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Juventude
trucidada
Bárbaro assassinato de casal
de estudantes mostra os riscos
de ser adolescente e reanima debate sobre maioridade penal |
Chico
Silva, Mário Simas Filho e Rita Moraes
Colaboraram: Carla Gullo e Laura Ancona Lopez
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Paixão:
As cartas de Liana para Felipe mostram o envolvimento dos dois
adolescentes |
É impossível definir exatamente com quantos anos
uma criança se torna adolescente e com qual idade o adolescente
passa a ser adulto. Muito mais do que uma etapa cronológica,
a adolescência se caracteriza como o período em que
o jovem busca sua auto-afirmação, procura romper limites,
questiona regras e se sente imune a qualquer coisa. Segundo especialistas,
trata-se de uma saudável fase de mudanças de comportamento.
Na última semana, porém, o bárbaro assassinato
dos estudantes Felipe Silva Caffé, 19 anos, e Liana Friedenbach,
16, revelou, em cores cruéis, que, numa sociedade marcada
por desigualdades profundas na qual a vida se tornou banal, a adolescência
está sendo roubada. “Viver perigosamente deixou de
ser uma expressão charmosa que apontava alguns comportamentos
típicos de adolescentes para tornar-se uma frase com sentido
bem concreto e ameaçador”, diz a psicóloga Rosely
Sayão, autora de Como educar meu filho? Entre os frios
assassinos de Liana e Felipe está também um adolescente
que confessou ter matado apenas porque sentiu vontade de matar.
O caso chocou o País e reanimou o debate sobre a redução
da maioridade penal no Brasil.
Liana, a filha mais velha de uma família de classe média
alta, cursava,
no período noturno, o segundo ano do ensino médio
no Colégio São Luiz, um dos mais tradicionais de São
Paulo. Na quinta-feira 29 de outubro,
ela disse aos pais – o advogado Ari e a pedagoga Márcia
– que passaria o final de semana com amigas do Shazit, um
grupo de jovens ligados à Congregação Israelita
Paulista (CIP), em Ilhabela, no litoral norte de
São Paulo. Felipe, o caçula dos quatro filhos do economista
Reinaldo
e da enfermeira Lenice, de classe média baixa, estava desempregado
e cursava o terceiro ano do ensino médio, também no
São Luiz,
como bolsista. Ele namorava Liana havia um mês e meio e disse
aos pais que no final de semana iria acampar com amigos em um sítio
de Embu-Guaçu, na região metropolitana de São
Paulo. Felipe e Liana mentiram para seus pais.
Na sexta-feira 30 de outubro, os dois saíram do colégio
por volta das
23h e passaram o resto da noite perambulando pela avenida Paulista.
No sábado pela manhã, tomaram um ônibus para
Embu-Guaçu e depois caminharam cerca de oito quilômetros
até chegarem, perto do meio-dia, ao sítio do Lê,
uma área abandonada pelo proprietário, quase na divisa
com o município de Juquitiba. No caminho, compraram água,
miojo, biscoitos e leite em pó. Montaram a barraca e foram
passear em um lago próximo dali. Quando estavam perto do
lago, o sonho romântico dos adolescentes que buscavam um final
de semana a dois no bucólico cenário da Mata Atlântica
começou a virar pesadelo.
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| Ari
Friedenbach, pai da estudante Liana: “É importante que os
adolescentes falem com os pais e ouçam o que eles têm a dizer”
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Medo – Quando caminhavam para o
lago, Felipe e Liana foram vistos pelo também adolescente
R.A.A.C., 16 anos, conhecido como Champinha. Pobre, filho de pai
alcoólatra, ele estudou apenas até a terceira série
do ensino básico. Entre os dez e os 14 anos, Champinha ajudou
a mãe no trabalho da roça, mas, no lugar de uma adolescência
sadia,
ele sofre com a falta de medicamentos para as convulsões
que começou a
ter a partir dos 14 anos, quando
passou a viver largado pelas ruas prestando serviços a quadrilhas
que atuam nos desmanches de carros roubados. Apesar de não
registrar nenhuma passagem pela Febem, ele é acusado de já
ter matado pelo menos uma pessoa. Sempre com um facão na
cintura, Champinha se impunha na região pelo medo que transmitia
aos vizinhos, conhecedores de seus crimes. Quando avistou o casal,
planejou assaltá-los. Chamou o comparsa Aguinaldo Pires,
41 anos, seu companheiro em pequenos furtos e caseiro da Chácara
Fazenda Boa Esperança, a quatro quilômetros do sítio
do Lê. Aguinaldo, com uma espingarda usada para caçar,
e Champinha, com o facão, renderam o casal sem dificuldade.
Foram até a barraca e pegaram cerca de R$ 45 na carteira
de Liana. Frustrados com a falta de maiores valores, decidiram que
o assalto iria se transformar em sequestro. Levaram o casal até
a Chácara Boa Esperança. Lá, um outro comparsa,
Paulo César Marques, conhecido como Pernambuco, se juntou
ao grupo. Em um casebre bagunçado, sujo e sem luz elétrica,
os cinco passaram a noite no
mesmo quarto.
No domingo pela manhã, Felipe argumentou que sua família
não era
rica e que tinha um irmão policial. Foi o suficiente para
selar seu
destino. Os cinco deixaram a casa e caminharam cerca de três
quilômetros pela mata. Próximo a um desfiladeiro, Pernambuco
pegou a espingarda de Aguinaldo, mirou a nuca de Felipe e disparou.
Segundo legistas do IML paulista, o estudante morreu em poucos segundos.
Liana, de acordo com o depoimento de Champinha, não
viu o namorado ser morto, mas ouviu o tiro e entrou em estado de
choque. “Ela ficou tremendo o tempo todo e não falava
nada. Só chorava”, disse Aguinaldo na delegacia de
Embu-Guaçu.
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