava-se nos corredores do Pentágono que uma Constituição
deveria ser escrita e aprovada pelo Conselho Nacional Iraquiano
– que, a bem da verdade, não fez nenhum progresso sequer
conseguiu entendimento entre seus membros. Bremer, que vive o cotidiano
explosivo na região, sabe que não há tempo
para exercícios de literatura constitucional. Está
cada vez mais claro que a comunidade internacional estava com a
razão em recomendar a entrega da rapadura aos iraquianos.
“O que parece que vão tentar agora é aquilo
que Sérgio Vieira de Mello já havia dito há
meses, e que o secretário-geral, Kofi Annan, continua insistindo.
O problema é que, agora, pode ser tarde demais”, diz
uma fonte diplomática francesa na ONU, em Nova York. A pressa,
inimiga da perfeição, neste momento pode não
ter mais serventia para iraquianos e americanos.
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