Cristovam
Buarque criticou tanto a falta de verba de seu Ministério
que andou frequentando as listas de nomes a serem degolados
na reforma do primeiro escalão. Agora, depois
de elogiado por Lula em cerimônia do Dia do Professor,
ele começa a mostrar resultados e já anuncia
planos ambiciosos. Mas continua com a língua
afiada, especialmente contra as elites.
ISTOÉ – O sr. lançou uma
campanha contra o analfabetismo na qual mostra que 20
milhões de brasileiros não sabem o que
está escrito na Bandeira Nacional.
Cristovam Buarque – Nossa bandeira é
a maior prova da maldade, da insensibilidade de nossas
elites. Na época da Proclamação
da República, 70% da população
era analfabeta. Os republicanos criaram uma bandeira,
única no mundo, onde há um lema escrito,
mostrando que o povo, pobre e iletrado, não contava.
ISTOÉ – O sr. acha que a escola,
na estrutura atual, seria um fator de separação,
em vez de união?
Cristovam – Sim. Ela mantém um
verdadeiro apartheid ou apartação social.
Para o pobre, a escola é ruim e as possibilidades
de acesso, poucas. Já a elite, a que se junta
a classe média, consegue preparar seus filhos
para ficarem com o melhor pedaço do bolo. O que
garantiu a existência da Itália a partir
do século XIX foi a escola. O italiano ficou
sendo obrigatório e manteve a união do
país, que passou a ter uma língua única.
Nós, aqui, temos hoje mais analfabetos em termos
absolutos do que o Brasil tinha de população
no final do século XIX.
ISTOÉ – De onde vêm as desigualdades
na educação brasileira?
Cristovam – A primeira causa é
cultural. No Brasil, educação só
tem valor no que representa aumento potencial na renda.
A segunda é política. A elite sempre teve
profundo desprezo pelo povo. A terceira é corporativa.
A educação é vista pela ótica
do Estado, dos teóricos da pedagogia, nunca pelo
ponto de vista da criança, do adolescente. É
isso que temos que mudar.
ISTOÉ – O governo vetou uma lei
que garantia recursos às Apaes e outras instituições
de ensino especial. E o sr. recebeu do presidente Lula
a missão de achar uma saída.
Cristovam – Vamos baixar uma MP que transferirá
R$ 8,7 milhões para as prefeituras e essas farão
acordos individuais com cada instituição.
Com isso, se evita mais uma violência social. |