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  EDUCAÇÃO & CIDADANIA 19/11/2003
Ensino Público

  André Dusek
  Carvalho: Encarregado de erradicar o analfabetismo
Outro alvo de mudanças será o Provão, o exame que os universitários fazem no final de seus cursos e serve para avaliar a qualidade do ensino superior. Além da prova feita pelos alunos, o novo Provão terá mais dois critérios de avaliação das universidades. O primeiro é institucional, com inspetores do MEC indo aos estabelecimentos de ensino verificar suas condições operacionais. O segundo é analisar os currículos e o perfil dos alunos formados, para verificar se a instituição tem o que Cristovam chama de compromisso com o País. “Uma faculdade de medicina, por exemplo, que tipo de médico forma? Ou uma de educação, quantos professores de física forma por ano? Temos uma enorme carência de professores de física e uma universidade que não se preocupa com isso terá uma nota baixa”, comenta. O ministro acha que criar o hábito da avaliação foi o grande mérito de seu antecessor, Paulo Renato. Mas acha que chegou a hora de ir além. “Já existem cursinhos para o Provão. Por isso, nos cursos muito numerosos, nem todos farão a prova. A escolha será por amostragem, para evitar distorções. Ninguém saberá, até pouco antes do teste, que será escolhido”, anuncia o ministro.

“ Bandeira com lema é maldade da elite ”

Cristovam Buarque criticou tanto a falta de verba de seu Ministério que andou frequentando as listas de nomes a serem degolados na reforma do primeiro escalão. Agora, depois de elogiado por Lula em cerimônia do Dia do Professor, ele começa a mostrar resultados e já anuncia planos ambiciosos. Mas continua com a língua afiada, especialmente contra as elites.

ISTOÉ – O sr. lançou uma campanha contra o analfabetismo na qual mostra que 20 milhões de brasileiros não sabem o que está escrito na Bandeira Nacional.
Cristovam Buarque –
Nossa bandeira é a maior prova da maldade, da insensibilidade de nossas elites. Na época da Proclamação da República, 70% da população era analfabeta. Os republicanos criaram uma bandeira, única no mundo, onde há um lema escrito, mostrando que o povo, pobre e iletrado, não contava.

ISTOÉ – O sr. acha que a escola, na estrutura atual, seria um fator de separação, em vez de união?
Cristovam –
Sim. Ela mantém um verdadeiro apartheid ou apartação social. Para o pobre, a escola é ruim e as possibilidades de acesso, poucas. Já a elite, a que se junta a classe média, consegue preparar seus filhos para ficarem com o melhor pedaço do bolo. O que garantiu a existência da Itália a partir do século XIX foi a escola. O italiano ficou sendo obrigatório e manteve a união do país, que passou a ter uma língua única. Nós, aqui, temos hoje mais analfabetos em termos absolutos do que o Brasil tinha de população no final do século XIX.

ISTOÉ – De onde vêm as desigualdades na educação brasileira?
Cristovam –
A primeira causa é cultural. No Brasil, educação só tem valor no que representa aumento potencial na renda. A segunda é política. A elite sempre teve profundo desprezo pelo povo. A terceira é corporativa. A educação é vista pela ótica do Estado, dos teóricos da pedagogia, nunca pelo ponto de vista da criança, do adolescente. É isso que temos que mudar.

ISTOÉ – O governo vetou uma lei que garantia recursos às Apaes e outras instituições de ensino especial. E o sr. recebeu do presidente Lula a missão de achar uma saída.
Cristovam –
Vamos baixar uma MP que transferirá R$ 8,7 milhões para as prefeituras e essas farão acordos individuais com cada instituição. Com isso, se evita mais uma violência social.

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