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ECONOMIA & NEGÓCIOS 19/11/2003
Comércio exterior

Baralho na manga
Avanço nas negociações com a Europa dá ao Brasil um trunfo importante para renegociar os termos da Alca

Eduardo Hollanda
Colaborou: Hélio Contreiras

  André Dusek
  Equlíbrio: Para Amorim, relação com os EUA ganhou flexibilidade
Foi apenas um dia de reunião e negociações entre ministros do Mercosul e da União Européia, na quarta-feira 12 em Bruxelas. No final, os dois blocos tinham avançado de modo surpreendente no rumo de um poderoso acordo de livre comércio que já tem até data para entrar em vigor: outubro de 2004, três meses antes do prazo marcado para a estréia da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em janeiro de 2005. O Programa de Trabalho de Bruxelas, apresentado com satisfação pelo chanceler brasileiro Celso Amorim, em nome de seus pares do Mercosul, e pelos comissários europeus para o Comércio, Pascal Lamy, e Assuntos Externos, Chris Patten, no final do dia, surpreendeu porque, além de já falar em negociações sobre “textos comuns” na próxima reunião marcada para dezembro, determina que os temas agrícolas e seus polêmicos subsídios entrem em discussão imediatamente, ao contrário da Alca, na qual a agricultura virou tabu. “É importante que tenha sido reconhecida a prioridade para o tema agrícola”, comemorou Celso Amorim. Mas quem se mostrou mais entusiasmado com um futuro acordo Mercosul-UE foi Patten. “Ninguém deve subestimar a importância que atribuímos à conclusão de um ambicioso acordo com o Mercosul”, afirmou sorridente.

Para o Brasil e seus parceiros de continente, o sucesso de Bruxelas chegou na melhor hora possível: uma semana antes do início de uma reunião de ministros dos 34 países que, teoricamente, formarão a Alca. Com o cronograma de Bruxelas na mão – que prevê para julho a conclusão do texto do acordo de livre comércio –, a turma do Mercosul entrará na agenda em Miami, na quinta-feira 20, como um jogador que chega na mesa de pôquer não com um ás escondido na manga, mas com um baralho inteiro, pronto a dominar o jogo.

  Yves Logghe/AP -  Virginia Mayo/AP
  Amigos: Lamy e Patten, da União Européia, apostam em um acordo amplo de comércio livre com o Mercosul
A reunião, que pela vontade dos americanos seria para colocar a Alca em velocidade máxima, deverá ser marcada pela adoção de um novo – e mais pobre – modelo para a área de livre comércio. Com a decisão do Brasil em não discutir mais a questão dos bilionários subsídios que os EUA destinam a seus agricultores, mandando a questão para a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Alca caminha para ser, na verdade, uma míni Alca. Sem a agricultura na pauta, o Brasil e a turma do Mercosul não querem mais discutir temas polêmicos, como compras governamentais, investimentos e propriedade intelectual. O modelo joga areia nos planos americanos, que querem que a Alca represente caminho livre para suas empresas dominarem as concorrências de governo, ao mesmo tempo em que não admitem quebra de patentes de medicamentos – como o Brasil e a Europa defendem no caso da Aids, por exemplo.

Com isso, a Alca pode ficar limitada ao acesso a mercados, pelo menos no caso do Mercosul, que deixa para discutir na OMC agricultura, compras governamentais, investimentos e patentes, por exemplo. Pode também virar uma salada, com países menores e mais pobres, sem o desenvolvimento de Brasil e Argentina, aceitando o que os americanos querem impor em troca de vender seus poucos produtos. E mesmo limitada ao comércio de bens e mercadorias, a questão não é simples, pois terá que haver uma série de acordos sobre cada um dos itens em disputa. O que os EUA sabem é que não podem abrir mão do Brasil e da Argentina. Sem os dois e os companheiros do Mercosul, em vez de Alca, os americanos ficariam com uma espécie de Naftão, acrescentando muito pouca coisa ao Nafta, bloco que formam com Canadá e México.

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